Cartão de Observação de Risco – Vamos nos conscientizar!

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Cartão “Stop”, Cartão “ROC”, Cartão “HOC”, Cartão “EVITAR” e por aí vai. Em todas as empresas offshore, temos o tal “Cartão de Observação de Riscos.” Eu faço a pergunta agora: Será que os profissionais embarcados entendem importância dele? Será que o pessoal de terra esclarece as políticas que envolvem estes cartões?

Em um ambiente industrial, quer seja offshore ou em terra, estamos expostos a diversos riscos. Ao trazermos para a nossa realidade offshore, principalmente dos que trabalham a bordo de plataformas de perfuração, a situação fica feia. Temos um ambiente de risco 4, o que significa um alto risco. Pra quem não sabe, estamos num grau de risco que só fica atrás das usinas nucleares. E olha que depois de diversos incidentes, essa escala de graus deve mudar, pelo que andei lendo.

É consenso nas empresas que estes cartões existem para corrigirmos desvios nas práticas do pessoal e tornar o ambiente cada vez mais seguro, através do feedback constante do nosso dia a dia. Os cartões são fruto de observações de comportamentos, condições ou atos inseguros. Não são para “entregar” pessoas ou coisa do tipo.

Quem usa o cartão para isso e os supervisores que boicotam as políticas internas das empresas pressionando quem escreve os cartões a “entregar” os envolvidos nas ocorrências, deveriam ser orientados, mas em caso de reincidência, mereciam ser PUNIDOS pela empresa.

Por outro lado, ao identificar tal prática, os responsáveis deveriam ter atitudes imediatas e pontuais, mas muitos querem que as estatísticas fiquem bem na foto.

Nestes cartões, não citamos o nome, muito menos a função, dos que estavam envolvidos na situação, a não ser em caso de um cartão positivo.

Esse é o ponto: o cartão é feito em cima de uma SITUAÇÃO.

Portanto, não existe essa de “Vou dar um cartão em fulano” ou então “Vou dar um cartão em ciclano”.

Enquanto esta mentalidade do “Fulando me deu um cartão, vou dar um nele também” ou então do “Vou dar cartão no Joãozinho” permanecer, as políticas de Segurança das empresas vão andar a passo de tartaruga e teremos sempre os mesmos cartões, muitas vezes IDIOTAS, ou então “carteados” (quando a pessoa simplesmente inventa algo) mesmo.

Trabalhei numa plataforma que o peão ficava cercando os mecânicos e os eletricistas, só esperando que eles fossem fazer alguma manutenção. Era eles começarem que sempre encostava alguém e perguntava o que é que estava rolando.

Pronto. Pegavam aquela manutenção e escreviam um cartão, dizendo que que informaram ao Mecânico ou ao Eletricista e eles consertaram.

O mais engraçado de tudo, é que eram manutenções preventivas, pôxa. Serviços rotineiros existentes no Programa de Manutenção da Unidade.

E os cartões bizarros… Esses são os piores!

Nunca me esqueço de um cartão lido na reunião matinal há alguns anos atrás, onde o colega havia escrito que o moitão do guindaste estava sem o pino trava… O OIM mandou parar a reunião e o pessoal foi checar na mesma hora, pois isso é gravíssimo e já iam começar a movimentação de cargas do dia. No final das contas, veio a velha desculpa… o cartão era só para cumprir a “cota de cartões” (outra coisa no mínimo questionável) e o cara que havia escrito já havia desembarcado.

Agora você vê…

Peão é esperto pra caramba.

Outra coisa que acontece também é a famosa “Guerra de Cartões” entre  setores. Parece até uma novela com os atores e o cenário diferente, mas sempre com o mesmo texto e enredo.

Sei que os que lerem isso, vão acabar se lembrando de uma situação parecida com essa, mas vamos a uma situação hipotética (mas qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, ok? kkkk):

O cara vai no Piso da Perfuração, aí percebe que ele está escorregadio e, portanto, perigoso. Ele não avisa a ninguém do setor (na verdade deveria avisar a um dos supervisores da área – se não avisar, o cartão perde o propósito, que é justamente corrigir estes desvios) e escreve o cartão. Pior: escreve que avisou ao supervisor da área.

