Jornalista dá orelhada e Prático rebate

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Disponibilizo aos leitores do Portal Marítimo este texto de Alexandre da Rocha, Prático no Porto de Itajaí, publicado em seu Blog  em resposta a uma infeliz declaração de um Jornalista. O Marcus Lotfi, nosso Editor Chefe, sempre diz isso pra mim, sempre mostra exemplos de jornalistas (e são muitos) que querem escrever de maneira simples sobre contextos bem complexos ou, pior, discorrer sobre o que não conhecem.

Vamos ao texto:

Prático a bordo: precisa?

“Em meio aos meus e-mails, acho um comentário a um post de uns quinze, vinte dias atrás.

Leio o que alguém que se identifica como Vital (jv.leite@estadao.com.br) escreveu (e transcrevo conforme foi escrito):

A Marinha precisa rever é a necessidade da figura do prático….se na aviação não existe essa figura, porque na navegação marítima tem que haver.

O prático surgiu pela deficiência de sinalização náutica e de navios dotados com instrumentos de navegação modernos. Além disso, não havia rebocadores potentes para auxiliar nas manobras.

Hoje é tudo diferente: navios modernos com instrumentos iguais ao do avião, sinalização náutica eficiênte e rebocadores potentes…portanto, a figura do prático é totalmente dipensável.

Como prático, isto me parece, à primeira vista, um limão. Mas… É, vocês já entenderam: vou tentar uma limonada, crente de que o limão é bom.

Nosso comentarista procura semelhanças entre náutica e aeronáutica para mostrar que o prático é uma inutilidade a bordo. Então, preciso examinar a validade dessas supostas similaridades.

Qualquer analogia entre navegação marítima e aviação deve ser feita com muito cuidado. Há pelo menos duas razões para isso.

Para começar, navios são veículos muito diferentes de aviões: para ficar em três exemplos, estes são mais pesados do que o ar, aqueles flutuam na água; navios pesam milhares de toneladas, ao passo que o Airbus A380, maior avião comercial do planeta, pesa no máximo 560 toneladas; e navios têm muito mais inércia do que aviões.

A outra razão que recomenda cautela a quem só vê parecenças entre navegar e voar é que a água é um fluido muito diverso do ar — mil vezes mais densa e duas ordens de magnitude mais viscosa, a água ainda exerce pressão muito maior sobre o navio do que aquela que o avião suporta do ar.

Agora, voltemos nossa atenção por um instante para a questão dos sinais náuticos, dos instrumentos e dos rebocadores.

É verdade que a sinalização náutica evoluiu. Mas ela é apenas um auxílio à navegação — assim como a maior parte dos instrumentos de bordo (que não são, em geral, iguais aos de um avião, Vital). Nenhuma é livre de limites, nenhuma das duas fornece todas as informações de que o navio precisa para transitar em águas confinadas, e nenhuma delas dispensa a necessidade de interpretar corretamente a informação apresentada à luz das peculiaridades de cada porto ou canal. Nem mesmo países onde esses recursos estão mais adiantados do que no Brasil, como os EUA, a Holanda ou o Japão, abriram mão da presença obrigatória do prático no navio.

Que os rebocadores ficaram mais potentes, esta é uma outra verdade. Porém, seu emprego bem-sucedido depende do adequado entendimento da interação entre o navio e o ambiente. E tanto um quanto o outro mudam.

Agora, vejamos o que o Vital ignora ou esquece.

Os navios cresceram. Estão mais longos, mais largos e com maior calado. Navegam mais próximo das margens e do fundo, problema que não existia no passado da navegação e que torna mais difícil realizar uma manobra de forma segura e eficiente.

Com todos os avanços da indústria aeronáutica, quase todos os aviões maiores requerem dois pilotos, um para voar e outro para monitorar as ações do piloto que executa o voo, mais a torre de controle, que tem informações do aeroporto. Ocorre que o prático representa o conhecimento local atualizado, prontamente disponível a bordo do navio e a ele dedicado, coisa que não ocorre com o controle em terra.

