Portal Marítimo comenta Relatório da BIMCO – mudanças drásticas no setor de graneleiros

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A BIMCO, Baltic and International Maritime Council, publicou um relatório com diversas instruções para seus associados para que estejam preparados e se adequem ao novo perfil exigido pelo Mercado no transporte de granéis sólidos.

Apesar de difícil, e me arrisco a dizer que será uma grade quebra de paradigma neste setor, esta adequação é possível e extremamente necessária para que o negócio envolvendo os navios graneleiros volte a crescer, pois as empresas, principalmente as pequenas, podem simplesmente quebrar e sucumbir à crise mundial.

As principais conclusões do relatório são as seguintes:

1- A consolidação e gestão de riscos será o novo modelo para os armadores de granéis sólidos – com efeitos paralelos em outros setores. Assim, as habilidade de Gerenciamento de Projetos serão cada vez mais necessárias nas empresas. Sistemas de gestão complexos deverão ser implementados, assim como todos os processos internos das empresas que deverão ser mapeáveis.

2- A propriedade fragmentada da frota de granéis sólidos não pode ser sustentada ao longo da crise e veremos uma maior consolidação de embarcações sob uma mesma armação, o que significa menos e maiores empresas, o que dará alguma lógica inclusive na distribuição desta oferta de graneleiros pelo mundo. O que vemos hoje no Mercado são diversos armadores de um só navio. Muitas vezes um navio substandard que já mudou de nome diversas vezes e que arvora alguma bandeira bem “flexível” por assim dizer. A tendência é que esses armadores simplesmente sumam do Mercado, favorecendo aos maiores.

3- As partes interessadas das empresas vão procurar um modelo de negócio mais sofisticado, com informação de melhor qualidade e um maior enfoque na gestão de riscos. Isso vai gerar contratos mais longos e sob regras mais rígidas. Como consequência, os shipbrokers (corretores de navios) terão de fornecer uma ampla gama de serviços, já que as novas companhias de navegação, uma vez que serão bem maiores, vão procurar lidar diretamente com grandes clientes nas principais rotas marítimas. A modalidade de contrato spot vai ficar cada vez mais escassa e isso vai pressionar o mercado de brokeagem a oferecer uma maior e mais diferenciada gama de serviços. 

4- A Convenção da Basileia, que após acertos entre a ILO (International Labor Organization) e a IMO foi implementada na Marinha Mercante através da Convenção de Hong Kong / 2009, que tratou da reciclagem de navios, irá criar escassez e / ou elevar o custo de financiamento para o transporte e a regulamentação desta atividade vai aumentar o custo de financiamentos junto aos bancos e fazer com que estes foquem mais na questão do risco de crédito de seus clientes. Os armadores, a partir da ratificação da convenção, de uma forma bem simplista serão os responsáveis não somente pelo seu desmanche, mas também pela destinação final do navio. Isso implicará custos para que medidas de controle ambientais sejam tomadas, procedimentos técnicos implementados e inevitavelmente as devidas medidas de segurança sejam adotadas.

5- Armadores menores podem ter que procurar meios alternativos de financiamento no futuro. Entenda-se “meios alternativos” como joint ventures, sociedades anônimas com nkPi! sócios, mantendo-se “anônimas” e operando um navio. Dificilmente um armador de um só navio vai ter preço para competir com quem tem mais oferta. Isso vai contra a lógica comercial e gera um precedente para empresas substandard se proliferarem.

6- Estaleiros, embora um pouco mais seguros, terão de diversificar seu portfólio, o que será bom de certa forma para o Mercado. O desmanche de navios, agora regulamentado pela IMO através da adoção da Convenção da Basiléia, vai gerar movimento nos estaleiros e será um grade filão de negócios também, gerando taxa de ocupação significativa nos mesmos, emprego e renda. Alang, na Índia, certamente não será mais o lugar mais indicado para este fim.

7- Muitos estaleiros podem fechar ou buscar fusões com outros, porém, a adaptação de equipamentos para que os navios estejam de acordo com as novas premissas da Legislação Ambiental pode criar novas oportunidades.

Assim, fica claro que esta crise mundial vai afetar as companhias de navegação, não só econômica e financeiramente, mas também sociologicamente. Orçamentos mais apertados, prazos para recebíveis bem maiores, um perfil completamente de tripulantes e uma enxurrada de novos procedimentos, muitos bem parecidos com os da indústria do petróleo, na minha opinião, sendo esta o melhor local para que os players do setor busquem um benchmarking.

Por outro lado, novas atividades surgirão e cabe ao Mercado estar preparado para as mesmas sob todos os seus aspectos.

Veremos mudanças profundas na estrutura do mundo do transporte marítimo, principalmente nas empresas menores. Um novo modelo de negócios vai surgir (na verdade já está surgindo), e as coisas ficarão diferentes não apenas para os armadores, mas também para os shipbrokers, estaleiros, instituições financeiras e outras partes interessadas.

Ao final desse novo relatório a BIMCO chega à conclusão que devido à gravidade da crise o setor só voltaria a crescer em termos de lucratividade em 2019 caso os associados parassem de lançar novos navios, pois há um visível excesso de navios e uma parte considerável deles é composta por verdadeiras sucatas.

É quase que o famoso “ou dá ou desce”, pois o risco de quebrar é real para as pequenas empresas do setor. Mesmo passando o período ruim, a tendência, após implementado o novo modelo, é que continue, até mesmo porque esta crise vai forçar a elevação do padrão existente no transporte de granel.

Houve um primeiro relatório em Maio, ao qual tive acesso mas nesta época estávamos fora do ar, que pode ser lido na íntegra aqui.

Agora com o novo relatório, que pode ser lido na íntegra aqui, praticamente tudo o que foi dito no primeiro vai se confirmando quase que profeticamente.

O Grupo Portal Marítimo vai desenvolver melhor o assunto Convenção da Basiléia e vamos provocar o Mercado para discutir isso.

Armadores que lêem o Portal Marítimo: não paguem pra ver.

Por Rodrigo Cintra

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