Entrevista: Gerente Geral da Petrobras fala sobre “decolagem” da produção no RN

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A Petrobras deverá investir aproximadamente R$ 1,71 bilhão no Rio Grande do Norte este ano, na tentativa de, a partir de 2012, voltar a catapultar a produção potiguar de petróleo e gás, em declínio nos últimos anos. Nesta entrevista, o gerente geral da Unidade de Operações de Exploração e Produção da companhia no Rio Grande do Norte e Ceará, Joelson Falcão Mendes, fala sobre os planos, incluindo entre eles a possibilidade de dar início à exploração em águas profundas na bacia potiguar ainda em 2011.

A estatal prefere não divulgar ainda quanto irá investir na empreitada nem quando começará a exploração no estado. No Ceará, entretanto, onde também são previstas incursões em águas profundas, o investimento é estimado em pelo menos R$ 100 milhões e pode ter início no segundo semestre, segundo informações publicadas no jornal O Povo. Natural de Itaperuna (RJ), Joelson Falcão Mendes tem 46 anos, dos quais 23 dedicados à companhia.  De junho de 2005 a fevereiro de 2009, ele esteve à frente da Unidade de Negócio da Amazônia. Desde março de 2009, atua como gerente geral da Unidade RN-CE, sendo responsável por todas as atividades relacionadas à exploração e produção de petróleo nos dois estados. Eis a entrevista:

Quanto a Petrobras pretende investir este ano no Estado?

A ordem de grandeza dos nossos investimentos tem se mantido nos últimos anos e o que está no nosso planejamento para este ano é R$ 1,8 bilhão. Cerca de 95% desse valor serão destinados ao Rio Grande do Norte. O restante irá para o Ceará.

O número é um pouco maior que o de 2010 (quando ficou em R$ 1,5 bilhão). Por que o crescimento?

O número é realmente mais do que estava previsto. A indústria do petróleo é muito dinâmica. Ás vezes você acaba antecipando alguma atividade que estava prevista para o ano seguinte, às vezes alguma atividade fica um pouco mais dispendiosa do que o planejado. Mas o que vale pontuar é que nós temos mantido o nível de investimento e é isso que está no nosso planejamento aprovado para  2011.

Em que serão investidos esses recursos?

O nosso carro chefe de investimentos ainda são os projetos que citamos no ano passado. O projeto de injeção de água de Ubarana é um deles. Este foi um projeto que atrasou por questões de licenciamento a nível do Ibama. Ainda estamos por obter a licença de instalação. Já temos a licença prévia. A gente precisava contratar um equipamento internacional para fazer o lançamento de dutos, e isso precisava andar concatenado com o licenciamento. O licenciamento ainda não foi definitivo. Mas já estamos com contrato assinado. Esperamos receber a licença ainda em janeiro e a partir de março iniciar o processo de lançamento dos dutos para que de fato a injeção de água de Ubarana comece a operar em setembro. Outro projeto é o complemento da injeção de vapor no Alto do Rodrigues. Mas, boa parte dos nossos investimentos será destinado mesmo à perfuração de poços. Serão perfurados este ano 250 poços. É mais ou menos o que aconteceu no ano passado.

O projeto de injeção de vapor teve início há um ano. Que resultados ele tem trazido para a produção?

Atualmente, em torno de 3.500 barris da nossa produção diária de petróleo – que é ao redor de 70 mil barris – já advém desse projeto. Ou seja, se não tivesse esse projeto, estaríamos produzindo 3.500 barris a menos. Cada poço de petróleo a partir do momento que entra em operação no dia seguinte já está produzindo um pouquinho menos. Por isso que nossa produção tem sido nos últimos anos declinante. O que estamos esperando é que com esses grandes projetos a gente consiga reverter essa curva. Ano passado e este ano eu diria que são anos de estabilização da produção nesses patamares de 70 mil barris de petróleo por dia. Em 2012, a gente deve conseguir decolar. Na verdade, já este ano a gente esperava estar com um crescimento de produção que não estamos conseguindo realizar. Talvez consigamos no segundo semestre. A velocidade de entrada de alguns projetos nem sempre acontece da maneira planejada.

Qual é o empecilho para aumentar a produção?

