De Marujo a Coordenador de Materiais – Entrevista com Luiz Jesus, Coordenador de Materiais na BW Offshore

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Leia esta entrevista com Luiz Jesus, Coordenador de Materiais na BW Offshore. Mais um jovem com uma carreira de destaque neste tão importante setor que é o de materiais.

De onde veio a idéia de trabalhar embarcado?

A minha relação com o mar tem um certo romantismo. Desde de que me entendo por gente, eu dizia que entraria para a Marinha do Brasil. Era o meu sonho de garoto e que foi realizado aos 18 anos. Aos 20 anos eu já estava fora e trabalhando como Comprador na Halliburton, mas lembro que nessa época eu não pensava em trabalhar embarcado, até que, 4 anos após, recebi um convite de Pride, aceitei e aqui estou; indo para o 7º ano na vida offshore e vejo que o meu lugar é aqui, no mar, sob a proteção de Netuno.

Como você vê a relação família x trabalho na sua profissão?

Essa é a parte mais difícil. Meus filhos, de certo modo, já se acostumaram com a minha ausência por 2, 3 semanas, mas ainda assim vejo que em algumas situações eles sentem o fato de eu não poder estar presente em uma festinha da escola, em um aniversário. Por outro lado, aprendi a valorizar mais certas coisas que antes passavam despercebidas. A principal delas, foi valorizar os momentos que estamos juntos. Muitas das vezes as semanas de folga são rápidas e curtas diante de tantas coisas pra fazer, porém, passei a agregar mais qualidade ao meu tempo com eles e mesmo distante, procuro me fazer presente ligando todos os dias e participando do dia-a-dia. Em alguns momentos a saudade bate mais forte, mas eu sempre tenho em mente que esse sacrifício é por eles, e que eles são o meu motivo de estar aqui. Eles me impulsionam a seguir em frente.

Fale um pouco de sua experiência como Almoxarife.

Então… há 11 anos iniciei a minha carreira profissional na área de petróleo como estagiário na Halliburton. Seis meses após eu estava sendo contratado como comprador para a base de Macaé. Após 4 anos na área de compras, recebi um convite da Pride para trabalhar como Almoxarife embarcado. Aceitei o convite, mas um pouco descrente de que eu poderia ir tão longe, pois ficar longe da família e confinado por 14 dias, seria uma experiência nova e difícil. O tempo foi passando e eu comecei a encarar a vida offshore de uma forma diferente. Vi também uma ótima oportunidade de crescimento e consolidação de uma carreira em uma área que estava começando a dar sinais de um crescimento ainda maior. Após 4 anos na Pride, e depois de uma curta passagem pela Acergy, fui para a Modec, aonde a minha carreira deu um salto considerável, pois após 1 ano e meio na Modec, fui convidado a fazer parte do time de comissionamento do FPSO Cidade de Niterói na China. Foram 5 meses de muito trabalho e muito aprendizado. Tenho consciência de que esse projeto foi o divisor de águas na minha carreira. Após 3 anos na Modec, fui convidado a fazer parte do time do FPSO Cidade de São Vicente da BW Offshore, o primeiro FPSO do Campo de Tupi no pré-sal e aqui estou há pouco mais de um ano.

FPSO Cidade de São Vicente - BW Offshore

Por que é tão difícil hoje acharmos bons Almoxarifes Offshore? Falta qualificação ou falta interesse dos profisionais?

A profissão de Almoxarife Offshore é uma das poucas aonde não se exige qualificação técnica específica. O que eu vejo é que muitas empresas acabam não dando o devido valor a importância da profissão. Eu sou a favor da oportunidade para todos, mas tem sido cada vez mais constante as empresas efetivarem Radio Operadores, Comissários, Professores de Inglês etc como Almoxarifes somente por saber falar inglês. Eu sou a favor de uma qualificação mais técnica. Não basta somente saber falar inglês. O profissional deve conhecer ferramentas e equipamentos e fazer a parte administrativa. Muitos Almoxarifes hoje não sabem calcular a depreciação de deteminado material ou não sabem o impacto de cada movimentação de um determinado item na parte contábil da empresa. Isso também é culpa do dinamismo da área offshore, é cada vez mais constante a contratação de pessoal com pouca experiência, pois a oferta em alguns casos, é maior que a procura.

Você trata diretamente com o público a bordo. Qual a importância de saber lidar com o pessoal em todos os níveis hierárquicos?

A função de Almoxarife requer muito “jogo de cintura” e exige que a pessoa seja extremamente política, por ter que lidar com o pessoal de todos os níveis hierárquicos, assim como os subcontratados, fornecedores e pessoal de terra. Eu tenho a opnião de que a educação e o respeito são a base para qualquer relação, seja ela pessoal ou profissional. Muitas das vezes é complicado, pois nem sempre conseguimos atender as expectativas e necessiadades de todos, mas temos sempre que fazer o possível e algumas vezes o impossível para ter uma solução. Eu digo que a função do Almoxarife vai muito além do receber e entregar materiais e fazer pedidos. Eu brinco dizendo que o Almoxarifado é um centro de soluções integradas, muitas das vezes uma pessoa chega querendo um lápis e sai com uma impressora. Por isso a importância de o Almoxarife conhecer o seu Almoxarifado e também conhecer o processo em que ele trabalha. Quanto a lidar com pessoas de diferentes níveis hierárquicos, é importante saber se impor em algumas situações, não confundir amizade com profissional e saber a quem se reportar quando necessário. Não adianta ser ótimo tecnicamente mas não saber lidar com pessoas, o sucesso do nosso trabalho também está no tipo de relação interpessoal que nós temos.

