Acidentes/Incidentes e Indisciplina Operacional – Assim como arroz e feijão….

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Lendo algumas estatísticas oficiais e comunicados hoje pela manhã, alguns dados chamaram a minha atenção, principalmente um que está estritamente ligado aos Oficiais de Marinha Mercante, que são as colisões, abalroamentos e os acidentes no convés das unidades, quer seja por erros operacionais, quer seja por má condução de Plano de Manutenção de equipamentos.

Somente em 2012, foram registrados até o presente momento mais de dez  ocorrências de abalroamentos de embarcações de apoio em Unidades Marítimas. Recentemente, foram quatro casos em menos de quarenta e oito horas. Durante as investigações, vários desvios são encontrados e boa parte deles sempre está relacionado à má delegação de tarefas, muitas vezes delegadas a pessoas inexperientes ou sem o devido treinamento, má condução de Plano de Manutenção de equipamentos críticos e outros são relacionados à comunicação, pois nem todo mundo que trabalha junto fala o mesmo idioma.

Torna-se vital o envolvimento dos oficiais nestas questões, pois os mesmos devem assumir seus papéis de supervisores, conhecendo as tarefas, liderando discussões a respeito das mesmas, buscando cada vez mais informações e, mais que isso, é importante que os mesmos pratiquem os procedimentos e recomendações de segurança operacional na íntegra, sem atalhos, sem by passes, servindo de exemplo para todos.

A nova tendência do “Operador de Posicionamento Dinâmico” em detrimento do “Oficial de Náutica”, nos traz novas situações, que é a justamente de Oficiais com Carta de Competência, mas não familiarizados com as rotinas da operação de um convés de uma embarcação. O mesmo se aplica à tendência do “Operador de Sala de Controle” em detrimento do “Oficial de Máquinas”.

Já soube até de casos de oficiais que não sabiam o que era um Manifesto de Carga, ou então, apesar de saberem o que é, não saberem como usá-lo, ou até mesmo de sua importância, e certamente alguns dos que estão lendo aqui estão se perguntando neste exato momento o que é isso.

Um atalho, um by pass, pode custar um ferimento sério, a amputação de um membro, pode custar até mesmo uma vida, talvez mais de uma.

Um atalho, um by pass, pode causar um incidente ambiental de proporções incalculáveis.

Um atalho, um by pass, pode danificar o patrimônio das empresas para as quais trabalhamos.

As causas são quase sempre as mesmas, e relacionadas aos pontos que seguem relacionados abaixo:

1. Falta de conhecimento adequado e/ou de experiência, levando o profissional a adotar práticas inadequadas.

2. Indisciplina Operacional: Descumprimento de procedimentos e normas relativas às questões de Segurança nas operações. Acredito de verdade que este item já abrange todos os outros, pois a Indisciplina Operacional, na minha opinião, é justamente o negligenciamento de tudo o que aqui está sendo escrito.

3. Falha de comunicação entre equipe de Convés e a equipe que está no Passadiço, quanto às informações necessárias para assegurar uma manobra segura;

4. Falha na análise de risco: Avaliação inadequada do Risco da Operação;

5. Falta de Habilidade e Prática Inadequada: Não realização dos testes necessários para verificar operacionalidade de equipamentos e condições adversas; e

6. Manutenção Preventiva inadequada: Ausência ou inadequação da avaliação da necessidade de Manutenção de equipamentos críticos, aliadas a falta de sistemática de inspeção.

Pessoas acidentadas, prensadas entre cargas, membros amputados, algumas mortes, vazamentos que poluem o meio ambiente marinho e patrimônios de milhões de dólares danificados… por puro desconhecimento de causa, ou falta de envolvimento nas operações, por indisciplina operacional, no fim das contas. Cenários que nenhuma empresa quer ver em suas instalações.

Todas as grandes petrolíferas têm seus manuais de operações: Petrobras, Shell, BP, Statoil, Agip, enfim… todas. As empresas de apoio também os têm, ou seja: as coisas estão escritas.

