Cabotagem: fala-se muito, mas pouco se faz

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Lembrei-me de uma frase de um experiente funcionário público da área portuária em um seminário em que participei em Brasília sobre cabotagem. Ele me falou: “estou careca de ouvir estes debates sobre cabotagem. Todo mundo já sabe o que tem que ser feito, o problema é que não se faz nada”.

A burocracia realmente mata a cabotagem, parece até um complô diabólico de lobistas pró-rodoviarismo do Brasil. Por isso cresceu em número de navios apenas 7,3% nos últimos quatro anos.

Com 32 empresas autorizadas pela Antaq a operar, o País tem 147 navios para esta operação. Mas apenas uma das empresas, a Transpetro (grupo Petrobras), tem 42 embarcações, ou cerca de 30% do total e 46% da tonelagem de porte bruto, o que sobra pouco para a carga geral brasileira.

Se extrairmos os navios da Petrobras, ainda sobra pouco para a demanda nacional e contamos com uma frota com idade média de 18 anos, que não é uma menina moça em se tratando de navegação.

Uma história singela pode exemplificar: um caminhoneiro de chinelos e camiseta sobe na boléia do seu caminhão no Sul para levar implementos agrícolas para o Nordeste do País, só necessita de um papel na mão: a nota fiscal da empresa vendedora da carga a ser transportada. O sujeito dá um aceno ao pessoal da expedição da fábrica e pé na estrada nos próximos 3.000 quilômetros que rodará pelas rodovias nacionais. Mas, se a mesma fábrica resolver “experimentar” os serviços de cabotagem, vai se incomodar tanto que voltará para o velho e fácil transporte rodoviário, mesmo sendo mais caro.

A estufagem do contêiner na fábrica não será problema, é igual ao do caminhão, mas ao entrar no terminal portuário, começará a burocracia: um despachante aduaneiro será necessário, a Receita Federal exigirá procedimentos documentais que não exige do caminhão, os custos portuários desproporcionais ao de longo curso, a frequência das escalas do navio de cabotagem, o desembaraço do contêiner no porto de destino, a integração logística terrestre… Ufa! Temos ainda muita coisa a fazer!

O artigo é de Daniel Lúcio Oliveira – Economista

Clipping direto – PortoGente

Por Marcus Lotfi

1 COMENTÁRIO

  1. Gostei muito do desabafo do Daniel Lúcio, no artigo “Cabotagem: fala-se muito, mas pouco se faz”. Todavia, gostaria de ressaltar que apesar da ainda existente ineficiencia no sistema marítimo brasileiro, a cabotagem de carga geral em container, possui uma alternativa viável e interessante: o serviço porta a porta, onde não é necessário contato do cliente com o porto nem com qualquer outro tipo de interlocutor, o contato é apenas com o armador. Todos os armadores: Aliança, Mercosul Line e Log In, oferecem este serviço. Vale a pena as empresas consultarem!
    Sds,
    Simone Lucena
    (mestranda em Eng. da Produção pela UFPE, 19 anos de experiencia na área de Logística Portuária, profa. Universitária e Consultora em Logística)

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