Em relação aos expats, como você vê as constantes reclamações tanto deles como nossas? Na sua opinião, qual seria a melhor solução pra isso?

O que eu vejo é que a diferença cultural é ainda a grande barreira para uma melhor aceitação entre ambas as partes. O brasileiro tem o seu jeito descontraído e brincalhão, muitas da vezes é visto como irresponsável, por outro lado, os expats com um jeito mais frio, sério, é visto como antipático, linha dura. Eu creio que para isso não existe uma solução, acredito que deva ser sempre levado em consideração o lado profissional de ambas as partes e o respeito mútuo. Não irei levantar a bandeira de que os expats não deveriam continuar trabalhando no Brasil, seria muito radical, sou a favor da política dos 80% x 20%. Há alguns meses eu assisti a uma palestra aqui na BW, justamente sobre a relação interpessoal entre os funcionários de diversas nacionalidades. Depois dessa palestra, ficou mais fácil de entender o porquê das pessoas de determinados países possuirem certas características e isso colaborou e muito para a nossa convivência aqui a bordo. Eu aconselharia essa palestra para todas as empresas.

Como o Inglês pôde ser um diferencial na sua carreira?

Especificamente na minha carreira, o inglês agregado a minha experiência me permitem uma maior inclusão dentro do meu processo de trabalho. Antes, quando o inglês era básico, eu ficava restrito ao mundo do Almoxarifado. Hoje, com o inglês já em um nível bem melhor, consigo interagir com os outros departamentos de uma forma mais ampla. Hoje é mais fácil sentar com um Superintendente ou Supervisor e conversar com ele sobre uma necessidade e ajudar a encontrar uma melhor solução. Sem o inglês, eu tenho certeza de que não teria feito a metade do que já consegui fazer até hoje.

Assumir uma Coordenação na sua idade deve pesar bastante. Como você está lidando com isso?

É um novo desafio, talvez um dos maiores que eu já enfrentei. No início foi difícil, fiquei apreensivo, mas com o passar do tempo fui me adaptando, aprendendo e principalmente me lembrando de tudo aquilo que eu aprendi por onde passei. Mesmo nas vezes em que eu errei, procurei tirar algo de positivo. Hoje, os erros, os acertos, as situações e as pessoas que eu conheci na minha trajetória, contribuem para que eu consiga encarar esse desafio de frente e sem medo.

Que conselhos você deixa para os que buscam seu lugar ao sol nesta tão imporante área que é a dos Materiais?

Especificamente na área de materiais, a organização, o inglês e as relações interpessoais são primodiais. Não só na área de materiais, mas em qualquer área, nunca desista do seu objetivo e nunca pense que você não pode fazer algo. Com dedicação e humildade, o homem chega aonde quiser.

O que costuma fazer na sua folga? Algum hobby em especial?

Curtir meus filhotes… esse é o meu hobby, meu passatempo, minha brincadeira, minha diversão !!!

Deixe uma mensagem para nossos leitores.

‎”Sorte é quando o Preparo e a Oportunidade se encontram.” Dalai Lama

Pensem nisso !

O Portal Marítimo agradece ao colega Luiz Jesus pela entrevista e espera que esta sirva de estímulo para os que pretendem abraçar essa carreira num posição tão importante e estratégica para as operações de qualquer Organização.

Vamo que vamo!

Por Rodrigo Cintra

6 COMENTÁRIOS

  1. Entrevistas como esta nos remetem a razao de ser deste Portal, que e contribuir atraves do jornalismo para o crescimento da area maritima como um todo. Esta contribuicao e muitissimo importante no momento que o nosso pais vive, onde a area maritima e a proa do crescimento brasileiro.

    Fundamentacoes economico-politicas a parte, tenho uma paixao particular pelos oficios do mar, como a profissao offshore. Talvez por ja ter feito parte da Escola de Formacao de Oficiais da Marinha Mercante, de onde teve inicio a amizade impar com o Editor deste site, Rodrigo Cintra, que muito me ensinou e ensina ate hoje sobre as questoes do trabalho e vida no mar.

    Muito me encanta a perspectiva que existe no setor maritimo. Sabemos que, para os que labutam em terra, uma boa perspectiva de crescimento esta longe de depender apenas da dedicacao e da humildade, como bem falou o colega Luiz. Muitas vezes, para o minimo crescimento numa empresa em terra, e exigida uma boa dose de politica e uma sorte que nao e resultado da soma “preparo + oportunidade”.

    Por isso e tao importante mostrar ao Brasil o quanto esta area cresce – e mais – mostrar que esta area cresce em padroes internacionais, sendo a principal responsavel pelo que se diz aqui na Europa, onde me encontro agora, que o Brasil sera uma das cinco potencias mundiais nos proximos cinco anos.

    Um abraco a todos!

  2. Sou almoxarife de profissão (Paioleiro) pela Marinha do Brasil, onde me dediquei durante 25 anos trabalhando no setor, trabalhei com materiais, desde armamento, munição, sobressalentes de Navios, material Nuclear, Material de aeronaves, (Superpuma) diversos materiais de uso comum, e outros mais, gostei muito da entrevista e realmente, a valorização profissional ainda esta aquém do deveria ser, porém, havendo desejo e incentivo chega-se a um patamar desejado pela empresas, estou disponível pelo email, heliozbz@gmail.com.

  3. Muito boa sua entrevista meu querido amigo Luiz! Desejo a vc muita sorte, perseveranca e que vc alcance com as bençãos de Deus seus objetivos em sua caminhada! Bjo grande

  4. Luiz Jesus, parabens pelo apego e responsabilidade que voce exerce esta tua profissão.Conheci voce quando era da Hallibutrton, já naquela época tive
    ótima impressão sobre teu desembaraço na área de Compras.

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