Por que o Brasil não investe em Eólicas Offshore?

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Esta é uma pergunta que não cala. Um país com dimensões continentais, uma plataforma continental imensa, que não explora todo o potencial de sua Marinha Mercante e que de vez em quando passa por riscos de um apagão de energia.

Estudos concluídos em 2009, e que duraram 10 anos, mostram que o potencial de energia eólica em alto mar é cerca de 12 vezes maior que o potencial de energia eólica em terra. Estamos falando de energia suficiente para promover um crescimento sustentável da Economia do país a médio-longo prazo.

Para se ter uma ideia, enquanto o Reino Unido luta para ter uma capacidade de geração eólica instalada em ambiente marítimo de 40 GW, no Brasil, somente nas regiões Sul – Sudeste, este potencial é de 215 GW, na faixa entre 0 e 100 metros de profundidade. Esta medida foi tomada a 10 metros de altura, mas considerando-se que a altura de um rotor de uma turbina eólica é de cerca de 80 metros, este potencial pode aumentar.

Se juntarmos com o potencial da Região Nordeste, essa capacidade sobe para 606 GW até 100 metros de profundidade. Se formos avaliar o potencial em termos de distância, poderemos produzir 57 GW na faixa até 10 kM da costa, ou seja, algo bem próximo e viável, para uma capacidade de geração bastante interessante, segundo os estudos.

Em termos de capacidade total eólica para o país, o Brasil possui algo em torno de 1,78 TW para sua ZEE (Zona Econômica Exclusiva), o que certamente mudaria o país.

Eólicas Offshore gerariam muitos empregos e energia suficiente para mudar o Brasil

Os estados que mais de destacam por sua capacidade são Rio Grande do Norte, Sergipe, Alagoas, Ceará, santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Assim, é possível ver que o potencial eólico offshore dentro da ZEE brasileira supera em muito o potencial de eólicas terrestres.

E aí vem a pergunta: por que não investir?

Investindo nas eólicas offshore, conhecidas como windfarms, além de desenvolver o potencial energético do país, o Brasil estaria gerando mais empregos na atividade marítima, pois embarcações bem parecidas com as que fazem o apoio à atividade petrolífera teriam que ser utilizadas para diversos fins dando apoio à atividade eólica offshore.

Embarcação de Apoio à Eólica Offshore

Mais que isso, o país estaria profundamente engajado na geração de uma energia limpa, totalmente renovável e com emissão de gases colaboradores para o efeito estufa quase zero.

Apesar de apresentar algumas desvantagens, pelo alto custo de instalação e manutenção, além da poluição visual, no caso das eólicas instaladas próximas à costa, há uma série de vantagens altamente compensatórias, a saber:

  • perenidade e uniformidade dos ventos, o que resulta em menores efeitos decorrentes de turbulência;
  • maior velocidade dos ventos (possivelmente de modo proporcional à distância da costa);
  • redução de algumas externalidades negativas, como emissão de ruídos e impactos à vizinhança;
  • não ocupação de terras habitáveis e/ou agricultáveis; e
  • possibilidade de implantação de turbinas maiores, ante a ausência de limite de peso para transporte dos componentes (problema enfrentando pelas instalações onshore) .

O impacto à paisagem litorânea, apesar de ser um possível empecilho, pode ser mitigado com a limitação à instalação próxima às praias e locais turísticos costeiros.

Alto custo pode ser impecilho

Com as preocupações discutidas em 1992, na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e posteriormente a assinatura do Protocolo de Kyoto, em 1997, o país deveria começar a olhar com mais carinho para esta questão. Estamos falando de um admirável mundo novo tanto em termos de tecnologia para nosso país, como geração de empregos em terra e no mar e mais energia para alimentar nosso crescimento.

Não é algo a ser instalado num estalar de dedos, o custo é altíssimo e não há uma indústria local para suporte, mas algum passo deve ser dado para que pelo menos se inicie algum tipo de conversa.

