A maldita cultura do "inho"

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“Campanha, eu só vim aqui ganhar meu dinheirinho, no meu empreguinho, sem perturbar ninguém, e ir embora pra casa”. Quantas vezes você já não ouviu isso, caro leitor? Escolha pessoal de cada um, é óbvio, mas deixemos cada coisa no seu lugar.

Muitos dos colegas que procuram fazer a diferença, indo um pouco além do que é “apenas sua obrigação”, muitas vezes são advertidos pela galera do “inho”, que diz que, se você fizer algo a mais, ou apenas se você esmerar-se um pouco em seu trabalho, estará “esfaqueando” ele, ou coisa do tipo. Pior são aqueles que viram para você e ainda debocham, como já aconteceu comigo mais de uma vez: “Aí, mané. Você dá o gás aí, e eu só faço o meu aqui. No final do mês, a gente ganha a mesma coisa”. E isso, colegas, com tudo pegando, cheio de vazamentos pra tudo que é lado (mesmo ele dizendo que não deixa pegar – rsrsrsrs).

Assim, os Moços de Máquinas, Marinheiros, Plataformistas, Homens de Área, Mecânicos, Motormans etc ficam se arrebentando, literalmente “enxugando gelo” e o supervisor “inho” insistindo em afirmar que “aqui é assim”.  No final, parceiro, sobra pra eles, que estão ali “de frente pro crime”. Não que não haja profissionais como os que eu citei que sejam “inhos”, mas é que a rotina dos caras é tão pesada e corrida, que um “inho” rapidinho é colocado pra fora, fazendo a incidência deste mal entre a supervisão (por incrível que pareça) ser bem maior. Como diria o grande Primitivo, Deckpusher na Petroserv, “Empurrar no peão é mole, não é mesmo?”

Uma vez eu estava navegando num canal, alarmou pressão baixa de ar de controle e um colega simplesmente silenciou o alarme. Cheguei no CCM (Centro de Controle de Máquinas), e ele estava do mesmo jeito que antes, acomodado e “nem aí” para o que estava se passando em campo. Tem noção do tamanho da irresponsabilidade? O navio perde o governo, já era. Como diria o Sargento Cezário, instrutor de Combate a Incêndio lá do CAMALEÃO, em Parada de Lucas (ou então Cezááááááário, como diriam meus amigos Hidelbrando, Augusto, Isaac, Andrea Nunes, Fabiano Alves e Carlos Antônio “Abelha”), é “caixão e velar preta” (SIC) kkkk.

Se há um Oficial, Engenheiro ou Supervisor ali, é justamente para fazer a diferença, para intervir quando o pessoal já esgotou seus recursos técnicos e para PENSAR, pensar muito. Se ele não trabalha pensando, pode desembarcar o cara, pois ele torna-se dispensável e te garanto que 95% dos profissionais que estão abaixo dele na hierarquia, já desenvolveram o raciocínio crítico e lógico, indispensável para quem está a frente de algo.

Não existe essa de “aqui é assim”. Problema é para ser resolvido. Tá vazando? Troca junta, aperta mais a sobreposta do engaxetamento, coloca mais uma volta de gaxeta, troca o selo mecânico, troca a tampa que está empenada, sei lá, dá o jeito… mas tira o vazamento. Aí tem aquele cara que sempre tá “porrando” com o Top Drive quando está operando ou então arrebentando chaves hidráulicas por excesso de torque e também dizendo que “aqui é assim”.  Uma vez ou outra, acontece, todos erramos, eu, você, o colega ao lado, mas SEMPRE… errar SEMPRE… é complicado. Muito complicado.

E isso vale para outras coisas com vibração anormal em equipamentos, sons estranhos, consumo anormal de combustível, purificador jogando fora e o cara simplesmente recirculando o tanque de borra para o tanque de sedimentação sem tomar outra atitude e esperando que o Chefe mande limpar o equipamento, trocar o’rings e verificar o sistema de injeção de água de fechamento/selagem e o disco de gravidade (já vi isso também, chega a ser cômico) e uma série de gambiarras que vemos por aí.

