Florianópolis – Por que não o transporte marítimo?

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Há tempos tenho acompanhado, ainda que à distância, uma eterna discussão sobre o transporte marítimo na bela Florianópolis, em Santa Catarina, e o que se pode ver, via de regra, é o seguinte: lobistas políticos sendo chamados de especialistas e especialistas sendo ignorados.

Pior que isso é ver uma capital que sempre prezou pela modernidade e por suas belezas naturais, conhecidas mundialmente, e extremamente demandada por turistas de todas as partes, andar na contra mão de todas as tendências mundiais. Logo Floripa, a Ilha da Magia, que sempre fez jus a esse nome, já que suas belezas estão no nível de grandes polos turísticos nacionais e internacionais.

Diz-se que o transporte marítimo de passageiros não teria viabilidade econômica e isso é repetido como um mantra por autoridades locais. Poderíamos simplesmente resolver esta questão com políticas públicas, quer seja com subsídio, como defendido por especialistas locais, quer seja com parcerias público privadas.

Para se conseguir isso, é necessário ter uma capacidade conciliadora entre partes, mas principalmente uma capacidade de “pensar fora da caixinha”, e não possuir uma visão míope da cidade.

É triste ver “especialistas” afirmando numa conta simples e direta que o transporte marítimo custaria mais caro porque “o motor de um barco consome mais” e “porque não há estrutura”. Ou ainda pior, indo além e afirmando que “o ônibus pega o pessoal na porta de casa”.

Pensamentos como este mantém não somente Florianópolis, mas muitas cidades litorâneas atrasadas, estagnadas ou com um desenvolvimento lento demais. Há cidades em Santa Catarina, com enorme potencial marítimo, mas que, apesar de possuírem até mesmo portos relevantes para a economia nacional, funcionam como verdadeiros feudos onde, no fundo, políticos não querem um desenvolvimento local para se manterem como verdadeiros coronéis, grandes manda chuvas locais. São cidades que poderiam caminhar a passos largos, melhorando a qualidade de vida do povo, serviços públicos, etc, mas que recebem desenvolvimento a conta gotas. E se alguém questionar, a resposta é sempre a mesma: “mas o porto isso… mas o porto aquilo…”

Esta é a bela Florianópolis – Precisa ou não precisa de uma malha marítima decente?

Pensamentos assim, visivelmente presos ao curto prazo, sem visão de futuro, sem visão de investimentos em infra estrutura, impedem um local como Florianópolis de ir além. Nem precisa ser especialista para perceber o potencial marítimo local. Sim, as coisas custam dinheiro, não são gratuitas, porém, se desejamos cidades modernas e sustentáveis, há que se fazer este investimento. Não tem muito pra onde correr.

Poderia, de cara, refutar a tese do “especialista”, comparando o impacto ambiental gerado por ônibus e embarcações. Não dá nem pra começar. Combustíveis com especificações bem diferentes, impactos diferentes, etc.. ou o “especialista” acha que o diesel queimado no ônibus é o mesmo numa embarcação como um catamarã ou qualquer outro tipo de ferry boat? Ou o especialista também acha que a Saúde Pública não entra nesta conta?

Comparar catamarã a ônibus é comparar maçãs com laranjas. Capacidade de transporte, redução de emissões, impacto ambiental, impacto na saúde das pessoas, velocidade, número de trajetos por dia, abertura de novos mercados para que outras atividades se desenvolvam, e muitas outras coisas.

No Rio de Janeiro, fazendo a travessia Rio x Niterói, o catamarã Pão de Açúcar pode levar até 2 mil pessoas

Há a possibilidade de catamarãs como o da foto acima, para 2 mil passageiros, assim como há também para embarcações menores, com mais ou menos conforto, para diferentes gostos e bolsos. Com vontade política as coisas andam.

Mencionaram a infra estrutura necessária para operar essas embarcações de uma maneira extremamente simplória, como se ela fosse toda construída apenas para o catamarã atracar e desatracar. Simplesmente ignoraram TUDO o que parcerias público privadas poderiam gerar no entorno. Novas marinas, comércio, praças de alimentação, locais para eventos, novos pontos turísticos, eu poderia aqui ficar enumerando o dia todo.

Estudos sobre isso não são como hambúrguer no fast food. São profundos e detalhados e não falta benchmark a respeito disso no mundo inteiro. Definir políticas públicas com argumentos rasos nunca será a melhor das opções.

A discussão local deveria ser encorajada entre diversos setores da Sociedade. Estima-se em R$ 50 milhões o custo de quatro píeres com boa estrutura em Florianópolis. Para o transporte aquaviário ter sua tarifa integrada com o ônibus, exigiria um subsídio público de cerca de R$ 10 milhões ao ano, com uma demanda de aproximadamente 13 mil passageiros por dia, mas isso pode variar. Além de um serviço de transporte, o transporte aquaviário pelas baías traria novas oportunidades para o turismo e já há uma empresa autorizada a iniciar uma operação experimental. Um grande imbróglio talvez seja conseguir todas as licenças, principalmente a licença ambiental, mas não é nada impossível. Pelo contrário: é mais possível do que impossível.

A não ser que políticos locais que estejam mais envolvidos com os interesses das empresas de ônibus do que com os interesses públicos, algo que vivo bem de perto aqui no Rio de Janeiro, e não queiram que isso seja possível, o desenvolvimento do transporte marítimo na Ilha da Magia deveria ser simplesmente um caminho sem volta.