Já que falei em dois pilotos a bordo de aviões, não custa notar que o número de tripulantes a bordo de navios tem diminuído, assim como sua qualidade. Não raro, sua competência em se comunicar em inglês é apenas sofrível. Neste contexto, o prático presta uma valiosa contribuição: reduz a carga de trabalho e o estresse sobre a equipe de navegação em uma das fases mais críticas da operação do navio, a navegação em águas confinadas — coisa que a quase totalidade dos grandes navios não foi construída para fazer.

Por tudo isto, penso que comparar aviões no ar com navios no mar é como comparar laranjas e bananas. E que considerar o prático dispensável é não ter na devida conta o interesse público na segurança da navegação.”

Com as informações – Alexandre da Rocha / Blog Aquavia

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Por Rodrigo Cintra

7 COMENTÁRIOS

  1. A qualidade dos tripulantes tem diminuido em que sentido?
    Ingles sofrivel?
    Relembra-se que o pratico tem funcao meramente de assessoria. O estresse sobre a equipe de navegacao continua a mesma, diante de praticos que se sentam e ficam conversando no passadico, outros que sobem com o laptop prontamente conectado ao GPS e apenas repetem os conselhos dos softwares, ou a maioria que nao tem nada a fazer dentro de um rebocador offshore alheia ao uso do sistema de Posicionamento Dinamico.

  2. Vale ressaltar Felipe, que ele não está necessariamente falando dos tripulantes brasileiros. Diversos navios, de diversas nacionalidades atracam nos portos nacionais.

  3. Como ex-oficial da marinha mercante tendo trabalhado embarcado por 15 anos e atual Prático, posso testemunhar sobre alguns pontos aqui citados:
    – Qualidade dos tripulantes:
    Logo que iniciei minha vida marítima, os tripulantes filipinos eram tidos (com toda razão) como “substandards”, pois eram (e continuam) formados em muita quantidade, porém com pouca qualidade. Acontece que, hoje, a tripulação filipina não deixa nada a dever a nenhuma outra dita de “primeiro mundo”, tendo dado um salto enorme nesses últimos 20 anos. Atualmente, muitos navios estão sendo tripulados por ucranianos e afins, os quais considero como os “filipinos atuais”. O Prático em questão não deixa de estar certo. Quanto à tripulação brasileira, a nova geração é muito bem fundamentada tecnicamente, mas a considero pouco “náutica”, não possuem aquele sentimento de navegação, aquele feeling que os velhos lobos do mar de gerações anteriores, com os quais tive o prazer de trabalhar, possuíam. Acho até que isso acontece devido à realidade da atual marinha mercante (plataformas, DP, GPS, etc) e não tiveram a oportunidade de desenvolver essa habilidade. Por mais de uma vez, percebi que ONs brasileiros não estavam completamente familiarizados com o radar do navio que embarcam, só para citar um exemplo. E, digo isso, de cadeira, pois como disse anteriormente, enquanto Comandante, observava que a grande maioria dos meus ONs, durante seu período de serviço, naquela hora que não tinham nada pra fazer, ao invés de “fuçarem” o radar, preferiam ler livros não técnicos, navegar na internet, falar ao cel, etc. Não os condeno, não. Sei que isso é uma realidade de quem trabalha embarcado. Só acho que, não podemos ter dívidas profissionais, pois é muito chato quando o Comandante ou o Prático solicita que seja inserida uma posição de fundeio no radar e o especialista, no caso o ON de serviço, fica tentando fazê-lo por tentativas…a carapuça não vai servir para todos, existem exceções, como em quase tudo na vida, mas essa é uma característica muito comentada entre os práticos. Sempre tento defender, afinal de contas a minha origem e formação vem daí, porém às vezes os fatos me tiram todo e qualquer argumento, o que lamento bastante.
    Felipe, realmente o Prático, como definido na Lesta, tem função de assessoria do Comandante. Na prática, o que acontece é a sinergia de dois especialistas para levarem a embarcação para dentro de águas restritas, com maior tráfego portuário, etc, com segurança. O Comandante, como o especialista do navio e o Prático, como o especialista do local e suas condições. Por isso, é tão importante a troca de informações entre esses dois profissionais! É o chamado master pilot exchange, como você deve saber. Tão importante que a IMO e diversas instituições de ensino da navegação possuem publicações, resoluções e artigos que versam sobre esse assunto. O bridge team tbm é fundamental. Na minha experiência, por diversas vezes, já vi ONs, quando em uma navegação interior, ao invés de estarem monitorando a ação do Prático, ou monitorando o posicionamento do navio, perderem o foco conversando sobre a rodada do final de semana de futebol…Agora, realmente, em uma embarcação offshore, a ação do prático é menor, mas não menos importante! Fui Comandante no offshore e sei como funciona, mas a sinergia continua. A diferença é que o Comandante, como especialista da sua embarcação não necessita do apoio do Prático para manobrar o seu barco, pois o uso de rebocadores é dispensado. Mas, continua recebendo informações do mesmo sobre o controle do tráfego, sobre áreas de fundeio, sobre locais de atracação, sobre calado e velocidade máxima permitidas dentro do porto, enfim, n coisas que podem parecer insignificantes, mas que para um Comandante com a responsabilidade de um patrimônio em suas mãos, é muito mais confortável poder contar com essa assessoria in loco…agora, por favor, nao me venha falar em estar “alheio ao uso do DP”, pois se você fundear ou atracar seu navio em DP, não vou aguentar vc não…rs…trabalhei com DP por 6 anos e sei que o sistema, até por questões de segurança, não foi feito pra isso…
    Com relação ao inglês, dependendo da nacionalidade da tripulação é sofrível sim. Já experimentou manobrar com um Comandante chinês??
    Abraço a todos!

