Manobrando na munheca – Barca Boa Viagem

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Hoje, durante a Entrega do Presente de Iemanjá, evento que comemora um dia importantíssimo para as religiões afro brasileiras no Rio de Janeiro, estive a bordo da Barca Boa Viagem, da Barcas S/A, onde tive o prazer de conhecer a tripulação. A embarcação, construída em 1981, não possui muitos recursos de manobra e foi aí que eu pude presenciar uma situação que realmente merece ser destacada aqui no Portal Marítimo.

Após conhecer as duas simpaticíssimas Marinheiras, Janaína e Mônica, fui ao passadiço da embarcação, como manda a educação marinheira, que muitos, infelizmente, esquecem, cumprimentar o Comandante Antônio Cláudio. Ali eu fui apresentado ao Chefe de Máquinas Leir e, logo depois, deparei-me com um sorridente Marinheiro, um senhor já, que manobrava  no timão em conjunto com o Comandante, que controlava pela manete os dois Motores que impulsionam os dois eixos com hélices de passo fixo da embarcação.

Seu nome é Jair Simplício, um velho lobo do mar, profundo conhecedor da Baía de Guanabara, com mais de 40 anos de bons serviços prestados às Barcas S/A.

Seu Jair manobrava com uma facilidade de impressionar a qualquer um, ainda mais eu, que sou da geração do passo variável, dos bow thrusters,  azimutais, dos sistemas de posicionamento dinâmico e toda tecnologia já conhecida pelos colegas.

De rede de pesca passada bem no meio do canal, passando por diversas embarcações menores tanto em movimento como fundeadas (e fundeadas bem aonde não poderiam), Seu Jair passava por todas com uma facilidade que impressionava, sempre com um sorriso estampado no rosto.

Barca Boa Viagem

“Você não sabe o que é isso aqui de noite, meu filho… no caminho para Paquetá então… A gente sempre tem que manobrar para safar o material do pessoal. Faz parte já da nossa rotina, vou fazer o quê?”

No ponto combinado com a Organização do evento, o Comandante Antônio Cláudio e o Seu Jair tiveram que segurar a posição da Boa Viagem, para que os fiéis fizessem suas orações e oferendas, e foi aí que eu presenciei o impossível: com uma correnteza considerável e um ventinho de través, eles seguraram a posição, companheiros. Ainda fiquei olhando por ante aré do passadiço, em direção à popa, tomando a chaminé como referencial, para ver o quanto a barca se movia e era simplesmente QUASE NADA.  Posição segura, na munheca, no timão e nos dois eixos.

Seu Jair e o CMT Antônio Cláudio atentos na manobra

Praticamente um DP “no talento”, se assim posso dizer.

Profissionais como estes, não só os citados, pois estes aqui fazem o que muitos julgam impossível e outros julgam “molezinha” (vai lá manobrar, negão.. vai lá…), deveriam ser mais valorizados. O pessoal que trabalha na Navegação Interior, nos ferry boats, catamarãs e etc, transportam, simplesmente, CENTENAS DE VIDAS HUMANAS.

Será que eles vão continuar renegados a um suposto “segundo escalão” dentro da Marinha Mercante? Não vejo motivo algum para isso, nem por parte dos Marítimos, nem por parte das empresas.

Pelo contrário, estes profissionais devem ser mais valorizados, pelo importante serviço que prestam levando e trazendo diversos cidadãos, das mais variadas profissões, de um lado para outro, diariamente. Será que alguém já parou para pensar na enorme responsabilidade que está diariamente nas mãos destes colegas? Já imaginaram o que aconteceria na Ponte Rio x Niterói se esses marítimos simplesmente parassem? Vou além e chamo vossa atenção para o que aconteceria em lugares sem comunicação por via terrestre caso esses colegas parassem de trabalhar. Deixo para os leitores a conclusão.

Um coisa é certa: hoje, dia 2 de Fevereiro, dia de Nossa Senhora dos Navegantes e de Iemanjá, a Rainha do Mar, eu pude ver dois profissionais extremamente habilidosos e seguros manobrando com o que têm em mãos, melhor que muito colega nosso por aí com equipamentos de última geração.

Agradeço às Barcas S/A por sempre apoiar esta manifestação de Fé daqueles que acreditam na Força que vem do Mar e mais especialmente ao Comandante Antônio Cláudio e ao seu Jair Simplício.

Ficam aqui minhas saudações à toda tripulação que estava de serviço hoje pela manhã na Barca Boa Viagem, Equipe essa que o Comandante fez questão de citar um a um:

CMT Antônio Cláudio, CHEMAQ Leir, Jair Simplício, Valdez Maia, Janaína, Rodolfo, Mônica, Renato, Thiago Maia e Pedro Portugal.

Estão todos de parabéns pelo extremo profissionalismo e cordialidade que pudemos presenciar a bordo.

Bons ventos e que a Força dos mares esteja sempre com vocês!

Por Rodrigo Cintra

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