Desenvolver e integrar, simples assim. Integração e desenvolvimento dos modais rodoviário e marítimo. Cria sim a faixa exclusiva para os ônibus, por que não? Mas é isso… Ou querem colocar mais ônibus nas ruas? Ciclovias já existem na cidade, mas também podem ser ampliadas, contribuindo para o aumento da malha urbana.

Ou será que algum especialista quer que todos acreditem que o catamarã para ser benéfico deveria pegar as pessoas na porta de casa, mostrando o quanto é leigo, já que a intermodalidade de transportes, quer seja urbano ou de cargas, é uma teoria conhecida a nível mundial pelos benefícios que gera.

Os argumentos e fatos para que se invista na malha marítima de Florianópolis são muitos e além de serem muitos, são antigos.

Ah, mas e as redes dos pescadores artesanais? Bem, até isso dá para se resolver, bastando levar isso em conta nos trajetos pretendidos e isso deve ser feito ainda a nível de projeto, pois já fiquem sabendo que ainda que fique claro a ponto de se provar que o transporte marítimo é a melhor escolha para Floripa, os contrariados vão usar as redes dos pescadores como grande desculpa para não realizarem. Aqui no Rio temos uma família que domina as empresas de ônibus que prestam um serviço LIXO na cidade e bloqueiam através da política qualquer tentativa de desenvolvimento real de um modal diferente. Não sei qual é a família ou a corrente política que faz este papel em Florianópolis, mas o modus operandi é sempre bem parecido. Quando não usam os pescadores como massa de manobra, usam o meio ambiente.

Pensar fora da caixinha é uma arte e é algo que políticos profissionais não conseguem fazer. Que a Prefeitura de Floripa seja mais gestora e menos política.

Se desejarem um exemplo do que a gestão pode fazer, João Dória está dando uma aula em São Paulo.

Prestem atenção e aproveitem a aula gratuita vinda da terra da garoa.

Por Rodrigo Cintra

5 COMENTÁRIOS

  1. Creio que você respondeu: “A não ser que políticos locais que estejam mais envolvidos com os interesses das empresas de ônibus do que com os interesses públicos”. Falta vontade politica!

  2. Essa mesma pergunta Rodrigo, eu faço com relação a Salvador. Só se tem o ferry-boat Salvador-Itaparica. Mas, por que não, catamarãs e ferries ligando Fraol da Barra a Base Naval em São Tomé de Paripe e Porto de Aratu? Isso tiraria muitos ônibus das ruas e o trânsito agradeceria. Fora que, integrando com metrõ, BRT e o próprio ônibus comum, muita gente deixaria o carro em casa. Europa, EUA, Austrlrália e Nova Zelândia, até China, ,possuem catamarãs e ferries como transporte coletivo urbano. Por que não aqui no Brasil nas cidades banhadas por águas navegáveis? Nesses países, existem ferries imensos, que até rotas interestaduais e internacionais fazem. O cara coloca o carro dele lá, vai no conforto de sua cabine,. tem cassino, restaurante, shopping. E com um preço mais barato do que o do combustível que gastaria pela estrada. Poderíamos ter vários desses com rotas como Rio de Janeiro-Santos. Rio-Recife,, Salvador-Ilhéus, Salvador-Porto Seguro e assim por diante. E tira muitos carros das estradas. Aqui não. No lugar onde tem embarcações fazendo transporte,como o ferry-boat Salvador Itaparica, ao invés de melhorar o sistema, incluindo os terminais e embarcações,o povo quer ponte para rodoviarizar a coisa e piorar o trânsito mais ainda. Como fizeram com o Navio Maragojipe. Sucatearam até se acabar, alegando que a estrada tirava passageiro dele, oa invés de melhorá-lo e baratear mais a passagem como forma de incentivar o turismo. E o povo concordam com tudo Isso por serem manipulados por esses lobbistas metidos a especialistas. Fora a falta de educação, pois chegaram os dois ferries da Grécia já tem 2 anos, e já furaram banco, riscaram banheiro, o tripulante vai falar e só falta apanhar. E vai chegar mais um da Austrália, Holanda ou própria Grécia de novo. Vai licitar com essas 3 e outras que aparecerem. Mas vão fazer a mesma coisa.

  3. Você citou bem. João Dória! Esse cara devia e deve ser presidente. Não por fazer política. Mas, gestão. E até parece que esses caras estão preocupados com meio ambiente e rede de pescadores.Como são hipócritas e demagogos! A mesma coisa ocorre aqui em Salvador, com relação ao domínio do ônibus. É uma família. Aliás, uma máfia. Por sinal, pelos visto, em todo o país, dizem que o Celso Daniel morreu por causa disso. Ia denunciar a máfia do ônibus em Santo André, da mesma forma que o Toninho em Campinas. Olha cara! Vou te dizer uma coisa! Depois da morte mutíssimo suspeita do ministro Teori Zawaski,, logo no ato em que ia começara a trabalhar nas 77 delações, algo do que eu já estava convencido, fez-me ficar mais convencido ainda. Não ofendendo a todos, mas a classe política quer o nosso mal. E fazem de tudo para que isso permaneça. Incluindo os subterfúgios e planos mais sujos.

  4. Disse tudo José. Mas com as empresas de ônibus do que com o interesse coletivo. Aliás, essa é a média deles. Estão mais preocupados com eles do que conosco que pagamos os salários deles

  5. Morei em Floripa por pouco mais de um ano. Não há qualquer tipo de mobilização real para realizar uma mudança efetiva no trânsito caótico da cidade. O povo local fala, e eu com meus próprios olhos pude perceber, a situação lá só piora.

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