  4. Prezados,
    A figura do Prático existe desde que se tem notícia de embarcações realizando comércio marítimo, entrando e saíndo de portos. Esta referência monta raízes bem antes do que se pode imaginar, em épocas A.C.
    O Prático hoje em dia, bem mais qualificado que àqueles de outrora, existe para garantir a segurança e salvaguarda de todos os meios envolvidos e relacionados com sua atividade,ou seja, Navios, Terminais, Instalaçoes, embarcações miúdas, etc, e principalmente o Meio Ambiente. Ninguém gostaria de ver um navio encalhado e poluindo nossas praias!
    Aí está o Prático, reduzindo riscos e defendendo interesses nacionais, agindo como Agente do Estado.
    Preocupemo-nos com o que realmente é supérfluo e deixemos de adoçar a “limonada” dos grandes Armadores internacionais.
    Renato

  5. Excelente e inteligentíssimo texto, Sr. Alexandre DA ROCHA ! Parabéns!! Só para citar exemplos clássicos : como navegar sem prático na Bacia Amazônica ou em outras Zonas de Praticagem não menos complexas como Maranhão e Rio Grande, dentre outras tão relevantes ??… Já se fala em navios não tripulados cruzando os mares (já existe o protótipo). Todavia, ele não atraca ou desatraca sozinho ( !! ). São múltiplas variáveis envolvidas em “restricted waters” ou águas confinadas . Logo, é notório que , a despeito de qualquer tecnologia, o olho marinheiro é imperativo numa manobra a bordo. O velho (e atualíssimo) prático ainda é o verdadeiro “state-of-the-art”. A instrumentação eletrônica, por mais sofisticada, é apenas mais um recurso seguro a ser criteriamente utilizado pelo piloto – apenas isso. Note-se que o texto de Alexandre foi escrito há um bom tempo… e os práticos continuam imprescindíveis mundo afora. Fenômenos hidrodinâmicos não são nada simples e são dos estudos mais complexos que há. É preciso respeitar e conhecer mais o mar e, principalmente, quem nele labora ou dele faz seu “habitat”, quase um sacerdócio. Felicitações, Sr. Alexandre …esclarecedor e profissionalíssimo !!

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