Petróleo, Política e Religião – mistura explosiva

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Os últimos acontecimentos no mundo árabe, em especial a possibilidade de eleições no Egito após 30 anos da ditadura de Hosni Mubarak, e os ainda decorrentes conflitos – também de ordem libertária – na Líbia e no Iêmen, são o clamor de um povo insatisfeito com governos autoritários e economias precárias. São ecos de uma nova geração que definiu um limite de anos em que eles – e seus descendentes – viveram sob opressão e atraso, onde, por exemplo, no Egito, 42% da população vive ainda abaixo da linha do nível de pobreza. Os levantes populares em marcha, portanto, também são clamores do pan-arabismo, estritamente ligado ao nacionalismo daqueles 21 países que almejam, sim, desfrutar de avanços tecnológicos, viver sob um regime democrático e num Estado laico.

Discutir os impactos destes conflitos na contemporaneidade, o que, inclusive, diz respeito ao Brasil enquanto produtor emergente de petróleo, assim como muitas daquelas nações árabes, é analisar a configuração do mapa-múndi por meio de aspectos econômicos (das relações do Oriente Médio com os Estados Unidos), políticos (desde que a região foi dividida por potências imperialistas), além de sociais e religiosas, como, por exemplo, o reconhecimento do indivíduo como árabe, independente de ser ou não muçulmano.

Este emaranhado de recortes históricos e geográficos foram temas do debate Revoltas Populares nos Países Árabes, quinta-feira, 31, no Teatro Unimep, e discutido entre Lejeune Mirhan, sociólogo e professor arabista (estudioso da língua e civilização árabe), e Mohamed Habib, docente da Universidade de Campinas (Unicamp) e vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe, em São Paulo. O evento lotou o espaço e durou mais de três horas.

Para Mirhan, o que acontece no mundo árabe deve ser caracterizado como revoluções em curso. “Está em jogo o rumo destas revoluções, ainda sem uma liderança, e com a possibilidade de uma contra-revolução”, que, de acordo com o sociólogo, é encabeçada pela cúpula dos governos em Washington, na cidade israelense Tel Aviv e a União Europeia, ávidos por manter os laços de interesse com o Oriente Médio. De acordo com o arabista, uma das principais questões deste assunto é desfazer as amarras de um imperialismo em declínio.

Das 21 nações árabes, além do Estado da Palestina e Sarauí, território sob domínio de Marrocos, oito vivem numa monarquia e 13 são repúblicas de “fachada”. “Porque não têm democracia”, ressalta Mirhan. E, de acordo com o professor, algumas das fronteiras são retas porque foram riscadas no mapa – de papel, mesmo – pelas potências que colonizaram a região, Inglaterra e França. As energias fósseis, como o petróleo e o gás natural, evidentemente, são as principais razões de tanto interesse pelo Oriente Médio. “Não existe alternativa energética que substituirá o petróleo nos próximos 30, 50 anos”.

Nesta distância entre o mundo árabe e como eles são vistos pelo Ocidente, reside outra discussão pontual, a do pan-arabismo, que é o acordar dos jovens para uma identidade cultural e social tão legítima como qualquer outra do mundo. Afinal, o árabe não nasceu com expressão de idoso e de barba, ou necessariamente é um fundamentalista religioso pronto para morrer pelo Islã. “Nem todo árabe é mulçumano e vice-versa. Um em cada cinco mulçumanos é árabe”, destaca Mirhan, que ainda fala: “O islã não é a solução”, na defesa pela liberdade de credo e autonomia espiritual.

A comoção popular, de fato, rompeu com a questão religiosa, como nos últimos eventos no Egito e, atualmente, na Líbia, em que os manifestantes estão juntos, inclusive com o apoio de parte das forças armadas locais, contra a falta de qualidade de vida. “E creio que muitos dos populares nem sabem o que é imperialismo e saíram às ruas porque não aguentam mais a opressão de ditaduras”, contesta Mohamed Habib, que também se lembra da morte do jovem tunisiano que se enforcou em frente ao prédio do governo. “E, ao mesmo tempo, eles acompanham o que acontece no mundo. O Brasil é uma referência de democracia para eles”.

Diferente de Mirhan, Habib chama os acontecimentos no mundo árabe de levantes populares, “num processo longo e gradual, que pode durar mais de 100 anos”, e também elenca a localização geográfica do Oriente Médio – principalmente o Canal de Suez, no Egito, as maiores reservas naturais de petróleo do mundo e a criação de Israel no Estado da Palestina, em 1947, como elementos chave de uma nova “primavera dos povos”.

Como produtor petrolífero, Brasil deve “ficar atento”

Declaradamente um militante de esquerda, o sociólogo Lejeune Mirhan nomeia todos a quem julga culpados por todo o imbróglio político nos países árabes. Estados Unidos, Israel e o petróleo formam, em sua opinião, a trinca responsável por conflitos constantes na região. Como um produtor emergente de petróleo, portanto, o Brasil deve “ficar atento” e “tomar muito cuidado” com eventuais interesses das grandes potências mundiais. “Em 1992, quando aconteceu a ECO-92, os Estados Unidos deixaram claro que conhecimento eles julgam como propriedade, mas recursos naturais eles entendem como ‘patrimônio da Humanidade’”, citou Mohamed Habib, da Unicamp.

Lejeune destacou a recente visita do presidente norte-americano Barack Obama ao Brasil, em que se dispôs a assinar acordos bilaterais com o País para não apenas vender a matéria-prima, mas também para participar da captação dos recursos. “Então, faz todo o sentido que o governo brasileiro e toda a sociedade em geral tenham consciência de que o fato de crescermos em importância entre os países produtores de petróleo, por conta do pré-sal, nos forçará alguns posicionamentos claros e dinâmicos”, aponta. Somente em um dos campos da pré-sal, o de Tupi, a estimativa é de que as reservas cheguem de 5 a 8 bilhões de barris de petróleo.

Com as informações – Erick Tedesco / A Tribuna

Por Rodrigo Cintra

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