No dia seguinte, na reunião matinal dos supervisores, o cartão é lido e o supervisor da área, o nosso querido Toolpusher, é pego “de calça arriada”. Acabou a reunião, ele chama o Sondador e pede satisfações… o Sondador também é pego de “calça arriada”. O Sondador chama o Assistente, que fala com o Torrista, que fala com o Plataformista e por aí vai. Se tiver um pobre dum Homem de Área passando, sobra até pra ele.

Fica todo mundo chateado e aí vêem que quem escreveu o cartão era da Praça de Máquinas, por exemplo. Aí, parceiro… Ordem do Dia no Piso da Perfuração: “Vamos meter cartão no pessoal da Máquina”.

O Plataformista vai, desce na Praça de Máquinas sem avisar a ninguém, vê alguma coisa e carteia uma ocorrência pra colocar no cartão. Aí é chamado a atenção porque desceu na Máquina sem avisar. Mais um cartão escrito pela Máquina (novamente), Chefe de Máquinas p.. da vida (pois viu que o cara veio na Máquina à procura de cartão – mas acabou sendo envolvido em uma ocorrência que gerou outro cartão) e aí… Ordem do Dia na Máquina: “Vamos meter cartão no pessoal do Piso da Perfuração”.

A estória se repete ao contrário e o ciclo vicioso continua e aí já entra de lambuja o pessoal da Movimentação de Carga, Marinharia, Produção, Subsea, Hotelaria e por aí vai…

Lá na bendita Macaé, ou Rio das Ostras, Rio de Janeiro, Houston ou sei lá onde, o pessoal de QSMS se orgulha da quantidade de cartões. É estatística… é número… gera aquela curvinha colorida, sempre subindo, muito bonita…

Mas e a qualidade?

Acho que todas as empresas deveriam pensar nisso com mais atenção, pois todo curso que fazemos em Macaé, nas empresas que fornecem treinamentos de segurança, encontramos colegas de diversas empresas diferentes e  assunto sempre vem à tona.

Será que teremos um ambiente mais seguro se mantivermos esta visão deturpada do Cartão de Observação de Risco?

Parceiro…

Com certeza não.

Acidentes virão, pessoas vão se machucar e não faremos a principal coisa que nós, peões de bordo (pois somos todos peões, uma vez que estamos aqui a bordo), deveríamos fazer…

VOLTAR INTEIRO PRA CASA.

Pensem nisso.

Quer conevrsar sobre o assunto? Comenta ai embaixo ou me manda um e mail. vamos conversar: rodrigo.cintra@portalmaritimo.com

Por Rodrigo Cintra

1 COMENTÁRIO

  1. Ainda bem que na Petrobras esse sistema de cartões é pouco utilizado, apenas para comunicação de incidentes ou mesmo sugestões de SMS, utilizados nas reuniões de CIPA.

    Agora, assim como é chato ver o cara escrever uma observação de risco e não falar com mais ninguém, é bisonho ver as chamadas “lideranças” encararem os cartões como “advertências contra eles”. Eles deveriam lembrar que o cartão não é o problema, o acidente sim é um problema.

  2. também com os profissionais que estão sendo contratados só tem que dá nisso mesmo, sei de casos de embarcados que só tem o pensino fundamental e foi indicado por alguém masque para embarcar ainda sabe-se que existe o tal ” esquenta a carteira” para conseguir embarcar isto é absurdo pois tanta gente qualificada que estudou não consegue a vaga e um sem a menor condição e qualificação só porque foi indicado por alguém que tá embarcado consegue, pessoas que não tem a menor condição de trabalhar em local de segurança máxima como é o caso de plataformas , pessoas com sérios desequilibrios emocionais e por ai vai, só tem que dá BO mesmo!! enquanto não houver um sistema sério de seleção de pessoal essas coisas vão continuar acontecendo.

    • Regina
      Hoje é padrão nas empresas o profissional ter o segundo grau completo, pleo menos. Quem não se enquadra nisso ou entrou há muito tempo atrás ou “conhece alguém”.
      Faço a pergunta: você trabalha embarcada e vê essas coisas ou está tentando uma vaga no setor? Concordo com você em relação ao ponto de vista de que quanto maior a instrução, mais fácil fica para conscientizarmos as pessoas da importância disso.

