Ameaça ao pré-sal? Quem será a real ameaça?

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Mais uma vez, o Syndarma publica artigo falando sobre uma  suposta “Ameaça ao pré-sal”. Fico me perguntando qual é a real ameaça, ainda mais vendo que os autores, os senhores Hugo Figueredo e Ronaldo Lima, executivos que merecem todo o meu respeito, apesar de discordar dos mesmo diametralmente, se contradisseram.

A matéria saiu no Jornal o Globo e pode ser acessada clicando aqui.

No final do artigo, é colocado o seguinte:

“Se, por um lado, os navios estrangeiros se desobrigam a contratar oficiais brasileiros e passam a contar somente com estrangeiros, por outro, os navios de bandeira brasileira podem passar a contratar profissionais de outros países, como uma saída de curto prazo.

Temos a convicção de que o país não tem como olhar para a frente sem antes proteger seu patrimônio e sua mão de obra. O projeto do pré-sal representa a grande chance de alavancar o país.”

Isso é perigoso demais, mas vamos por partes:

1- Estrangeiros e brasileiros: fica claro que os brasileiros perdem espaço nas embarcações estrangeiras que aqui operam e ainda perdem espaço também nas embarcações nacionais. Ou seja, eu, como brasileiro, não “mordo” nada dele e ele, além de morder tudo na minha área, ainda fica com ela. Não entendo. Não entendo mesmo, sinceramente.

2- País proteger seu patrimônio e sua mão de obra: aí vem a contradição. Proteger a mão de obra, antes de tudo, é fortalecer o setor, fortalecer a formação, permitir que entidades privadas possam também formar, DESDE QUE DEVIDAMENTE FISCALIZADAS por órgão competente. Fico pasmo quando falam em proteger a mão de obra local, mas entregam milhares de postos de trabalho para estrangeiros.

Querem gerar postos de trabalhos indiretos, em sua maioria sub empregos, empregos temporários para brasileiros, que acabam funcionando como cimento para “tapar buraco” nas estatísticas do Governo, acabando com empregos de verdade, empregos estes que, inclusive, colocam brasileiros em posição de destaque em nosso país (coisa que deveria ser corriqueira, mas aqui, tudo o que vem de fora é tido como “melhor”, reflexos do ainda recente estado de subdesenvolvimento que assolava nossa Nação. Podem mudar tudo, mas enquanto não mudarem as mentes, tudo vai permanecer como está).

O fato é que estão querendo corrigir um erro político histórico “dando no couro” do marítimo, essa é a minha opinião.

Por anos a Marinha Mercante ficou de lado, à margem das profissões, sem o devido destaque e investimento, tão necessário para que fosse criado e fomentado na juventude uma cultura marítima, num país com uma costa de dimensões continentais.

Isso gerou uma série de problemas e hoje, até mesmo quem seleciona, nossos “brilhantes” setores de RH, em sua maioria esmagadora, não fazem a mínima idéia do que é o Marítimo.

Empresas pegam milhares de contratos para fornecerem marítimos aos armadores, mas ficam com uma estrutura fundo de quintal, ou então vêm representadas por uma bela campanha de marketing, tudo muito bonito e moderno, mas aos poucos vão mostrando a que vieram.

Somando-se esses fatores com mais uma série de problemas na representação sindical, mais preocupada com questões menos interessantes para os marítimos e com líderes que visivelmente se colocam acima do bem e do mal, isso quando se colocam de alguma forma, a “massa desse bolo desanda”…

Aí vem a parte motivacional que faz com que os próprios marítimos menosprezem sua própria profissão, não tendo orgulho da mesma. Professores que entram em sala de aula nos Centros de Instrução com uma belo “Bom dia desempregados”, em sua maioria profissionais sem sucesso na carreira militar que agora decidem formar jovens moços e moças para o mar. Por mais que o comando dos Centros invista em toda e qualquer política de incentivo e motivação, de nada adianta se ainda tivermos este tipo de profissional, que para mim é um verdadeiro estorvo, cuidando das mentes que formarão nossas tripulações num futuro bem próximo.