É bom termos isso em mente, porque de gambiarra em gambiarra, passando por erros de projetos que não são consertados, equipamentos mal localizados, como um motor elétrico de um thruster azimutal retrátil localizado numa dala exatamente do tamanho dele e com um tanque séptico bem em cima (já quase segurei um pepino por causa disso), surgem os problemas e, quando surgem, a empresa vem cobrando e pedindo a solução e todo mundo quer “tirar o seu da reta”, pois você deve fazer valer seu salário e, nessa hora, parceiro,  é a técnica que vai fazer a diferença, é o esmero que vai fazer a diferença, e não o “inho”. O “inho” é o comum, o “inho “é dispensável. Vou além e digo que o “inho” pouco a pouco, vai perdendo espaço no Mercado de Trabalho, limitando-se a virar um especialista em apertar botões e, quando pega… Chama o Chefe, o Comandante, o OIM, o Toolpusher, a Oficina, chama o Batman, chama o “Raio que o parta”, mas não chama ele. Não conte com ele.

Enquanto o cara fica nessa de “meu empreguinho”, no “meu naviozinho”, na “minha sondazinha”, pra ganhar “meu dinheirinho”, vem o profissional expatriado, larga o sangue a bordo (na maioria dos casos, pois é óbvio que o “inho” é um mal mundial), resolve os problemas (não todos, é claro) e coloca o “inho” literalmente “no bolso”. Nossa formação já não ajuda muito, fazendo da busca por qualificações extras uma coisa extremamente necessária e o cara ainda embarca no barco do “inho”, quer dizer, no “barquinho” do “inho”, não é mesmo? E sabem qual é a desculpa do “inho”: “Estou sendo discriminado!” É sempre assim. A discriminação é uma realidade no Offshore e na Marinha Mercante hoje mas, por outro lado, boa parte dos conflitos gerados entre expatriados e brasileiros é devido ao despreparo técnico de uma das partes (ou de ambas) e da grande barreira que é o idioma. Muito gringo não deixa o brasileiro botar a mão sim, isso é uma realidade e há motivos diversos, dentre os quais eu destaco:

1- O brasileiro envolvido no problema é mais um “inho” mas ainda não se tocou disso. No fundo, esse cara não tá nem aí, só tá preocupado em não largar a “boca”.

2- O expat não quer perder a “boca” e pagar o “bizú”, mas isso acontece também entre brasileiros. Lembro-me de um colega holandês como qual eu aprendi muito, que me falou o seguinte uma vez: “Rodrigo, Honden eten geen honden. Brazilië is het enige land waar ik ooit in mijn leven waar honden eten honden.” Traduzindo: “Rodrigo, cachorros não comem cachorros. O Brasil é o único país em que eu estive na minha vida onde cachorros comem cachorros”. Ou seja. A galera é desunida mesmo. Ficam nessa palhaçada de baiano, catarina, paraense, carioca, campista, gaúcho, etc… e no final, o BRASILEIRO sai perdendo.

3- O brasileiro não demonstra o conhecimento mínimo, o expat não pega confiança e continua apenas fornecendo lambaios e mais lambaios para o brasileiro trabalhar.

4- O cara é um “inho” consciente, feliz e contente. Ganha um lambaio e fica na dele. Não faz nada, não procura melhorar, demonstrar seus conhecimentos, nada. É um “inho” daqueles bem “inhos” mesmo. Os anos passam e ele fica 300 anos como subalterno do gringo, mas muito satisfeito com isso. Belo plano de vida e carreira, não?

5- O brasileiro demonstra seus conhecimentos, corre atrás, mas é empurrado pra baixo não só pelo expat, mas até mesmo por brasileiros superiores a ele, que ficam com medo do cara ser promovido e disputar vaga com ele. Voltemos ao item 2, que explica esse item, que, de certa forma, é redundância daquele.