Na realidade, todos os nossos grandes projetos necessitam de licitações, necessitam de um mercado preparado e o mercado brasileiro está muito aquecido. Você faz uma licitação, às vezes vem com preços muitos altos. Você tem que cancelar e começar de novo. Então um dos problemas é o mercado. E o mercado nem sempre está preparado. O país está num crescimento muito grande em todas as áreas. Faltam profissionais habilitados em várias áreas. Uma empresa como a nossa acaba formando os seus próprios profissionais. Então os projetos são projetos muito grandes em termos de investimentos. Por exemplo, o projeto de injeção contínua de vapor vai estar nos custando mais de US$ 300 milhões. Ele já está dando frutos, mas ainda não terminou sua implantação. Ainda tem uma nova fase que ficou para este ano. São dois ramais de injeção de vapor no campo de Alto do Rodrigues e Estreito. A gente já está injetando no campo de estreito. Falta o ramal do Alto do Rodrigues. Este é um projeto que ainda está em curso e que ainda vai nos dar um pico de produção muito grande pela frente.

O licenciamento ambiental tem sido um problema?

O licenciamento ambiental é algo que nunca é fácil. Não tem como ser fácil realmente. A cada dia a legislação é mais restritiva e a cada evento mundial que ocorre vai ficando mais. Os órgãos vão ficando mais rigorosos e eu como cidadão brasileiro concordo com isso. Não estou fazendo reclamação. Nós tivemos no ano passado um acidente de gravíssimas proporções, que foi uma explosão e o afundamento de uma plataforma no Golfo do México. E isso mudou bastante a consciência das empresas, a consciência de risco de todos os órgãos ambientais. Então o licenciamento ambiental é algo importante em qualquer tipo de empreendimento e na indústria de petróleo não é diferente. Mas nós temos uma relação muito próxima com os órgãos reguladores. Temos uma proximidade grande com o Idema, com o Ibama, com a secretaria de meio ambiente do Ceará e agora mais recentemente na Paraíba. Temos buscado interação cada vez maior com os órgãos. Não diria que o licenciamento é um empecilho, mas é uma dificuldade grande. É uma área em que temos que colocar muita energia. Então tanto nós empreendedores quanto os órgãos ambientais cada vez mais temos que preparar mais gente para fazer frente à legislação e ás novas necessidades da sociedade, que vão mudando com uma velocidade muito grande. Repito: O acidente no Golfo do México no ano passado está provocando profundas mudanças na indústria do petróleo.

Como a produção do Estado se comportou no ano passado?

Fechamos o ano com produção de aproximadamente 70 mil barris de petróleo. E é isso o que esperamos produzir em média este ano nos dois estados. O Rio Grande do Norte respondeu por 90% dessa produção. A produção de gás ficou em torno de 1 milhão de metros cúbicos por dia. Em 2009 fechamos com 73 mil barris de óleo e com 1 milhão e 100 mil metros cúbicos de gás. Como falei, temos experimentado nos últimos anos um declínio natural na produção. Uma redução natural em campos maduros. Campos maduros são campos que já passaram do pico de produção. A maioria dos nossos campos é madura. E a única forma de reverter isso é com projetos de desenvolvimento da produção ou encontrando novas jazidas. Nós temos feito essas duas coisas. Em torno de 1/3 de nosso investimentos tem sido feitos na busca de novas fontes e o restante em desenvolver jazidas que nós já temos. O que esperamos é que este ano estabilizemos a produção. E que a gente consiga aumento de produção já em 2012.

Tem sido difícil segurar a produção do Rio Grande do Norte?

Eu diria que não. Eu diria que nós temos projetos para segurar. Os investimentos até o ano de 2002 eram menores que R$ 500 milhões por ano. De lá para cá conseguimos investimentos muito mais significativos. Eu entendo que para a sociedade como um todo, que gostaria de ter muito mais tributo, muito mais geração de riqueza, muito mais geração de empregos, fica uma impressão de que está complicado. Mas não está complicado. Existe um planejamento de médio e longo prazo que tem sido executado há algum tempo e que já está gerando frutos. A gente continua gerando aqui mais de 14 mil empregos diretos. Temos hoje 2 mil empregados com crachá Petrobras. Temos 12 mil empregados terceirizados. Só o projeto de injeção de água de Canto do Amaro está empregando 2 mil pessoas. Esse é um projeto que está em operação, mas que é feito por fases. Agora, todo o investimento que temos feito em desenvolvimento da produção, na média, vai conseguir segurar a produção de óleo, mas vai acrescentar muito pouco gás.

