Entrevista com o Mestre Sidnei Esteves, Professor do CIAGA

0

 SE4

Tivemos o prazer de entrevistar um dos professores mais queridos da Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante / RJ, o Mestre Sidnei Esteves, Capitão de Longo Curso e ferrenho defensor das tradições marinheiras.

PORTAL:  Primeiramente gostaríamos de reforçar o enorme prazer que é te entrevistar, Sidnei. Fale-nos um pouco sobre sua carreira no mar.

SIDNEI: Trabalhei em algumas empresas de cabotagem e longo-curso, exercendo todas as funções como oficial de náutica de 1968 a 1985. Pude conhecer quase todos os portos brasileiros e aportei em muitos portos estrangeiros. Conheci toda a América do Sul, parte da América do Norte, diversos países da Europa e fui a Russia. Só não visitei o Oriente. Dos países que mais gostei, cito o Chile, a Inglaterra, a Bélgica e o Canadá. Trabalhei em navios “multi-purpose”, “full-containers” e graneleiros. Na carga líquida fui 1º piloto de um navio de óleo vegetal. Mesmo depois de começar a lecionar, embarcava nas férias que eram de 3 meses, fazendo a rendição de férias dos colegas, onde além de faturar um “extra”, me reciclava. Hoje é difícil, pois só temos 1 mês de férias. Me reciclo com meus colegas embarcados, meus ex-alunos e pela Internet.

SE3
CLC Sidnei Esteves

PORTAL: NA sua opinião, qual a principal diferença entre a sua geração e a atual?

SIDNEI: São algumas, a saber: O tempo de embarque era de 1 ano por 1 mês de férias, que aumentou pouco a pouco. Em compensação aposentava-se mais cedo, pois o ano marítimo era de 255 dias. Outra grande diferença é a tecnologia, onde tudo que existe hoje não existia antes. Navegar, não era só uma ciência, mas uma verdadeira ARTE, onde tínhamos orgulho de saber utilizar todos os cálculos, tábuas e instrumentos que aprendemos na Escola. Evidente que o uso em larga escala da informática só veio aprimorar as teorias, que jamais devem ser negligenciadas. O pleno conhecimento das teorias básicas irão servir para o progresso profissional aliado as novas tecnologias.

Navio Monte Cristo. Último navio em que o Mestre Sidnei viajou. Um SD-14, exatamente como esses que o pessoal vive carregando nos exercícios do CIAGA. O navio foi entregue a um armador grego em Hamburgo, e o Mestre Sidnei fez esta última viagem.
Navio Monte Cristo. Último navio em que o Mestre Sidnei viajou. Um SD-14, exatamente como esses que o pessoal vive carregando nos exercícios do CIAGA. O navio foi entregue a um armador grego em Hamburgo, e o Mestre Sidnei fez esta última viagem.

PORTAL: Há quanto tempo você leciona no CIAGA? Como é a convivência com os alunos?

SIDNEI: Estou aqui há 29 anos. Parece que foi ontem! Fui lecionar devido a problemas de saúde na família, que me impediam de viajar. Fui gostando e fiquei até hoje. Quando comecei, minha convivência, além da relação professor-aluno, era a de um irmão mais velho, com o tempo, a de um tio, as vezes de um pai e agora de um vovô com muitas histórias para contar, mas sempre a melhor possível, com poucos percalços. Faço o que posso para amenizar as “pedreiras” que são as matérias que leciono, Estabilidade e Técnica de Transporte Marítimo.

PORTAL: O que considera como um ponto forte do EPM hoje, que não havia na sua época?

SIDNEI: Sem dúvida, o uso dos simuladores em todas as áreas, se bem que na minha ainda estamos carentes. Tenho “inveja” do Senai-Benfica onde existe um simulador de Estabilidade para plataformas de petróleo. Gostaria muito que tivéssemos um igual! Alô Armadores! Que tal uma doação deste tipo? Vosso nome entrará para a nossa história!

PORTAL: O que considera como ponto fraco do EPM hoje e que poderia ser igual a sua época?

SIDNEI: Um número maior de professores mercantes. Temos diversos expoentes disponíveis em todas disciplinas profissionalizantes, mas que não vêm lecionar, talvez pela remuneração ou por achar que não têm jeito para ensinar, pelo menos é o que alguns já me disseram. Quando comecei, procurei seguir os métodos dos meus mestres, até ir aperfeiçoando e estabelecer o meu próprio.

PORTAL: Quais seriam suas sugestões para o enriquecimento do currículo dos alunos que se formam na EFOMM?

