Cruzeiros e hotéis – uma relação mal resolvida

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Em conversa recente com duas das maiores referências na Indústria de Cruzeiros Marítimos, os meus camaradas Ernesto São Thiago, advogado militante em Florianópolis, e Alexandre Gomes, Gerente de Operações do Píer Mauá, pude perceber uma relação bastante controversa entre dois ramos que deveriam se ajudar: Os cruzeiros marítimos e os hotéis.

Por incrível que pareça, em alguns locais em nosso país como em Florianópolis, a indústria Hoteleira não consegue enxergar a Indústria de cruzeiros como uma parceira, mas sim como uma concorrente. Uma visão no mínimo míope do Mercado.

A miopia no setor chega ao ponto de um grande empresário no sul do país ter criado a Resort Brasil com o único objetivo de combater os cruzeiros, e não teve sucesso. No final das contas, além de tudo o que aconteceu, um dos presidentes da entidade criada acabou por investir numa loja de uma famosa operadora de turismo em São Paulo e hoje vende… adivinhem? Cruzeiros!

Ernesto São Tiago

Segundo Ernesto São Thiago, um único grande transatlântico pode equivaler a mais de vinte charters aéreos em número de turistas. A combinação destes mercados eleva exponencialmente os ganhos da hotelaria nos portos turísticos e de todos os demais serviços e comércio em geral que orbitam em torno do Turismo (transfers, táxis, passeios, gastronomia, artesanato, lojas, souvenirs, conveniências), com enorme incremento da receita fiscal através da dinamização da economia local, e não do aumento de tributos – como se tem feito equivocadamente, em vários locais. O especialista acrescenta que deve caber a Embratur o protagonismo na articulação entre companhias aéreas, hotéis e armadores e dá muito mais detalhes em artigo escrito em seu blog.

Alexandre Gomes

Já Alexandre Gomes, Gerente de Operações do Píer Mauá, informa que há mais discrepâncias quando se analisa a Indústria de Cruzeiros. Ele afirma que as estatísticas do setor simplesmente ignoram a tripulação dos navios, que geralmente correspondem a 40% de sua capacidade total e no caso dos navios menores, à metade. Segundo ele, este é um pessoal que movimenta a economia local, mas é invisível nas estatísticas, mesmo em se tratando de um número que varia de 300 a 1400 tripulantes.

Alexandre explica que o gasto médio de uma pessoa no porto, segundo a BITO (Associação Brasileira de Turismo receptivo), é de US$ 300. No dia mais movimentado do Píer Mauá, quando havia 7 navios atracados, pode-se afirmar que os navios trouxeram US$ 18 milhões para o Porto do Rio.

Em nossa visão, a coisa é simples:

1- Um turista visitando uma cidade em um navio é uma rápida visita, uma prova do que a cidade tem a oferecer. Coisa de horas…

2- Um turista visitando uma cidade vindo por transporte aéreo ou terrestre, já é uma estadia mais longa, onde o mesmo explora mais as atrações da cidade, ficando mais tempo em hotéis e consumindo serviços locais.

Por que não?

Por que não integrar as forças, de forma que hotéis possam expor em stands nos terminais de passageiros ou até mesmo dentro dos navios através de convênios?

Por que não hotéis locais, em convênio com armadores, não podem oferecer transfers para os pontos turísticos das cidades e durante os mesmos seus serviços possam ser divulgados?

Uma coisa eu digo: um bom passeio pela cidade, quer seja com um guia turístico a pé, de van ou whatever, é um belo atrativo para que estes turistas retornem não de navio, pois são estadias curtas, mas de outras formas e fiquem pela cidade.

Isso evidencia uma segunda coisa que deve ser entendida pela Indústria Hoteleira de uma vez.

Aqui não há a velha dúvida entre o ovo e a galinha.

Os hotéis, no fundo, precisam dos navios. Os navios não precisam dos hotéis.

Os navios atracam, operam, e depois zarpam, acomodando seus passageiros com tanto ou até mais conforto que os hotéis, tendo a capacidade de manter uma boa taxa de ocupação e um bom faturamento em diferentes temporadas. Muitas vezes os navios nem precisam atracar, ficando fundeados e mandando os passageiros para terra em embarcações menores.

O hotel fica ali fixo e sujeito não somente à sazonalidade das temporadas, mas também a todos os encargos locais, como impostos e cumprimento de toda a legislação inerente.

Inclusive já há uma forte corrente mundial dizendo que até mesmo o formato de muitos hotéis do futuro será o de um navio, e já há hotéis assim disponíveis, como pode ser visto neste vídeo:

Quem enxerga e defende a relação “navio x hotel” e não “navio + hotel”, tem uma visão míope do Mercado.

Faço um convite a todos: vamos pensar fora da caixinha.

Qualquer cidade litorânea agradece.

Quer conversar mais sobre isso? Escreve pra mim:

rodrigo.cintra@portalmaritimo.com

Por Rodrigo Cintra

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