Tenho uma sugestão: vamos colocar estes estrangeiros sob a Legislação trabalhista brasileira, fazendo com que os armadores tenham os mesmos encargos com estes profissionais e ainda criemos um imposto extra, algo como “Taxa de incentivo ao Ensino Profissional Marítimo”, nos mesmos moldes que a que as empresas brasileiras pagam, ou então baixemos um decreto que obrigue cada empresa que contrata estrangeiros a abrir uma Escola de Formação de marítimos em nosso país.

Se o empresário brasileiro é onerado “até o osso” com uma carga tributária absurda e, pelo visto, essa é a voga do Governo, o estrangeiro então tem que ser onerado até a alma, seguindo-se esta lógica.

Outra sugestão é que, em contratos da Petrobras, só operem empresas brasileiras, com brasileiros. Se “O Petróleo é nosso” e se ” A Petrobras é nossa”, nada como privilegiar “nossa gente”…

Fico imaginando empresas como Astromarítima e CBO, todas estruturadas com brasileiros, pagando encargos aqui em nosso país, ficariam com a queda das RNs 72 e 80.

Alguém tem alguma dúvida que os armadores estrangeiros “engoliriam” essas empresas oferecendo serviços às petrolíferas por preços bem menores, recheando suas embarcações com marítimos até de Marte?

Digo isso, porque para as estranegiras fica mole…

Vou me colocar agora no lugar do empresário, seguindo os mandamentos de Adam Smith, idealizador de nosso querido Capitalismo Liberal (Selvagem?), seguindo um corolário da máxima que diz que o que rege o Mercado é a Lei da Livre Concorrência, baseada na Lei da Oferta e da Procura:

Eu, como empresário, tendo uma baita base aqui no Brasil, toda uma estrutura voltada para brasileiros, com profissionais em terra conhecedores de nossa legislação e peculiaridades, de repente me vejo de frente com um lote de profissionais de outras nacionalidades, trabalhando mais tempo por menos dinheiro e ainda não me pedindo nada, visto que, perto do que o país deles passa, aqui é um verdadeiro paraíso. Na boa… eu fecharia a minha base, alugaria um escritório ali na Brasco ou na Nitshore, manteria toda a minha estrutura no exterior e contrataria uma Agência qualquer, tipo essas MILHÕES que vivem pegando e largando contratos da Petrobras, agências essas que, pasmem, até mesmo já fizeram desconto sindical em contra cheque de marítimo a favor do Sindicato dos Profissionais de Limpeza do Rio de Janeiro (ninguém me contou… eu vi).

Caros leitores, eu ia ficar rico.

No fundo, acho que é isso mesmo que as empresas de petróleo querem e tiro essa minha conclusão porque escutei há pouco tempo de profisisonais da alta diretoria de algumas empresas de petróleo, em evento ligado a área no qual estive presente há algumas semanas e que, inclusive, estão lendo este artigo agora, que uma empresa que até ganhou o apelido de “Punk”, numa brincadeira com o seu nome, pelos marítimos, é uma ótima prestadora de serviços.

Esta empresa é recheda de “cucarachos” oriundos de toda a América Latina, Marinheiros de Máquinas também “cucarachos” despachando de Chefe de Máquinas e Comandantes fazendo tripulantes trabalharem até 16 horas por dia e por aí vai.

Minha resposta aos citados foi simples: “Realmente… mas vocês não têm noção às custas de quê essa empresa opera dessa forma, rápido e sem parar. Na hora em que os acidentes e problemas vierem à tona, se preparem”.

É às custas da saúde de muitos marítimos. Às custas de acidentes acobertados. Às custas de procedimentos operacionais questionáveis (prefiro acreditar que, na verdade, eles até são bons no papel,mas não são cumpridos) e eu mesmo, em minha última plataforma, já parei uma operação com um rebocador deles, dado o elevado grau de risco com o qual operavam.

