Estudo e embarque: dois bicudos que ainda não se beijam

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Algo que sempre reparei na vida dos meus amigos marítimos é a dificuldade que encontram para estudar. Muitos maquinistas, por exemplo, querem fazer o curso de Engenharia. Procuram a faculdade, encontram e aí começa uma terrível batalha entre faltas, abonos, trabalhos e provas para adequar a rotina da universidade à escala do embarcado.

A vida à bordo permite um crescimento que se apóia na experiência, digamos, não-certificada. As pessoas crescem na medida em que o tempo passa e a vivência da rotina de bordo capacita o profissional para outras funções. No entanto, ouso dizer que a maioria dos embarcados projeta a sua carreira para, em algum momento, vir para terra, e é aí que mora o problema.

“Descer” e trabalhar no chão é relativamente fácil. Difícil é trabalhar em terra com salário e benefícios de bordo. Para isso, na opinião de vários oficiais, é preciso o bendito canudo. Seja ele de graduação, pós-graduação, mestrado, MBA…Um canudo é preciso.

Sem canudo, complica, man...

A “cegueira” das instituições para esse mercado é tão grande, que a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) inaugurou um curso de pós-graduação em Engenharia de Máquinas Navais e Offshore. Para quem vocês acham que foi feita essa pós??

Para o vapo, man!!!

O fato é que esse curso tem aulas todos os sábados. Ou seja, é incompatível com a escala de qualquer embarcado, uma vez que, mesmo que o regime fosse 7 x 7, não haveria como.

A única universidade que está tentando se adequar à vida dos marítimos é a Universidade Gama Filho, também do Rio de Janeiro, que oferece cursos de pós-graduação para embarcados com aulas uma vez por mês. Ou seja, em vez de aulas todos os sábados, temos um sábado e um domingo por mês. Além dos cursos de graduação, que apesar de não estarem completamente adaptados, estão além da realidade atual.

O que desperta a minha atenção é o fato de termos um excelente mercado acadêmico e as instituições simplesmente não enxergarem isso. São milhares de Oficiais de Marinha Mercante que ganham salários na base de R$ 10 mil querendo e, principalmente, podendo buscar cursos e mais cursos.

Tão fazendo o que? Jogando dinheiro fora!

O acesso à qualificação é um problema de amplo espectro na Marinha Mercante. A maioria dos cursos são caros e o acesso a eles é difícil por várias razões. Dando uma olhada no site de uma das instituições mais renomadas na área de cursos Offshore, os cursos estão na média de R$ 3 mil cada. O salário médio de um homem de área ou plataformista gira em torno de R$ 2,500 . Eu já falei sobre isso aqui no texto “Huet, Salvatagem e a falta de mão-de-obra no mar“.

Através deste texto, faço uma sugestão às instituições de ensino e também ao Centros de Instrução da Marinha do Brasil (CIAGA, CIABA). Quem sabe esta não seja uma boa oportunidade para todos nós? Bom negócio é quando todo mundo ganha.

Um forte abraço, pessoal! Até amanhã!

Por Marcus Lotfi

4 COMMENTS

  1. Realmente falta visão por parte das instituições em relação a isso. Quem estuda sabe o “perrengue” que passamos, quer seja numa graduação ou numa pós graduação. Por enquanto e o jeito é fazer do jeito que dá, mas acreditamos piamente que um dia alguém vai se sensibilizar e oferecer algo nos moldes necessários para nós embarcados. Parabéns pelo texto, Lotfi.

  2. Vai entender, quando embarca alguem a bordo que foi engenheiro e que passou pelo ason ou asom, nós marítimos criticamos dizendo que os mesmos são genéricos e que não é justo com quem fez effon e blá, blá, blá, aí os marítimos querem estudar e virar engenheiros.Porque não estudar para ser um marítimo mais preparado e subir no cargo dentro da própria marinha mercante, pois a maioria que quer estudar pra sair da marinha ainda nem chegou em um cargo maior a bordo!!!Vapor é dificil de entender!!!

  3. As instituições de ensino que flexibilizam a questão de faltas não estão, de forma alguma, facilitando a vida dos mercantes. Tanto é que, independentemente das faltas, o aluno mercante deve cumprir com as notas mínimas para serem aprovado nas disciplinas. E, com isso, o aluno acaba sendo quase um autodidata. Mas não estou negligenciando o ensino presencial, de forma alguma!
    E para os que não entendem os marítimos, vai uma dica:

    “Conhecimento nunca é demais!”

    Forte abraço!

    Fabiano Ossola

  4. Prezado Raphael Jr,

    O que o texto diz é que existe uma dificuldade dos marítimos em se qualificarem. O estudo para o mercante serve para muitas coisas, não somente para conseguir uma boa colocação em terra, futuramente. Trabalhar no chão é uma consequência de uma ótima carreira à bordo, e não um objetivo apenas. Acredito piamente que a realidade dos marítimos não seja tão simples assim.

    Um forte abraço!

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