Havia a expectativa no ano passado de iniciar a exploração em águas profundas no Rio Grande do Norte, para recuperar a produção de gás. Como anda esse projeto?

A gente espera estar fazendo no Rio Grande do Norte e no  Ceará três poços em águas profundas este ano. Um deles estará no Rio Grande do Norte. Gostaria de pontuar que nós estamos criando em toda a região Nordeste Brasileira, também no Norte, uma escala de exploração de petróleo. Vários poços têm sido perfurados desde o Amapá até a Bahia. E a partir do momento em que consigamos ter sucesso em alguma dessas áreas, a gente começa a ter escala de embarcações, de aeronaves, de sondas de perfuração, de empresas de serviços. Então é extremamente importante e o povo potiguar precisa vibrar se tiver uma descoberta em Alagoas ou no Ceará, por exemplo, porque significa que estamos criando uma escala de exploração e  produção de petróleo no mar, em outro patamar aqui próximo. O que tem acontecido no Sudeste é isso. Num determinado momento se encontrou a bacia de Campos. E a Petrobras investiu muito ali e hoje em toda aquela área que vai do sul da Bahia até Santa Catarina já se descobriu muito petróleo. E aí a  logística disponível para você fazer exploração e produção é muito forte. Gostaria de pontuar também que hoje o nosso trabalho em terra é extremamente importante. É ele que tem segurado nossa produção. Boa parte da lucratividade do nosso negócio vem da produção terrestre. Mas nós temos muita esperança de que a gente consiga mudar de patamar no mar. Tanto em águas rasas, quanto em águas profundas, quanto em águas ultraprofundas. Nós temos horizontes muito importantes pela frente que precisam ser pesquisados. É muito interessante que haja exploração em toda a costa equatorial. Isso pode ser muito lucrativo para todos os estados de forma conjunta.

Por que haverá um poço no RN e  dois no Ceará? O Ceará é mais promissor em termos de exploração marítima?

Não, não. É muito simples. A Petrobras antes da queda do monopólio tinha a disponibilidade de procurar petróleo onde bem entendesse. Hoje não. A ANP designa determinadas áreas e coloca em leilão público. A Petrobras adquiriu áreas, fez trabalho sísmico e identificou oportunidades de poços. E aí é uma questão muito técnica. Os técnicos conseguiram vislumbrar determinados horizontes. E naquilo que está disponível, entenderam que é interessante um poço aqui, ali, ali, independente de qual é a linha imaginária que está cortando, de a qual jurisdição pertence aquela área. O trabalho é muito técnico. Não é que o Ceará seja mais propenso a ter.

Em águas rasas a exploração foi retomada em 2009. Que resultados vocês têm colhido?

Tivemos pequenos resultados até agora. Pequenas descobertas. Nada que ainda mudasse a nossa realidade. Já tivemos descobertas que ajudam na manutenção da produção, mas não foi nada significativo. Mas em águas rasas tem boas chances de a gente ter descobertas que nos ajudem a elevar a produção de gás. Porém, nas águas rasas, todos os órgãos ambientais do mundo, por razões óbvias, estão colocando exigências muito maiores para licenciamento. Então nós temos hoje grandes dificuldades de licenciamento em projetos de exploração e produção em águas abaixo de 50 metros. Não tem como isso ser muito diferente.

E o salto de produção esperado para 2012, será de quanto?

O nosso planejamento indica que nossos projetos vão nos levar para patamares de produção entre 75 mil e 80 mil barris de petróleo por dia no ano que vem. Injeção de água em Ubarana, injeção de água de Canto do Amaro em e injeção de vapor em Alto do Rodrigues são os três principais projetos que vão fazer com que a produção consiga ser maior.

Fonte: Tribuna do Norte

Por Marcus Lotfi

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