Aí eu digo: entra ACT, sai ACT e o poder de negociação do cara fica exatamente limitado às condições de Mercado, na eterna relação de oferta e demanda, da seguinte maneira: tem muito profissional, o poder de negociação cai. Tem pouco, ele aumenta. Colocamos a negociação de nosso salário dependente de tudo, menos da qualidade do serviço que prestamos, um grande contrassenso. Parceiro, a empresa não vai dar aumento, não adianta. Se você não fizer a diferença e deixar de ser um “inho”, você vai continuar na multidão. Vai colocar culpa na empresa, no Sindicato, na Marinha, no vizinho, no cachorro, no Supervisor que pega no seu pé, no gringo, enfim.. vai sobrar para todo mundo e você não vai acordar e ver que o problema está em você mesmo.

“Ah, mas a empresa não me paga um salário legal”… Pôxa, deixa de ser um “inho”, invista na sua qualificação, não espere a empresa te dar aquele curso que você tanto sonha, corra atrás do melhor para seus conhecimentos técnicos, faça a diferença a bordo e aí, sente e converse com seu patrão. Mostre o que você tem a oferecer e dê motivos ao mesmo para que ele atenda às suas reivindicações. Se mesmo assim você se convencer de que é bom demais para sua empresa, é bem simples: procure outra. Certamente alguém vai te valorizar com uma grana extra, ou um benefício mais atraente, cursos relevantes. Em todas as profissões é assim que funciona. Por que é que conosco, que trabalhamos embarcados, tem que ser diferente? O ACT vai determinar as condições mínimas, mas é a sua qualidade que vai determinar o que você quiser além disso.

Muito me preocupa as entidades que representam os trabalhadores marítimos e os que trabalham no Offshore querendo colocar todo mundo num mesmo saco, dizendo “isso aqui é o profissional que temos”, quando na verdade temos profissionais e profissionais. Em cima do mínimo determinado pelos ACTs cabe a cada um buscar qualquer “plus” em seu contrato.

Por outro lado, o “inho” é especialista em garantir o “empreguinho” dele. É sempre avaliado pelo supervisor de uma boa maneira (nada de mais não…. uma maneira “inho” também, mas que garante o “empreguinho” dele), de forma que este profissional tão conhecido no nosso meio é um ótimo “Eterno Assistente”. Ah… isso tem aos montes. Mecânico que só faz limpeza e pintura da oficina, Eletricista que só troca lâmpada e carrega ferramentas, Oficial de Máquinas “apertador de botão”, “abridor/fechador de válvulas” e especialista em lambaios, Subsea bom de apertar e folgar conexões hidráulicas (sempre com o supervisor indicando aonde), Oficial de Náutica especialista em fazer cafezinho no Passadiço, Sondador “bom de grito com peão” (apenas seguindo as ordens do Toolpusher, expat, é claro…), mas ruim de Top Drive e  Draworks, e por aí vai.

Uma vez, por exemplo, andei num barco croata onde uma colega que ali andou antes de mim, era bastante elogiada por causa dos deliciosos bolos que fazia…

Passar por isso, a maioria já passou, e não há problema algum. O problema é conformar-se com isso, não tentar mudar a situação, não procurar o “próximo passo”.

Um colega meu de turma chamado Bruno Fonseca uma vez falou um negócio que, naquele momento, infelizmente, eu não entendi, mas que hoje eu entendo perfeitamente. Estávamos conversando sobre nossa Formatura no camarote e aí alguém falou que, após a Formatura na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, todos teríamos a  mesmíssima Carta de Competência e aí o Bruno mandou o seguinte: “Negativo. Mesmíssima nada. Cada uma terá um nome de um profissional diferente, o que as torna completamente diferentes umas das outras”.

É, meu caro Bruno. Você estava coberto de razão naquele ano de 2004.

Hoje eu entendo isso e agradeço ao Bruno pelas palavras, pois é a mais pura realidade.

