Leitor dá sua visão sobre o Estaleiro Atlântico Sul e toda a polêmica gerada em torno do mesmo

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O senhor Carlos Costa, leitor nosso, português e construtor naval, dá sua visão a respeito de um dos maiores empreendimentos dos últimos anos em termos de construção naval em nosso país, que vem dando o que falar, gerando uma série de polêmicas sobre planejamento, qualificação de mão de obra, política etc…

Vamos ao seu texto:

“Sou português e construtor naval em Portugal e conhecedor da realidade dos Estaleiros Atlântico Sul.
Os EAS têm uma capacidade de construção naval invejável, toda uma tecnologia de construção do que mais recente existe e com um ativo muito importante, os seus trabalhadores e todos os seus técnicos.
Considero que não terá sido fácil colocar de pé uma estrutura como o EAS, mas ele está lá e agora só se tem que se dar tempo ao tempo para que se comece a produzir dentro dos rácios que foram estabelecidos.
A construção naval é uma atividade muito estruturante que carece de uma excelente organização e coordenação.
A sua gestão terá de ser online, quero eu dizer com isto, que tem de viver os problemas do dia-a-dia e incentivar a procura do bem-fazer.
Não considero, que os seus sócios pelo facto de não terem no seu cerne a construção naval, tenham sido o problema, bem pelo contrário, colocaram à disposição da construção naval Brasileira uma ferramenta, que só tem que ser é bem gerida.
Acredito que hoje poderá ser mais fácil do que foi no início, falo em dois problemas, a formação de trabalhadores para a função e toda a logística de transportes desses mesmos trabalhadores, uma vez que as acessibilidades eram praticamente inexistentes.
Para além de toda a gestão de implantação e implementação do estaleiro também houve que cuidar daqueles fatores, o que se diga, não deve ter sido nada fácil.
Mas todos (Estado, Gov. Pernambuco, Petrobras e Transpetro) têm que ponderar que tudo isto foi feito, com mais ou menos atraso, por quê e para quê:
• Para o desenvolvimento do Estado de Pernambuco;
• Para a criação de postos de trabalho, que hoje rondam os 8000 dos EAS e outros 25000 de empresas fornecedoras;
• Para responder à forte demanda, para o investimento que a Petrobras prevê fazer e que tem responsabilidades perante os seus acionistas;
Tudo isto, não é para hoje nem para amanhã, é pelo menos para os próximos 15 a 20 anos, será que fará sentido estarmos a falar num atraso de 20 meses, quando está tanta coisa em jogo?
Será que não seria melhor colaborar na procura de soluções em vez de suspender contratos?
Será que não merecem algum crédito os que tiverem a coragem e a vontade de edificar um Estaleiro como o EAS?
Poderão dizer, mas contratos são contratos, é verdade, mas desde que as pessoas envolvidas nos contratos estejam de boa-fé, podem sempre ponderar aquilo que é mais importante para as partes e também para quem está à espera que a utilização do navio seja um fato e não uma disputa.
Em Portugal temos um forte exemplo de uma construção que deu em disputa e hoje dá pena ver um navio que nos custou, a nós contribuintes, €45M para o vermos parado, isto porque, o Gov. Regional dos Açores cancelou o contrato, por o navio dar menos 1 nó de velocidade do que estava contratado. É inconcebível.
Eventualmente,no EAS, há que tomar algumas medidas, para que a gestão seja mais adequada, mas não se vai sacrificar o “borrego” e ofereceê-lo com paga por todos os atrasos.
Três palavras para “tocar para a frente” os EAS:
– Analisar;
– Ponderar;
– Agir.
Relativamente à Samsung gostaria de dizer que esta poderia ter trazido uma mais-valia importante tanto em termos técnicos como em termos organizacionais, mas desistiu, ou porque quis ser prepotente, não levando em consideração o que de bom tem a construção naval brasileira ou porque não teve capacidade para enfrentar os problemas que sempre surgem na fase de arranque de uma estrutura como é o EAS, sejam eles técnicos, financeiros, administrativos ou sociais.
Mas os que desistem não fazem história e eu acredito que o EAS vai fazer história na construção Naval Brasileira.”

Por Carlos Costa – Leitor do Portal Marítimo

1 COMENTÁRIO

  1. Parabens Sr. Carlos Costa,comentários bastante pertinentes quanto ao EAS, precisa entender de Construção Naval e história desta atividade no Brasil para faze-lo.O EAS tem futuro, esta atividade que usa mão de obra intensiva precisa de ingredientes para acelerar a sua curva de aprendizado, porque ainda está na fase de “on the job training “investindo na qualificação de mão de obra local.
    Reiqui Abe- Ex. Diretor do industrial do EAS (2007- 2010).

    • Parabens as colocações de vcs , estive lá por uma empreiteira e estava tudo no inicio de um grande e promissor negócio , parabéns pela gestão que estive por lá senhor Reiqui Abe .

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