Será que alguém ainda acredita que todos os procedimentos existentes são uma “mera foirmalidade”? Não, colegas… definitivamente não são e urge cada vez mais termos essa consciência.

São inúmeras as operações nas diferentes unidades quer sejam de apoio marítimo, perfuração, produção, pesquisa, transporte, enfim.. é uma vasta gama de atividades e praticamente tudo está coberto por procedimento.

Conheça a sua unidade, conheça seu trabalho, conheça suas funções…

O que não está coberto por procedimento, está errado, e para consertarmos este desvio, basta que sentemos, avaliemos a atividade e criemos um procedimento para tal, sempre levando-se em conta os riscos inerentes às particularidades de cada atividade realizada.

Fora isso, treinar é fundamental.

Como aprendemos lá nas artes marciais, na vida a coisa não é diferente: a repetição leva à perfeição. Será que alguém ainda tem alguma dúvida disso?

Diversos  tipos de simulados podem ser conduzidos em unidades marítimas. Incêndio, SOPEP, abandono, resgate de homem ao mar, resgate de homem ferido, resgate em espaço confinado, enfim… são diversas situações possíveis às quais estamos expostos diariamente em nossa rotina.

Saber qual a sua tarefa e qual o seu posto em cada situação é fundamental e não entre nessa de “eu já faço isso a vinte anos”, porque para cada tipo de unidade, para cada operação, a tarefa é diferente, seu posto de abandono, posto de incêndio, tud pode mudar de uma unidade para a outra.

Quer seja durante um simulado, ou até mesmo numa situação real, primeiramente cuide de si, mas também preste atenção “no que” e “em quem” está ao seu redor. Nestas horas os ânimos se exaltam e muitas pessoas ficam literalmente “perdidas”, sem saber o que fazer, para onde devem ir, especialmente os novatos e pessoal de empresas prestadoras de serviço a bordo. Passar uma sensação de segurança para estes colegas é fundamental, tornando necessário que os ajudemos a agir e reagir com segurança.

Todo e qualquer problema ou desvio observado durante um simulado de emergência deve se imediatamente relatado ao seu Supervisor. Não se trata de entregar um ou outro, vamos tirar isso da mente, pois estamos falando de segurança, gente, estamos falando de VIDAS HUMANAS.

Observe se o tempo disponível é adequado para as tarefas, preste atenção se os alarmes sonoros foram bem entendidos, se os sinais que indicam rotas de fuga estão visíveis e desobstruídos, se alto falantes estão operacionais, se os equipamentos necessários estão disponíveis e em condições de uso e qualquer coisa a mais que você julgar necessário. Na dúvida, PARE e PERGUNTE. Não existe pergunda idiota, lembre-se disso. Perguntas são perguntas, dúvidas são dúvidas e a sua dúvida pode ser a de muitos, ou seja, isso pode salvar vidas.

Comporte-se com a devida seriedade durante os simulados e treinamentos e colabore para que os outros também procedam desta forma e sempre levante possibilidades novas dentro de uma mesma situação abordada por um exercício. Entenda que este não é um momento de descontração, mas sim de treinamento.

Traga exemplos de fora da indústria do petróleo e sempre tente ver como esses exemplos podem tornar a sua conduta pessoal e a sua unidade mais seguras.

O treinamento dos Oficiais de Náutica e de Máquinas, dando ênfase na avaliação de riscos nas operações, considerando as situações adversas e as previstas nos diversos manuais das diversas companhias em se tratando de operação de embarcações de apoio com plataformas de petróleo deve ser levado a sério, pois este tipo de operação caracteriza o momento de maior risco e deve ser realizada com planejamento e atenção apropriadas. Conhecimento e cautela são fundamentais.

Mais do que apenas treinar, o constante levantamento de necessidades de treinamento dos Oficiais deve ser realmente visto com fator crucial e uma ótima ferramenta para que se meça isso, além do contato diário com os mesmos, são as Avaliações de Desemprenho. Lembrem-se que é extremamente importante capacitar adequadamente os oficiais envolvidos nas diversas operações. Treinamento não é gasto puro e simples, mas sim um investimento em qualidade e principalmente em proteção dos ativos da empresa.