Pergunta na Bacia que eu DUVIDO que alguém negue isso.

Essa eu pago pra ver.

Já que o Syndarma afirma que a suspensão “temporária” de determinadas normas na RN 72 e da RN 80 seria uma saída a curto prazo, este que vos escreve espera sinceramente que assim seja… TEMPORÁRIO, isso, se necessário for…

Provem ao Brasil inteiro que vocês não querem entregá-lo de vez.

E digo mais: podem procurar o Ministro Carlos Lupi, que ele já manifestou sua opinião a respeito, conforme podemos ver na matéria publicada aqui no Portal Marítimo com o Título “Brasileiros não operam “importados” – Conversa pra boi dormir”, que pode ser acessada clicando aqui.

Estamos cheios de deputados federais que caíram de pára quedas no Congresso, sem prejeto algum, e fica aqui a idéia…

Vamos procurar um deles para que defenda nossos interesses.

Aliás, gostaria de saber a opinião do nosso querido Parlamentar Paulo Paim, grande defensor da Contribuição Assistencial para os sindicatos, pois não tenho vista NADA dele publicado a respeito disso. O cara se articulou todo para aprovar isso e agora não se mexe em favor dos trabalhadores, pelo menos não que eu saiba, e que me perdoem se eu estiver sendo inusto. Será que Sindicalistas e Trabalhadores são duas classes diferentes? Quero acreditar que não.

Será que colocaram os sindicalistas de Brasília numa sinuca de bico?

Ou será que os marítimos é que foram colocados nesta sinuca?

É, boa pergunta..

Só os fatos dirão a resposta.

Uma coisa eu digo, o Pré-sal tem muitas ameaças, muitas mesmo, como pude explicitar neste artigo, mas se tem uma coisa que nós, os marítimos, não somos, é justamente isso: AMEAÇA. Somos a mola mestra disso tudo, nunca se esqueçam disso.

Brasil – Um país de todos!

De todos mesmo, principalmente dos que não são daqui.

Força e Honra! Sempre!

Por Rodrigo Cintra

3 COMENTÁRIOS

  1. É isso Rodrigo, como vc sabe de comentários que postei, apoio suas sugestões 100pc, só acrescentaria que precisamos de referência de mercado, como as que existem nos ACT, para a contratação dos estrangeiros dentro da realidade salarial brasileira. Mas hoje, por conta da intransigência de se negociar acordos, essa referência não existe.
    A avalanche de embarcações oriundas da redução drástica das atividades no Golfo do México, por conta do acidente com a Deep Water Horizon é outra preocupação não só da parte de mão de obra dos marítimos, como da construção naval. Precisamos do subsídio na forma como existe em países como a Espanha por exemplo.
    Mas acho que vc foi muito feliz em suas colocações

  2. Sobre a formação de profissionais por entidades civis, universitárias, desde que sob a supervisão da Autoridade Maritima, a exemplo do que acontece com a formação de aviadores, é a solução ideal pois preserva o mercado de trabalho do brasileiro, livra a Autoridade Maritima das llimitações impostas pelo orçamento da União que, neste ano, com o corte de 50 bilhões, reduziu drásticamente os recursos disponiveis para o EPM.
    Neste ponto vemos a grande contradição:
    O mercado de trabalho com urgência de novos profissionais e a Marinha do Brasil, por conta do corte do Governo, reduzindo de forma não menos drástica a formação de profissionais para tripular Navios.
    Por isso seria necessário o assunto ganhar o interesse da mídia para chamar a sociedade para tão relevante discussão.
    A preocupação da Autoridade Marítima é com a qualidade do profissional, e tal preocupação perde integralmente o sentido quando se permite a entrada de pessoal estangeiro cujo controle de qualidade que tem reflexos diretos na segurança, não existe.
    São muitas as variáveis e por isso devemos ampliar a discussão de modo a trazer para ela o Parlamento e o Planalto

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