Milagre brasileiro esconde problemas estruturais na economia

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São vários economistas que estão a chamar a atenção para os problemas estruturais do Brasil.

Detrás da euforia do “Brasil está na moda” e da indiscutível década dourada do país, há vários economistas a chamar a atenção para problemas estruturais na economia brasileira que ensombram os cenários optimistas para o ‘tigre latino’ e poderão tornar este período em mais uma oportunidade perdida como tantas outras nos últimos trinta anos.

No curto prazo, o nível do real ameaça a indústria nacional e os lucros que espreitam com a descoberta da reserva de petróleo do ‘pré-sal’ têm potencial para criar uma bolha no sector. No médio prazo, a baixa taxa de poupança (17%, contra 54% na China) para um perfil de crescimento que será de 7,2% este ano, ou a fraca produtividade (alimentada pela economia paralela, um baixo nível tecnológico e educativo) também preocupam. E além disso, apesar das melhorias recentes, os problemas da burocracia – o Banco Mundial coloca o Brasil na 129ª posição em ambiente de negócios num total de 183 países -, das péssimas infra-estruturas (apenas 10% das estradas nacionais estão pavimentadas), da desigualdade e do crime continuem a ser imagens de marca do país.

O Nobel da economia, Paul Krugman, recentemente no Brasil, falou da “sina das capas de revistas”, em que quando um país aparece muito nas primeiras páginas das revistas internacionais é sinal que vai começar a ter problemas, dando o exemplo do México nos anos 90, o leste asiático e Argentina, em que, depois a fama, claudicaram diante de crises económicas provocadas por défices externos. A afirmação do mercado interno brasileiro parece ser o grande antídoto a crises – a procura interna contribuiu com mais de 9% para o crescimento PIB este ano, diz o FMI. Para Krugman isso é suficientemente forte para aguentar um défice externo até 4% do PIB, quando agora é de 2,24% do PIB. Porém, com uma taxa de juro de 10,75% e uma inflação de 5%, o Brasil tem das taxas de juro reais maiores do mundo, encarecendo o serviço da dívida e atraindo uma chuva diária de dólares no país que pressionam o banco central, conforme alerta o FMI, pedindo um “policy mix bem calibrado”. Para o Nobel, o maior problema é se a China, muito pressionada a estimular o seu mercado interno, acabe por abrandar a procura milionária das comodities brasileiras (como o minério de ferro), comprometendo a sorte do Brasil.

Um relatório recente do Banco Mundial fala da “maldição das comodities”, a ideia que a abundância de matérias-primas pode ser adversa ao crescimento. O Brasil tem conseguido diversificar a sua lista de exportações em que a maior fatia era o café (53% do total) na década de 60 para o minério de ferro hoje em dia (7% do total em 2006). Mas o pré-sal pode desestabilizar a balança – o essencial para o BM é saber converter os lucros obtidos com as comodities em poupança de longo prazo.

Este perfil do comércio externo, assente nas matérias-primas, também ajuda a criar um potencial risco de desindustrialização. Em 2008 só 45% das exportações em mercadorias eram bens manufacturados contra 63% na Índia e 93% na China. O valor do real também contribuiu para facilitar as importações, desincentivando a reconversão industrial.

Depois há um problema com a formação de preço em economias sobreaquecidas. Robert Shiller, economista de Yale, disse esta semana que há vários riscos de bolha no Brasil. Não só uma “bolha imobiliária em São Paulo e no Rio” como uma “bolha” que resulta da euforia com a descoberta do pré-sal “O México teve descobertas incríveis [de reservas] nos anos 80 e 90, isso levou a uma euforia as empresas e os mexicanos emprestaram muito dinheiro pensaram que eram ricos e depois veio a crise de 94. Há claramente esse risco no Brasil”.

O presidente Lula da Silva habitou-se a iniciar os discursos com um “nunca dantes neste país” e a prosperidade actual dá-lhe razão, porém as crises passadas aconselham prudência porque a queda pode ser igualmente histórica.

Com as informações, Luís Rego, do site português Económico

Por Rodrigo Cintra

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