Petrobras faz vista grossa para acidentes com trabalhadores terceirizados

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MACAÉ – A indústria da terceirização de mão de obra no segmento de petróleo e gás, que cresce e aparece com as bênçãos da Petrobras, tem deixado vítimas pelo caminho. São os próprios trabalhadores que, por falta de qualificação e acidentes de trabalho, são descartados do sistema, em muitos casos, sem garantia dos direitos e perspectiva de um novo emprego. Em relatos reservados e denúncias enviadas ao Sindicato dos Petroleiros e ao Ministério Público do Trabalho, trabalhadores detalham como a maior estatal brasileira faz vista grossa para as condições de trabalho dos terceirizados, contrariando acordo fechado com o MPT.

Pelo acordo, a estatal deve comunicar qualquer acidente em suas instalações. Se o acidente ocorrer com um trabalhador terceirizado, o comunicado deve ser feito ao Sindicato dos Petroleiros, mas o que acontece no dia a dia é a ocultação desses acidentes, que são descobertos muito tempo depois de ocorridos, por meio de denúncia do próprio acidentado ao sindicato ou à Justiça.

Domingo passado, um trabalhador terceirizado que estava na P-38, uma das plataformas da Bacia de Campos, escorregou, bateu com o joelho e fraturou a rótula. Ele foi mantido por três dias embarcado e, só depois, levado a Macaé para atendimento. A permanência na plataforma seria uma tentativa de a empresa de não caracterizar a queda como acidente de trabalho, segundo relato de outros trabalhadores, que não querem se identificar.

Um placar colocado nas plataformas para contabilizar o número de acidentes de trabalho, em vez de reforçar as boas práticas na segurança do trabalho, acaba tendo efeito inverso. As chefias fazem de tudo para não registrar os acidentes e não prejudicar o placar. A Petrobras nega a existência de um bônus vinculado aos acidentes de trabalho, mas informações repassadas ao MPT indicam que o número de acidentes interfere na avaliação das chefias.

Monografia da Assistente Social Maria das Graças da Rocha, do Sindicato dos Petroleiro do Norte Fluminense, concluída no final de 2010, sobre as “Subnotificações dos Acidentes de Trabalho dos Petroleiros da Bacia de Campos”, evidencia o desrespeito à lei. Ela destaca o fato de, no balanço das ações de 2009, nenhum acidente ter sido comunicado pela Petrobras nas plataformas P-26, P-23, P-37 e P-15.

— É uma lógica perversa. Se o trabalhador terceirizado se acidentar está fora. Por isso, muitas vezes ele esconde o acidente para manter o emprego.

Hélio dos Santos, baiano de 44 anos, é o retrato da discriminação que sofrem esses trabalhadores terceirizados que se acidentam nas dependências da Petrobras. Em 2007, Hélio foi contratado pela empresa Connect Service como Soldador Alpinista (trabalha pendurado por cabos). Essa empresa presta serviços para outra contratada pela Petrobras, no caso, uma quarterização de serviços.

Em novembro daquele ano, Helio trabalhava num tanque de um navio na P-35; passou mal por conta da falta de ventilação no tanque, caiu e ficou desacordado, mas, ainda assim, foi mantido por mais quatro dias embarcado.

— O Gerente da Plataforma informou ao Médico da minha empresa em terra que eu estava bem para não comunicar o acidente.

A comunicação só foi feita mais tarde, quando Hélio procurou o sindicato. Ele ficou com sequelas, dores forte no braço direito e perdeu movimento pleno de um dedo. Nessas condições, não quis mais embarcar. Foi ameaçado de demissão por justa causa e entrou na Justiça para reclamar seus direitos. Foi demitido e não conseguiu mais trabalho em outras terceirizadas, a não ser por um período na empresa de um conhecido. Hoje está desempregado e sem perspectivas.

Com as informações – Regina Alvarez / Extra

Por Rodrigo Cintra

1 COMMENT

  1. Na busca incessante de produtividade, empresas expõem cada vez mais os trabalhadores ao risco de suas atividades econômica. Depois reclamam do aumento do seguro acidente “cobrado”pela Previdência Social. Ora se o trabalhador sofre o acidente de trabalho ou passa a padecer de doenças inerentes ao ambiente laboral a empresa tem sim que arcar com esse ônus. Afinal, não foi ela, através dos seus prepostos, que causaram esse mal?
    A cobrança de metas e a omissão de “pequenos” acidentes são fatores que, se não são causas diretas dos mais graves acidentes e doenças, são, por certo, fatores desencadeante deles.
    As empresas precisam entender que devem sim produzir, mas com segurança, com respeito à saúde e a vida de seus trabalhadores e parceiros.
    A indenização que se paga ao trabalhador acidentado ou a família dele será sempre irrisória para quem a recebe, pois muito se perdeu e nada irá o dano que sofreu. Mas, dependendo do porte da empresa, pode conduzi-la à falência.
    Portanto, antes de pedir produtividade, peça segurança. Dê segurança e receba uma produção com qualidade.

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