Marinha Mercante mundial ainda é assolada por péssimas condições de trabalho

2

Republicando matéria publicada originalmente em 13 de fevereiro de 2011, trazemos este tema novamente à tona.
90% do comércio internacional é realizado através de transporte marítimo. Isso significa que a grande maioria dos bens que consumimos chega às nossas mãos depois de longas travessias de navio. Mas quem trabalha nesses navios? Quem são as pessoas que durante meses (ou até anos) dão a volta ao mundo, confinados ao convés de uma embarcação?

São cerca de 1,2 milhões de homens entre os trinta e os quarenta anos. Na sua maioria filipinos ou indianos, são quase sempre oriundos de países conhecidos pela mão-de-obra barata. Freqüentemente, alvo de exploração laboral. Muitos, vítimas de tráfico de seres humanos.

Nos últimos trinta a quarenta anos, o sector do transporte marítimo tem passado por uma forte desregulamentação. Tripulação, armador, proprietário e cliente costumam ter nacionalidades diferentes. O registo do navio pode ainda ser feito em países que ofereçam as “melhores condições”. Note-se, por exemplo, que a Libéria, um Estado falhado da África Ocidental, tem a segunda maior frota comercial do mundo. Tudo isto permite a fuga ao controle das Autoridades e dificulta o apuramento de responsabilidades legais.

Se, por natureza, o trabalho marítimo é penoso e arriscado, esta desregulamentação potencia os abusos e os perigos. Organizações internacionais, ONGs e sindicatos têm registado vários tipos de exploração que passam por simples irregularidades nos contratos até trabalho forçado, abusos físicos e assassínios. Os navios não oferecem condições de segurança ou higiene e pode faltar comida e tratamento médico. Os salários nem sempre são pagos ou são atrasados indefinidamente, o que condiciona a saída voluntária do marítimo.

Há também registo de documentos com identidades falsas usados para negar que a vítima alguma vez trabalhou, de forma ao não pagamento de salários, ou para contornar obrigações de quotas mínimas de trabalhadores nacionais. Testemunhos falam de administração de drogas sem o conhecimento das vítimas, o que potencia a violência física e sexual, bem como assassinatos e suicídios, entre homens sob pressão e limitados a um espaço físico exíguo. Os trabalhadores estão confinados e não têm possibilidade de pedir ajuda. Quando o fazem, podem ser inscritos numa lista negra que circula entre as agências de recrutamento marítimo, o que significa que o trabalhador dificilmente voltará a ser contratado naquele setor. Por fim, existem situações de abandono em portos longínquos sem pagamento do trabalho até então realizado na embarcação. O abandono implica um total desprotegimento em território desconhecido, sem condições de subsistência. Muitas vezes as vítimas são consideradas pelas autoridades locais como imigrantes ilegais ou até, como já foi registrado um caso, acusados de terrorismo pelo proprietário do navio.

“Navios da Vergonha” é um documentário realizado por dois jornalistas canadenses, Malcom Guy e Michele Smith, que documenta a difícil situação dos trabalhadores marítimos.

Porque quando os produtos chegam já podem ter passado por várias mãos escravas.

Com as informações – Susana Coroado / Expresso (Portugal)

Por Rodrigo Cintra

2 COMENTÁRIOS

  1. A CLASSE TRABALHADORA MARÍTIMA ESTÁ TENDO CADA VEZ MAIS DIFICULDADES NAS RELACÕES TRABALHO EMPRESA. NOSSOS ACORDOS COLETIVOS DEIXARAM DE SER INDIVIDUAL PARA SER NEGOCIADO COM UM GRUPO CADA VEZ MAIOR DE EMPRESAS COMO É O CASO DA ABEAM QUE A CADA NEGOCIACÃO ESTÁ ACHATANDO OS SALÁRIOS DOS MARÍTIMOS E O MARÍTIMO NÃO TEM COMO SE DEFENDER, ESTÁ NA HORA DOS SINDICATOS TOMAREM UMA PROVIDENCIA, ATÉ PORQUE ANTES OS ACTS ERAM FEITOS INDIVIDUALMENTE E JAMAIS COM UM CONGLOMERADO DE EMPRESAS.. AONDE VAMOS CHEGAR DESSE JEITO?

Deixe uma resposta