  3. Rapaz, eu também já passei por isso em uma empresa que eu passei, não era de petróleo não mas a segurança por lá tinha conotação extrema chegando a situação de eu ter que gerar 15 potenciais por mês, fora que eu estava muito atarefado com a engenharia por que sou engenheiro e estava tocando a obra, o fogo pegando e eu tendo parar o que eu estava fazendo para inventar potenciais de risco. Com isso saiacada pérolas como as portas tinham que ter vidros para que outra pessoa que estivesse do outro lado não tomasse uma portada se eu abrisse a mesma, (num era só bater antes)…,uma outra vez queriam por meus almoxafires e motorista para fora da fabrica por que o fiscal de segurança da empreiteira de segurança pegou eles levando algumas eletrocalhas numa Kombi, hora bolas se kombi não pode transportar coisas serve pra que então? pra passear no fim de semana e o cara alegou que as eletrocalhas poderiam sair voando se houvesse uma freada forte, eu quebrei ele quando perguntei qual era o limite de velocidade dentro da fabrica e ele respondeu 20km/h nem preciso resposnder que a palhaçada acabou quando ele respondeu além do fato de elas estarem amarradas dentro do carro… entre outras coisas fico feliz que na petro não é assim porque essas coisas tiram muito o foco do principal que é o trabalho e a segurança de fato dos envolvidos nas tarefas e não em preocupação em cumprir metas de preencher formulários de araque.

  4. Muito bom o texto, Cintra. E queria corroborar tudo o que já foi dito com mais algumas explicações…
    Todo sistema de gestão, seja de SMS, Ambiental, de Qualidade, etc., dependem de outros fatores além da ação inicial tomada para se identificar o que se deseja. No caso dos cartões de avaliação, percepção de risco ou de avaliação de condição Insegura de pessoas e/ou objetos, a meta não é somente ter um número elevado de cartões[…] Apesar de um número elevado de cartões representar uma participação ativa dos funcionários em relação ao sistema de gestão[…], e nem ter uma “qualidade” elevada. Pois não é esse o objetivo deste tipo de ferramenta. Aliás é bom que se explique que os cartões de observação são apenas a ponta do Iceberg. Pois uma observação feita no cartão e não tratada não serve de nada!! E que fique claro que o “tratar” significa ter uma ferramenta no sistema de gestão que monitore e controle os problemas encontrados a fim de que possam ser solucionados.
    O cartão usado dentro de um sistema que monitore e controle as medidas e ações tomadas serve, principalmente, de importante de incentivo para que todos participem da gestão de SMS.
    Fazendo isso, pode-se dizer que a empresa realmente promove segurança. Pois faz com que cada um seja uma importante peça no sistema de gestão. E quando o funcionário sabe que a sua observação no cartão irá ser tratada adequadamente, e que será feito o possível para solucionar a questão, o mesmo se sente mais integrado com a empresa e fica mais consciente de que suas observações podem, e muito, ajudar a melhorar seu ambiente de trabalho.
    Há empresas na indústria do petróleo que já fazem isso. E servem como paradigma para as outras empresas!

    É isso!!

    Abraços!!!

  5. Cartao dedo-duro, essa eh sua funcao mais relevante. Nao precisa nome nem funcao, mas me diga, se no meu navio ha apenas um cozinheiro e um taifeiro, e o cozinheiro eh o unico que manuseia a faca, e por acaso eu o vi cortando carne sem a luva de malha de aco, como escrevo no cartao sem dedura-lo? Que outra pessoa no navio estara cortando carne sem luva? Imbecilidade, nao serve pra nada, mais uma invencao pra atormentar e burocratizar a vida a bordo. Por isso poucos batem no peito e amam a profissao, pq na verdade ela eh um saco, cheia de problemas e pessoas complicadoras do servico. Ou vc acha legal todo dia de manha alguem fazer uma reuniao pra ler Cartoes de observacao? Me poupe, ja comecei o dia ruim…

  6. O uso desses cartões acaba sendo criminalizado, de modo que poucos colaboradores entendem a importância do mesmo. Geralmente, se o cartão gera faina(tratar alguma coisa, reparar alguma coisa) o autor da observação é censurado e vida que segue… Lamentável.

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