SIDNEI: Uma vez extinto o PIM (Programa de Instrução no Mar), em que os alunos embarcavam após 1 ano de Escola (e após 2 anos, na época em que o curso durava 4 anos), e voltavam para cursar os outros anos muito mais bem preparados e adestrados com as lides do mar e batizados por deus Netuno, perdeu-se muito. Tal fato,  prejudicou muito a atual formação. Entendo que acabou por falta de navios e do grande número de alunos a embarcar. Mas foi uma pena e uma lacuna não preenchida. Então hoje sinto falta de mais aulas externas e visitas a empresas, estaleiros e navios desde o 1º ano escolar.

PORTAL: Como vê o cenário profissional atual? Quais são as suas expectativas e preocupações?

SIDNEI: Sou um eterno otimista, se bem que nos anos 90 quase me rendi às evidencias. Período no qual nossa Marinha Mercante de Longo Curso foi dizimada, por políticas erráticas por parte do Governo Federal, com a anuência e complacência da Armação, apesar dos protestos dos órgãos de classe. Não me compete enumerar erros nem apontar culpados. A grande sorte é que “ DEUS é brasileiro”, e aí veio o advento da exploração de petróleo e gás no mar, que foi e é a tábua de salvação da nossa Marinha Mercante. Creio e torço que com o incremento do pré-sal, o cenário futuro será o melhor possível, apesar do grande número de estrangeiros militando e até tomando lugar dos nativos. Devo acrescentar que o “input” na Grande Cabotagem dos navios “full-containers”, também está contribuindo para melhorar a oferta de empregos. Quanto aos granéis sólidos estamos estagnados, a meu ver precisando de uma renovação da frota de cabotagem e com oferta de atrativos para os jovens.

Mestre Sidnei deixa uma mensagem para os leitores
Mestre Sidnei deixa uma mensagem para os leitores

PORTAL: Deixe uma mensagem especial para os nossos leitores.

SIDNEI: Toda a atividade da Marinha Mercante envolve uma enorme cadeia logística que não é exercida apenas no mar. Portanto a minha mensagem é: Estudem, aperfeiçoem-se cada vez mais, “devorem” os manuais, façam todos os cursos possíveis, não só os da sua área. Procurem entender e estudar toda a cadeia logística de movimentação de cargas, sejam quais forem. As armas que vocês têm para combater qualquer ataque alienígena é a sua COMPETÊNCIA PROFISSIONAL. Assumam esse lema:  “PODEM NOS IGUALAR, SUPERAR JAMAIS”.

Agradecemos ao Mestre Sidnei pela disposição e colaboração com esta entrevista, sabemos quão escasso é seu tempo. Que esta entrevista sirva para esclarecimento e motivação de todos os que pensam em abraçar ou já abraçaram esta maravilhosa carreira que é a Marinha Mercante.

Por Rodrigo Cintra

1 COMENTÁRIO

  1. Agradeço do fundo do coração as palavras do meu amigo Rodrigo Cintra, este também um grande defensor da classe e do Ensino. Obrigado pelas fotos postadas. Apenas esclareço que aquela viagem no Monte Cristo foi a última antes de eu ir para a Escola lecionar. Já como professor fiz várias outras, sendo a derradeira no graneleiro Espirito Santo em 1999 como Imediato. Grato por tudo e espero haver contribuído no incentivo das novas gerações. Sds. Mercantes.!

  2. Grande Comandante, grande Mestre! Graças a seu preciosos ensinamentos desde curso básico, passando por aperfeiçoamento e atualização, pude executar todas as minhas tarefas a bordo como oficial, inspetor, vistoriador e perito naval. O nosso projeto do laboratório de estabilidade não está esquecido.
    Forte abraço
    Luiz Anderson

  3. meu nome é carlos williams sa cavalcante viajaei no navio monte cristo da empresa mit de 1989 a 1993 para os portos da turkia e yuguslavia onde ficamos arrestados por quase cinco anos de sofrimento, de toda tripulação ficamos apenas quatro tripulantes, comandante ajoir duarte da silveira ,chefe de maquinas sebastião, taifeiro ismar francisco diniz e eu carlos williams o navio foi vendido para um armador grego em 1993.

  4. Grande Mestre…! tenho muita vontade de voltar a embarcar … hoje se pudesse voltar atrás, teria tentado uma empresa de cabotagem ao invés de ter ido direto pro offshore.
    Abraço, mestre!

Deixe uma resposta