Otto Hahn – O navio mercante com propulsão nuclear

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Este é um dos poucos navios cargueiros com propulsão nuclear já construído. O nome do navio é Otto Hahn e foi um dos quatro navios de carga (houve mais navios com propósitos não militares contruídos, mas não cargueiros) com propulsão nuclear até hoje construídos.

Howaldtswerke Deutsche Werft AG

Como parte dos planos de um fabricante alemão, que construiu primeiro em 1960 um navio de pesquisa para testar a viabilidade da energia nuclear no serviço civil, o Otto Hahn teve sua quilha batida em 1963 pela Howaldtswerke Deutsche Werft AG, de Kiel.

Em 1964, o navio foi lançado e batizado em homenagem a Otto Hahn, Químico alemão e Prêmio Nobel de Química. Otto recebeu o prêmio por ter descoberto em 1938 a fissão nuclear do urânio.

Otto Hahn – Prêmio Nobel de Química de 1944

O primeiro Comandante do Otto Hahn foi Heinrich Lehmann-Willenbrock, um famoso ás que comandara um dos U-Boat alemães na Segunda Guerra Mundial. São creditados a eles 24 naufrágios de embarcações inimigas.

Heinrich Lehmann-Willenbrock, primeiro Comandante

Em 1968, o reator de 38 megawatts do navio nuclear fez seus testes críticos e, logo após estes testes, foi feita a prova de mar. Em outubro do mesmo ano, o NS Otto Hahn foi certificado para o transporte comercial em geral e para pesquisa.

NS Otto Hahn no Porto de Hamburgo – 9 de Junho de 1970

Configurado para o transporte de passageiros e de minério, o Otto Hahn fez sua escala em Safi, Marrocos, com um carregamento de minérios de fosfato, em 1970.

Bico de Proa do NS Otto Hahn

Em 1972, após quatro anos de funcionamento, o seu reator foi reabastecido. Até então, o navio navegara cerca de de 250.000 milhas náuticas (463,000 km) com apenas 22 kG de urânio. Ele navegou por mais 7 anos após o reabastecimento.

Centro de Controle do Reator, ao invés do tradicional CCM
Otto Hahn na Cidade do Cabo – África do Sul
Mais uma imagem da Estação de Controle do Reator do NS Otto Hahn

Aí vem um detalhe que poucos sabem e que pude verificar no site Poder Naval: Este navio já foi oferecido ao Brasil pelo Governo da Alemanha através do acordo Nuclear Brasil – Alemanha.

Antes de falarmos da oferta em si, vamos entender o que foi este acordo:

O Acordo nuclear Brasil-Alemanha foi um acordo assinado no ano de 1975 pelo Brasil e pela Alemanha, representada ainda pela empresa KWU do grupo Siemens, para a construção de oito reatores nucleares. Contudo, após décadas apenas uma usina foi construída: Angra 2. A construção da segunda, Angra 3, foi há muito esquecida, mas no final da década de 2000, após passar novamente por processos licitatórios, a construção foi reassumida pelo governo e planejada para ter seu início a partir de 2010.

Em conjunto à construção e operação das usinas, ocorreu a transferência de tecnologia para o país, o que levou também o Brasil a um desenvolvimento tecnológico próprio, do qual resultou o domínio sobre praticamente todas as etapas de fabricação do combustível nuclear e permitiu a formação de mão-de-obra qualificada no setor. No entanto, por interferência dos Estados Unidos, não foi permitida a transferência de tecnologia alemã de enriquecimento de urânio, motivando o desenvolvimento no Brasil de um sistema próprio, que atingiu capacidade comercial de produção a partir de 2004.

Em 2004, o Acordo foi encerrado. Diante da pressão do seu Partido Verde, o então Ministro Alemão das Relações Exteriores, Joschka Fischer, disse que o acordo nuclear brasileiro era incompatível com a meta alemã de se livrar da energia atômica até 2025. “Na Alemanha temos uma política de abandonar gradualmente a energia nuclear, e isto está avançando para as nossas relações internacionais”, disse Fischer a jornalistas na quinta-feira, durante visita ao Brasil. O Brasil aceitou encerrar o acordo quando ele expirar, no final do ano, e convertê-lo em um pacto de cooperação para a produção de energia solar, eólica, com etanol, biodiesel e outras fontes, segundo diplomatas brasileiros.

