Dói lá, dói cá

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“Como é salubre esta vida de embarcado”, penso lendo o artigo do meu amigo Caê Mahan. Idas e vindas que deixam marcas, como uma articulação sem lubrificação. Tenho me preparado para entrar na área de Segurança do Trabalho em Plataformas e sei, mesmo de pensamento calado, que em algum momento devo me preparar para isso.

Lembro do ano de 2004, em que eu era um garoto de 19 anos, deslumbrado com uma farda branca. Uma simples semana dentro da escola me impunha a rotina de chorar pelo menos uma vez por semana. Eu nunca tinha pensado no resultado real que a carreira de oficial mercante me traria. Eu pensava no agora, e agia prevenindo sempre os 10 minutos seguintes, quando devia salvaguardar os próximos 10 anos.

Hoje, pensando além, sinto-me seguro para encarar esta vida. Já não sou mais aquele garoto e já não me deslumbro com tanta facilidade. Amadureci o bastante para cogitar esta possibilidade. Penso na vida em terra e em como nos machucamos também com a rotina cruel de quem não tem a oportunidade de viver longe da costa.

Quem nos acompanha em terra, sofre também. A presença não supre a carne do almoço, nem o colégio do seu filho. Não ter qualidade de vida é ter sofrimento. Muitas vezes, com esse sofrimento vem um afastamento das pessoas que mais nos amam. Esse afastamento traz uma saudade, e essa saudade é a mais cruel de todas. A saudade de quem está perto.

Numa visita ao VLCC Barão de Mauá, figura carimbada de todos os alunos da EFOMM, o comandante, cujo nome acho que era Luiz, dizia que toda vez que embarcava, era uma tristeza, mas quando ele chegava, era sempre uma alegria. Quando não se consegue uma boa situação profissional em terra, essa tristeza é contínua.

Acho que a diferença entre as desvantagens de se trabalhar embarcado e em terra é a dificuldade em transformá-la em alegria. O que se resolve com um desembarque, só se resolve com outro emprego, numa selva onde, em vez de recebermos para divulgar vagas, temos que pagar para acessá-las.

Em terra, as carências não são visíveis. Como explicar ao chefe que você tem saudade da sua esposa, que dorme com você todos os dias? Nunca a culpa é do emprego, que lhe tira o couro e lhe paga uma miséria. Nos navios, plataformas, o entendimento é tão óbvio, que nem é conversado.

Em terra, não existe o esforço da compensação, a vida é selvagem e a cultura é a da crueldade. O trabalhador em terra vive sem perspectiva de crescimento e fazer parte de uma CIPA, que garante dois anos sem ser demitido, é a maior das malandragens. Vejam, a instabilidade é tanta que míseros dois anos numa empresa garantidos fazem a felicidade de um monte de gente.

Vejo muito sofrimento nos dois lados. Mas a possibilidade da recompensa, eu vejo apenas em um.

E os benefícios? Todos sabemos como é a realidade do embarcado em relação a isso. E em terra? Já vi um cara ser contratado para trabalhar durante 6 horas diárias na carteira, trabalhava 10, e quando cumpriu 9, foi demitido. Minha mulher trabalhou durante 10 anos numa empresa e, quando saiu, ganhou menos de 6 mil reais de fundo de garantia. O petróleo trabalha com participações nos lucros que chegam a 30 mil – por ano.

Dinheiro não é tudo, mas simboliza quase tudo. Pense numa vida perfeita, agora tire a fatia que se relaciona com o dinheiro. Viu?

Entre os dois sofrimentos, sinceramente, prefiro um que valha a pena.

Por Marcus Lotfi

2 COMENTÁRIOS

  1. Pois é, Marcus…
    E mesmo assim ainda tem gente que reclama da vida de bordo.
    Não que seja perfeita, pois não é.
    De vez em quando todos reclamamos, inclusive eu, mas quero me referir aos que reclamam sem parar.
    Desses eu corro.
    O pior é você olhar para alguns e ter a plena certeza que eles NUNCA trabalhariam em muitos lugares em terra, por não terem a mínima condição, pois ainda tem este detalhe: a Marinha Mercante e o Offshore são, respectivamente, uma mãe e um pai para muitas ínguas. Todo mundo se diz “um profissional muito competente”, mas na hora que o bicho pega, a gente vê quem é quem. Todos erramos, isso é normal. Eu já errei, o Fabiano já errou, todo mundo já errou. O problema são os “profissionais” que só erram. Conheço um Sondador que, toda vez que embarcava, era problema. Chaves hidráulicas detonadas precocemente, Top Drive “porrando” no bloco do coroamento ou nos drill pipes, marreta para todo lado… E o cara é Sondador, um dos maiores salários de bordo.
    Detalhe: era um dos que mais reclamava de estar embarcado.
    O que tem de remo torto por aí…
    E reclamando… sempre reclamamando.

  2. Pois entao, Lotfi.
    Muitos embarcados pensam que so conosco ocorre este tipo de coisa, o que nao e verdade, e temos para provar, todos os “terrestres” que nos cercam.

    E como o Cintra comentou, nunca e bom trabalhar com o famoso reclamao.
    Ele afeta o proprio trabalho e o dos demais.

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