Um ponto muito fraco das diversas unidades por onde já pude passar é justamente a familiarização e integração dos novatos. Esta atividade deve ser constantemente monitorada e encerrada somente quando ficar constatado que o novo funcionário esteja realmente capacitado e familiarizado para a nova função e isso envolve a designação de instrutores para os novatos, que venham a atuar como verdadeiros tutores. Não se deve incorrer no erro de colocar no comando de operações oficiais inexperientes sem o devido acompanhamento.

Equipamentos críticos para a operação segura da unidade devem ter atenção especial por parte da administração de bordo, sendo sempre mantidos como prioridade máxima, para que estejam sempre funcionando adequadamente e com o programa de manutenção e inspeções inerentes ao mesmo sempre em dia. Isto diminui significativamente a chance de falhas em sua operação.

A troca de informações entre todos é também fundamental, pois nos casos de incidentes já ocorridos, todos podem saber o que fazer, o que evitar e como fazer ou evitar. Assim fica mais fácil aprendermos as lições relacionadas a acidentes e incidentes já ocorridos.

Negligenciar tudo o que foi dito acima caracteriza total indisciplina operacional e isso não deve ser tolerado de maneira alguma, por tudo o que está envolvido: vidas humanas, meio ambiente e patrimônio.

Agora, se mesmo assim você não estiver nem aí, se você for mais um dos famosos “inhos” que já citei aqui no Portal, aqueles colegas  que estão “quietinhos”, no seu “trabalhinho”, para ganhar seu “dinheirinho” e voltar pra sua “casinha”, tome cuidado, pois os diminutivos que você tanto aplica a sua vida, podem definitivamente ser aplicados à própria duração dela.

Quando o Zé Maria chegar, campanha, não diga que não avisamos!

Lembre-se que seu maior objetivo a bordo é voltar pra casa…. e inteiro de preferência.

Por Rodrigo Cintra

4 COMENTÁRIOS

  1. O Rodrigo Cintra tem razão, eu conheço um oficial da Marinha de Guerra, que fez um pequeno curso e dizem para ele, que esta apto para trabalhar em navio de longo curso. Essa pessoa nunca vai ter o conhecimento daquele que se qualificou durante anos. com essa falta de conhecimento e experiência, pode colocar a vida dos trabalhadores em risco.

  2. Rodrigo,
    Tendo voltado ao mar, particularmente as embarcações offshore nesses ultimos tres anos pude verificar o que você, muito brilhantemente por sinal, transmitiu a todos do meio sua materia acima que acabo de ler. Vejo com muita preocupação esse assunto ora levantado atraves de minha dedicação e atuação a bordo transmito a todos oficiais e de outras categorias a grande necessidade da familiarização, treinamento e desempenho cauteloso de suas atividades. Acredito que cursos e treinamentos que são realizados nas diversas unidades de ensino e somados com a modalidade de aprendizado atraves dos cursos existentes nas unidades, e que deveriam ser adotados em outras, muito ajudam no desempenho dos tripulantes em suas funções, porém a dedicação pessoal e envolvimento no seu dia a dia a bordo certamente geram um profissional com melhores resultados e consequentemente menores riscos a todos, bem como da unidade que se encontram embarcados. Estou repassando sua materia e acredito que a Classe Mercante lhe deve mais essa por ter nos transmitido mais essa importante pauta.

  3. O problema não está ‘apenas’ no pessoal que vem da ‘briosa’ para cima dos navios e plataformas. Estes (pelo menos os que eu conheci) tem demonstrado interesse em aprender e se adaptar à nova realidade.
    Pior é ver este pessoal recém formado, mal formado, que não se interessa em aprender, que acha que sabe alguma coisa e que se confia num mercado de trabalho favorável para serem menos pressionados e menos cobrados (ruim com eles, pior sem eles).
    Quantos Comandantes, hoje, dormem tranquilos com os Oficiais que tem na Praça de Máquinas e no Passadiço, conduzindo o navio?

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