Otto Hahn no Rio de Janeiro

No início do Acordo,  no final da década de 1970, o governo alemão, sabendo da intenção da Marinha do Brasil de construir seu submarino nuclear, ofereceu ao Brasil o navio-mercante de propulsão nuclear Otto Hahn. A oferta foi feita porque o navio tinha se tornado economicamente inviável à época, já que pouquíssimos países aceitavam em seus portos, navios com propulsão nuclear, com receio de contaminação. A Marinha do Brasil chegou a examinar e inspecionar o navio, pois a propaganda era de que ele seria um excelente instrumento para o preparo das “futuras guarnições submarinas”. Mas após minucioso exame, a proposta foi recusada, devido ao alto custo de operação do navio e o tempo que ainda decorreria para se construir o primeiro submarino nuclear brasileiro, que se imaginava estaria no mar no ano 2000.

Mais uma bela imagem do NS Oto Hahn – clique para ampliar

Em 1979, o Otto Hahn foi desativado. Seu reator nuclear e instalação de propulsão foram removidos e substituídos por uma Praça de Máquinas com um Motor diesel convencional.

Selo e Carimbo do NS Otto Hahn
Correspondência do NS Otto Hahn

Em nove anos, o navio viajou 650 mil milhas náuticas (1,2 milhão de quilômetros) com propulsão nuclear, fazendo um total de 126 viagens, transportando cerca de 776 mil toneladas de carga e visitando 33 portos em 22 países, inslusive o Porto do Rio de Janeiro. Foram usados 80 kG de urânio como combustível em toda a sua vida com propulsão nuclear. Este navio foi uma prova cabal de sucesso tecnológico, mas falha comercial, dado o alto custo de sua manutenção, apesar do índice ZERO de incidentes com o reator. Foram 3 anos removendo as instalações nucleares e descontaminando o navio a um custo de US$ 11 milhões.

Foto tirada sa Asa de BE do Passadiço do Otto Hahn

Entre 1982 e 1983, o NS Otto Hahn foi recomissionado e convertido navio de transporte de containers, sendo logo posto em serviço comercial com o nome de Trophy. Em 19 de novembro daquele ano, ele foi renomeado como Norasia Susan. Em 1985, mudou novamente seu nome para “Helga Norasia”, em 1989 mudou para “Hua Kang Ele”, em 1998 para “Anais”, e, 1999 para “Tal” e finalmente teve sua última mudança de nome para “Madre”, no mesmo ano.

Seu último Armador, a partir de 2006, foi o liberiano Domine Maritime Corporation, sob a gestão do Alon Maritime Corporation de Atenas, na Grécia. O navio foi para o corte em Alang, Índia em 2009.

Chaminé do Otto Hahn no Museu Marítimo da Alemanha
Outra vista da chaminé em frente ao Museu Marítimo da Alemanha

Sua chaminé é preservada no Schiffahrtsmuseum Deutsches (Museu Marítimo da Alemanha), em Bremerhaven.

Características do navio:

  • Deslocamento 25.790 toneladas (26.200 t) completo, 16.871 toneladas (17.141t) padrão
  • Comprimento: 164,3m flutuação, global de 172,0 m
  • Boca: 23,4 m
  • Bordo livre: 5,3 m
  • Capacidade: 14.040 toneladas brutas (TAB) (39.760 m³)
  • Propulsão: Nuclear
  • Velocidade: 15,75 nós (29 km/h)
  • Tripulação de 63 tripulantes, 35 pessoal de pesquisa
  • Reator
    • Potência: 38 MW
    • Volume: 35 m³
    • Pressão: 85 kp/cm ² (8,3 MPa)
    • Temperatura: 300 ° C
    • Combustível: 1,7 toneladas métricas de urânio enriquecido a 3,5-6,6%
    • Autonomia a plena carga: 900 dias
    • Consumo de combustível: 23.000 MW d / t
    • Fluxo médio do nêutron térmico: 1.1×10 13 / (cm ² s)
    • Número de elementos / barras de combustível: 12/2810
    • Menor diâmetro equivalente: 1.050 milímetros
    • Altura do núcleo ativo: 830 milímetros
    • Diâmetro das Barras de combustível : 11,4 milímetros
    • Revestimento do combustível: 0,8 mm de Zircaloy -4
    • Construtor: Deutsche Babcock & Wilcox-Dampfkesselwerke AG und Internationale Atomreaktorbau GmbH

Esperamos que tenham gostado da matéria.

Por Rodrigo Cintra

1 COMENTÁRIO

  1. O fato de existir um navio mercante a propulsão à energia nuclear é novidade para mim. Eu imaginei que esse tipo de tecnologia só eram utilizados em embarcações militares, par uso em guerra!
    Muito interessante, parabéns pela matéria.

  2. Valeu pela matéria sou fan do Portal Marítimo , SOU VAPOZEIRO DESDE 1980 ,ESTE TIPO DE MÁQUINA PARA NAVIO E A MAIS RESISTENTE.

    RUBÃO RM 1

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