Em Fortaleza dispensaram o estaleiro, mas nada de urbanização na área

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A lâmina azul continua lá, preservada. E recebe visitas diariamente. Em geral, de quem flutua sobre pedaços coloridos de resina. No mar da praia do Titanzinho, sobra alegria. Na areia, porém, falta o básico. Do esgotamento sanitário ao divertimento.

Quatro meses e meio depois de a Prefeitura de Fortaleza vetar a instalação de um estaleiro na região, nada foi feito para urbanizar a área. As ruas permanecem esburacadas. Em muitas, sequer há asfalto. E o Farol, no alto do que restou de sua imponência, pede socorro.

No primeiro semestre, um programa de qualificação batizado de “Aldeia da Praia” foi anunciado para o local. Segundo a prefeita Luizianne Lins (PT), seriam US$ 116,5 milhões investidos em habitação, lazer e saneamento. Ela rejeitou a empresa naval sob a justificativa de que o potencial turístico da região ficaria comprometido. Em contrapartida, divulgou o projeto.

A comunidade espera. Ansiosa. “Está tudo do mesmo jeito. Mas seria bom que fizessem alguma coisa, porque aqui está abandonado e não tem nada pra divertir. As crianças só têm o mar mesmo”, lamenta Sandra Cartaxo, 30.

Há quem vislumbre uma espécie de milagre. Para si e para os outros. Principalmente como válvula de escape para o maior temor de quem anda pelas vielas repletas de varais com roupas estendidas: a violência. “Aqui está uma coisa horrível. Com essas obras aí, a vida de muita gente vai mudar. Você vai ver”, acredita Henrique Júnior, 26.

Esperança alimentada também pelas gerações mais antigas. Maria Ferreira Dias, 78, que o diga. Ela mora no Titanzinho desde 1974. Por lá, teve filhos, netos e bisnetos. Desde sempre, vê prefeito e governador entrando e saindo com quase nada para ser pensado para melhorar o bairro.

Na memória, uma vaga lembrança de casas entregues pelo Estado nos anos 80. “A cantiga da perua é uma só. Mas qualquer um podia ter feito, porque dinheiro tem. A comunidade está cansada de reivindicar. Mas a gente ainda dá o voto de confiança”, frisa.

Lugar lindo

Ao ver seus pequenos correndo na avenida Leite Barbosa rumo ao espigão, ela crê que, desta vez, algo vai ser feito. Assim, os jovens terão mais opções de entretenimento. “O nosso lugar aqui é bom. É lindo. Seria melhor se não tivesse tanta droga e violência. Agora, é pedir a Deus que ilumine a cabeça destes governantes”, pontua.

Por quê?

ENTENDA A NOTÍCIA
Historicamente esquecida pelo poder público, o Titanzinho amarga a demora de obras fundamentais para a melhoria da qualidade de vida da comunidade. A dúvida é saber se a urbanização prometida será concluída até 2012.

PERFIL

Para a Prefeitura de Fortaleza, o Titanzinho é uma comunidade que pertence ao bairro Cais do Porto. Os limites da região são o mar (ao norte, leste e oeste) e o bairro Vicente Pinzón (ao sul).

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Cais possui uma população de 21,5 mil pessoas. Destas, 14.887 são alfabetizadas. As mulheres são maioria (11.017, contra 10.512 homens). A praia e o Farol do Mucuripe são os principais pontos turísticos. A pesca artesanal

PARA ENTENDER

Novembro e dezembro de 2009 – Concorrência é aberta para contratar o estaleiro. Após a Promar ficar à frente em todos os quesitos de concorrência, começa a negociação de preços.

Fevereiro de 2010 – Prefeita Luizianne Lins declara-se contra o empreendimento naquela praia. Logo após, Governo realiza encontros com diferentes setores da sociedade para convencer sobre a importância do estaleiro.

Março de 2010 – Luizianne diz ter projeto para a área do Titanzinho.

Abril de 2010 – Intensifica-se o impasse em torno da obtenção de licença e posse do terreno no Titanzinho. Alagoas e Pernambuco demonstram interesse pelo estaleiro.

Maio de 2010 – Prefeitura diz: Fortaleza não precisa de estaleiro. Julho de 2010. Novo local do estaleiro: empresa vai para Pernambuco.

Outubro de 2010 – Quatro meses e meio após o fim do impasse, programa urbanização sequer começou. Ainda não há recursos e obras só devem começar no próximo ano.

Com as informações – Bruno de Castro, do Jornal O POVO

Por Rodrigo Cintra

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