Filtros de óleo usados – muito mais que apenas "lixo"

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Uma análise de um filtro de óleo usado pode dar-nos boas evidências e dados a respeito do desgaste de nossos equipamentos, criando um bom histórico a respeito de partículas desprendidas das partes internas e outros contaminantes durante o passar do tempo.

Geralmente os filtros são descartados e acabam por não serem considerados como parte de uma boa investigação de falhas nos equipamentos, o que é um erro. O filtro é um ótimo indicador, sendo uma ferramenta de análise muito importante.

Os laboratórios que analisam as amostras de óleo que enviamos de nossas unidades são também capacitados para analisarem os filtros. Esta análise basicamente consiste em seccionar o filtro e retirar as partículas que foram retidas através de um solvente com o auxílio de meios mecânicos e/ou ultrassônicos, separando-as e analisando-as uma a uma. Os testes mais comuns incluem ferrografia e análise elementar. Muitas vezes esta análise pode te dar aquela “luz” em relação aos problemas de confiabilidade de seus equipamentos, geralmente problemas ligados ao desgaste do mesmo.

Vamos considerar, como exemplo, uma falha qualquer numa caixa de engrenagens com uma certa criticidade, tipo uma daquelas indispensáveis para algum equipamento importantíssimo da sua unidade operar. Suponhamos que durante uma troca rotineira de filtro de óleo lubrificante, você notou que há um excesso de limalha metálica retida nele. Não estou falando daquela limalhazina que aparece, oriunda do desgaste normal do equipamento, mas sim um visível excesso. Geralmente isso sinaliza alguma quebra interna. Já que notamos isso, abrimos o equipamento e após uma inspeção interna, vemos que há um dente de engrenagem quebrado.

Isso costuma acontecer, tenho certeza que muitos colegas aqui já passaram por isso. Já que o óleo dessa caixa de engrenagem possui sistema de filtragem, que nos permitiu identificar e atuar antes de uma falha, devemos colher uma amostra deste óleo e, juntamente com o filtro, enviar para análise em um laboratório.

A análise desse óleo vai evidenciar uma série de anormalidades em sua composição, coisa que nunca saberíamos, uma vez que, não fosse o filtro com a limalha em excesso, não teríamos uma condição adversa ao ponto de suspeitarmos da quebra de um dente de engrenagem. É óbvio que alguma evidência de falha deveria existir no óleo lubrificante, indicando uma provável falha na caixa de engrenagens.

Já que vimos limalha em excesso, requerimos ao laboratório uma análise ferrográfica, também conhecida como ferrografia analítica (que é o processo mais detalhado para análise) nesta amostra, a fim de determinarmos a causa raiz dessa falha. Mesmo que se faça uma análise bem complexa, ainda não podemos ter uma conclusão final a respeito.

Após isso, solicitamos uma análise do óleo retido do filtro (na verdade é uma mistura, meio óleo, meio borra). Esse óleo, o do filtro, já vai contar uma estória (com “e” mesmo, queridos paladinos da Língua Portuguesa) completamente diferente.

Como esperado, uma análise espectrométrica mostrou uma diferença absurda entre o óleo em circulação na caixa de engrenagens e o óleo retido no filtro, o que pode ser explicado por alguns fatores.

O primeiro e mais importante, coisa que eu sempre bati a bordo com oficiais, condutores, mecânicos, motormans e marinheiros, é o método usado para a coleta da amostra. A verdade, falando um Português claro, “neguinho faz de qualquer jeito”, colhe em qualquer ponto, sem ter um mínimo de bom senso. Essa amostra da caixa de engrenagem foi retirada através do método chamdo “drop tube sampling”, que consiste em descer um tubo por uma abertura usada para encher o reservatório dela ou então descê-lo por um tubo de sondagem, até mais ou menos o meio do reservatório e ali colher a amostra. Já viram aquela brincadeira de mergulhar um canudo num copo d’água, fechar o orifício superior dele com o dedo e retirá-lo, em seguida? Mais ou menos isso. Este método não é uma maneira muito confiável de se colher amostras, já que, com ele, é difícil de se obter uma amostra que realmente represente o óleo como um todo, devido a uma série de fatores (local da abertura, contaminação no próprio tubo, áreas de turbulência, etc…). Já que vimos esta diferença entre as análises, é provável que a caixa de engrenagens esteve parada por algum tempo, o que fez com que a limalha ficasse sedimentada no fundo do reservatório antes da coleta da amostra.

O segundo é o fato de que o processo de filtragem submicrônica retira as partículas maiores, o que causa a maior concentração destas partículas na amostra do filtro.

A ferrografia analítica foi feita também na amostra do filtro. Partículas de desgaste superiores a 30 microns foram encontradas no filtro. Além disso, foi também encontrado uma contaminação abrasiva de 125 microns. Estes resultados indicam que a falha foi causada por contaminação excessiva do ambiente externo. Neste caso, a contaminação provavelmente adentrou o sistema através do respiradores, que possuem filtros de limalha de aço que deveriam segurar estas impurezas.

No final, percebemos que o filtro analisado continha os segredos que determinariam o problema no equipamento. A atuação do operador, identificando a alta concentração de limalha e detrito neste filtro, foi crucial. Sem esta ação, o equipamento poderia ter sofrido um dano gravíssimo e, dependendo do equipamento que fosse, estaria colocando vidas humanas, o meio ambiente e o patrimônio da empresa em jogo.

Vamos interpretar as análises de óleo que sempre chegam para a unidade, não apenas salvando-as e esquecendo-as, pois elas dizem muito sobre o equipamento. Se você não entende, pergunte ao seu Chefe de Máquinas ou Supervisor / Coordenador de Manutenção, que provavelmente eles sabem.

Dessa forma poderemos continuar a fazer a diferença e continuaremos a ser as grandes estrelas de uma instalação, interferindo e agindo no momento certo, evitando danos gravíssmos e mostrando que, por mais moderna que uma instalação seja, ela sempre vai precisar de um profissional para operá-la e/ou fazer sua manutenção, profissional este, que com seu senso crítico, baseado em seu conhecimento técnico e experiência, vai procurar mantê-la funcionando da maneira mais otimizada possível.

Um filtro usado é muito mais que “apenas lixo”, podendo dizer bastante coisa sobre o equipamento.

Por Rodrigo Cintra

1 COMENTÁRIO

  1. Realmente uma informação muito importante para todos ligados a operação / manutenção / coordenação de praça de maquinas de Unidades Flutuantes e Industriais.

    Hidelbrando A. Almeida Filho
    Chefe de Maquinas

  2. Realmente uma informação muito importante para todos ligados a operação / manutenção / coordenação de praça de maquinas de Unidades Flutuantes e Industriais.

    Hidelbrando A. Almeida Filho
    Chefe de Maquinas

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