Embarcações de apoio prestam serviços extremamente especializados nesta atividade

Incentivos político-regulatórios já seriam algo interessante, até mesmo para aliviar a questão dos custos, que somada à alta carga tributária em nosso país pode simplesmente impedir que isso se realize um dia.

Buscar expertise em países que já desenvolvem a atividade, vendo como funcionam seus marcos regulatórios de exploração deste tipo de energia e sua legislação como um todo, bem como entender como esta atividade nova iria interagir com as já existentes no mar, como a Pesca, o Apoio Marítimo e a Navegação Costeira, já que fatalmente campos assim iriam impactar diretamente o ambiente onde essas atividades são realizadas, seria um bom início.

Para um país do tamanho do Brasil, só nos resta mesmo a velha questão, o velho câncer da Nação para tudo o que está ligado ao desenvolvimento da mesma: Vontade política.

E aí? Quem quer discutir o assunto?

Comenta aí embaixo e vamos trocar uma ideia.

Se quiserem, escrevam para mim: rodrigo.cintra@portalmaritimo.com

Vamos tomar um café e conversar sobre isso.

Por Rodrigo Cintra

(republicamos)

4 COMENTÁRIOS

  1. Primeiramente quero parabenizar você Rodrigo, pelo brilhante tema e de cunho atualizadíssimo já que estamos as vésperas de “mais um encontro” mundial referente ao tema mudanças climáticas e meio ambiente. Realmente a motivação política ou a falta dela é o “impecilio mor” para o deslanchar dessas tão necessárias mudanças em nosso país, porém, intendo que discussões como essa proposta por ti fazem com que mas luz seja trazida sobre temas que poderiam (mas não estão frequentes na capas da populares revistas) e que podem influenciar demissões futuras. Acredito no trabalho de “formiguinha”, sou biólogo e vejo que podemos ter progresso de maneira pensada e ambientalmente aceitável, mais uma vez parabéns!

  2. Realmente é uma duvida que não nos deixa sossegar. Mas acredito que esse cenário irá mudar em pouco tempo. Os investimentos no setor eólico têm aumentado substancialmente nos últimos anos. Então, analisando bem, é possível ver essa tendencia de crescimento do setor e dessa forma, espero que seja apenas questão de tempo (e de preferencia, pouco tempo), até que comecem a construção das nossas primeiras “windfarms”. Ansiosa para trabalhar em uma offshore. Espero conseguir e não precisar sair do meu brasilzinho para isso…Afinal, é aquela conhecidíssima e velha relação de amor e ódio com esse pais. Excelente tema.

  3. Cara! Você disse tudo. Sobre o grande câncer, chamado vontade política. Aliás, vontade eles tem. De crescer o bolso deles. Saímos de uma ditadura militar e entramos em outra. A da corrupção. Essa maldita e miserável é quem faz as coisas nesse país com potencial para tudo serem invertidas. Um país com uma grande costa dessa e quantidade de rios e hidrovias e que foi descoberto por causa da navegação, ter a maior parte de seu transporte por caminhão, matando as pessoas nas estradas. Uma barca de comboio nas hidrovias e costa tira um peso enorme de caminhões das estradas. Estamos falando de crise energética por causa de vazões dos rios com uma potencial imenso desse, nos mares. Israel tira frutas,verduras e legumes de terra seca e pedregosa, com água dessalinizada, porque lá é só deserto, não tem rio. E ainda fala, que, se tivesse a quantidade de água que temos, seriam a maior potência desse planeta. Não teria vez para EUA , nem China. Mas isso o pouco importa para os brasileiro. Coloca um telão com jogo do Brasil nas ruas e praças desse país e dê a maior festa de rua do planeta que é isso que importa para ele.

  4. Lembra de uma música que cantava muito a 15 anos atrás? ” Tô nem aí, Tô nem aí”. Pois isso é o brasileiro. E a verdade tem que ser dita. Do jeito que as coisas estão, se fosse para escolher entre Cristo e Barrabás, o brasileiro escolheria Barrabás.

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