Ahhhh, meu dinheirinho…

Meu empreguinho…

Isso é perigoso…

Gostou do texto? quer conversar sobre o assunto? Comenta aí embaixo, ou então me manda um e mail: rodrigo.cintra@portalmaritimo.com

Por Rodrigo Cintra

1 COMENTÁRIO

  1. Prezado Cintra,
    Concordo em tudo o que disse, você não está denegrindo a imagem do “Brazuca” mas sim mostrando uma realidade que as pessoas teimam em esconder. Muitos se acham safos, mas ficam arrumando desculpas para não fazer determinado trabalho porque vai sujar as mãos. Muitos falam dos gringos, mas não olham ao redor deles próprios. Estes inhos querem demonstrar conhecimento somente ao lado do chefe, mas ao passar pelo colega que está ralando embaixo do estrado, arrumam outra coisa que julgam “prioridade’ e largam o campanha na furada. Só cumprem o que o supervisor determina e muito mal. PRÓ-ATIVIDADE é uma coisa que não existe no vocabulário. Grande abraço. Guerra

  2. No momento é o que essas firmas merecem,enquanto desprezam o bom profissional para botar afilhados de embarcadores e até mesmo de executivos.sou moço de convés e sei como é isso .O mal do afilhado é o padrinho!!

  3. Parabéns pelo belo e expressivo texto, Rodrigo Cintra !!!

    Por sua excelente colocação sobre os “inhos” que nos cerceiam.

  4. esta é a cultura deste pais . onde todos querem se dar bem as custas dos menos favorecido . CHEGA vamos ser mais profissionais .
    vergonha de ser brasileiro é o que sinto nestas horas !!!!!!

  5. Este artigo aponta para uma das causas que o nosso pais tende a ir a pique, se não houver um esforço conjunto dos homens de bem para reverter esta situação.
    Não podemos competir com os paises asiáticos, onde a disciplina e o compromisso com produtividade e os prazos estão acima da individualidade e são além de questão de sobrevivência, é uma questão de honra para todos os envolvidos..
    As cargas horárias são bem mais extensas e a formação profisisonal, de muito melhor qualidade, sem contar os impostos absurdos e leis trabalhistas cegas que no Brasil, mais premiam o vagabundo criador de caso do que o bom profisisonal.
    A justiça trabalhista perdeu o foco de proteger o bom profisisonal e castigar o mau empregador.
    A paternalismo governamental e sindical se preocupa em beneficios e salários, mas não em produtividade para que o nosso pais tenha trabalho para todos! vencendo a acirrada e desigual competição internacional.
    Nossa industria se mantém pelo favorecimento imposto por leis de conteúdo nacional e outros protecionismos, pois em livre concorrência nossos trabalhadores, não tem como competir com os por exemplo, coreanos.

    Não temos tecnologia propria, (qual é a indústria de automóveis genuinamente brasileira?) …(qual é a industria offshore com engenharia de Macaé que sobreviveu sem ter sido comprada pelos estrangeiros?)….pois os grandes empresários e o governo são miopes em sua maioria e nunca investiram sériamente em educação, pesquisa e preparo profissional, principalemtne nos niveis superiores. Haja visto o nivel em que são formados os engenherios brasileiros, por programas de faculdades que nada tem a ver com a realidade de mercado mas obedecem uma arcaica “lei de diretrtizes e bases”, nivelando tudo por baixo.
    O trabalhador “rala” no minimo quatro a cinco meses por ano somente para pagar impostos, o médio empresáriso seis a sete meses, o grande empresário na sua maioria, …., bem o grande tem advogados elege políticos…tem lobbystas…. e incentivos…oferecidos com o suor dos trabalhadores sob a cegueira dos demagogos e eleitoreiros sindicatos.

    Mas vamos aos poucos abrindo brechasneste sistema injusto e cego, onde criar cobras venenosas no jardim é visto como boa técnica e premiar com assistencialismos utilizando o bolso do trablahador rende votos!

    Acorda trabalhador brasileiro! Veja o quanto te roubam, não culpe o patrão, veja o verdadeiro inimigo e como vamso sobreviver competindo com pessoas que estudam sempre tempo integral, são cobrados e forjados ao limite.. com uma sociedade em que uma diversão que enche estádios é a olimpiada de matemática e ciências para todas as escolas!

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