Brasil permanece estagnado pela má utilização do modal hidroviário

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Estava aqui vendo o jornal e uma notícia, finalmente publicada em rede nacional, chamou a minha atenção e por isso esta pergunta, já antiga, me veio à mente: por que o Brasil não investe de verdade no modal hidroviário?

Preço da tonelada de soja transportada de caminhão da Região Norte para o Porto de Santos – R$ 128

Se fizer utilizando o Modal Marítimo – R$ 80

Entendeu ou precisa desenhar? O desenvolvimento do país passa pela ampliação e popularização da malha marítima.

É quase inacreditável que um país com tantas vias navegáveis, não somente no litoral, mas também em água interiores, ainda tenha o modal hidroviário com seu potencial precariamente utilizado.

Para se ter uma ideia, em 2016, todos os portos brasileiros movimentaram juntos 8,93 milhões de contêineres, o equivalente ao porto de Hamburgo na Alemanha e menos do que o porto de Dalian (o oitavo maior porto da China). Num apanhado geral, todos os portos brasileiros exportaram 931 milhões de toneladas, contra 697 milhões de toneladas exportados pelo porto de Shangai, o maior do mundo.

No mesmo ano, quando o valor do frete atingiu níveis baixíssimos, era mais barato mandar um contêiner da China para o Brasil do que enviar, por exemplo, um motoboy de São Paulo a Campinas.

E aí convivemos com os problemas que já fazem parte do nosso cotidiano como estradas em péssimas condições, barreiras fiscais que fazem com que o preço de uma mercadoria pague o mesmo imposto diversas vezes para diferentes estados, encarecendo seu preço final, motoristas de caminhão forçados à jornadas extenuantes, comprometendo a segurança deles, de quem está ao redor e da própria carga.

Dependendo do tamanho do que está sendo transportado, há a exigência de batedores, encarecendo ainda mais o transporte, e por aí vai.

As estradas vão se destruindo cada vez mais e quando se fala na região norte e centro oeste do país, já sabemos que é um verdadeiro atoleiro, a ponto de cargas terem sido desviadas de portos da região amazônica por causa dos atrasos gerados por essas estradas.

Nosso Comércio exterior é uma vergonha. Se somarmos as exportações e importações, veremos que nosso comércio exterior brasileiro equivale a 11,5% do PIB, um número ridiculamente menor do que o de Cuba, que exporta e importa 14% do PIB.

Como escreveu recentemente David Sans no site Acorda Brasil, o embargo em Cuba é norte americano enquanto o nosso é do próprio Governo e caso o país volte a crescer em 2017, o Brasil poderá chegar a 2020 com a mesma renda que possuía em 2010.

Caso cresça 7,4% daqui até 2020, o PIB brasileiro chegará a este ano com o mesmo valor que possuía em 2014. Será a primeira vez na história que começaremos e terminaremos uma década com a mesma renda. É a famosa década perdida.

O modal terrestre ainda agride, e muito, o meio ambiente, de todas as formas possíveis e imagináveis. Emissões de carbono e enxofre? Be my guest!

Parece que é a velha máxima do quanto pior, melhor e que há toda uma estrutura ineficiente que precisa ser sustentada por políticas que não atendem às necessidades do mercado brasileiro, dificultando a vida do empresário e do trabalhador.

Só pelas dimensões continentais de nosso país e pela extensão de nossas vias navegáveis, já se justificaria um pesado investimento em portos e hidrovias, colocando regiões hoje consideradas remotas, como é o caso do Mato Grosso, no radar da navegação.

Nossa navegação de Longo Curso foi enterrada, aniquilada. Eu ainda tive a oportunidade de sentir um gostinho desse setor que é o que melhor representa a Marinha Mercante mundial, que é o trade internacional, quando pude levar minério de ferro da Vale de Vitória para Rotterdam / Holanda e permanecer por alguns bons meses navegando pelo exterior sob bandeira brasileiro. Mas isso é passado.

Aí temos que nos deparar com a notícia que demos recentemente aqui no Portal Marítimo, de que a Fibria, uma empresa brasileira líder mundial no setor de celulose, fechou contrato de afretamento de cinco navios, no valor de US$ 636 milhões, com a coreana Pan Ocean até 2035. Estamos falando de uma empresa que produz 5,3 milhões de toneladas anuais, e exporta celulose para mais de 40 países na Europa, América e Ásia. A celulose vai sair de sua fábrica em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, para o Terminal de Macuco, que fica no Porto de Santos. Dali a celulose segue para o exterior.

Um fato como esse mostra a total inabilidade de nosso Governo fornecer as condições necessárias para que uma empresa brasileira pudesse se estabelecer no Longo Curso e pegasse um contrato desta monta. Um contrato de 18 anos. Dá para fazer uma carreira num contrato desses.

Em outros tempos, certamente este transporte seria feito por alguma empresa brasileira, mas infelizmente nosso Longo Curso “descansa em paz”. Quer dizer. Em paz? Será?

Um empurrador da Norsul tira 100 caminhões das estradas

A mesma Fibria que em 2003 implementou um programa junto à Norsul Navegação que resultou em nada mais, nada menos que 94 mil viagens a menos no ano. Para se ter uma ideia do tamanho do benefício, cada barcaça comporta o equivalente à carga de aproximadamente 100 carretas tritrem (5.000 m3). Isso gerou menor consumo de combustíveis, menor emissão de gases de efeito estufa, como o CO2, e menor consumo de pneus. Além dos benefícios ambientais e econômicos, o transporte marítimo também contribui para a segurança na rodovia BR 101, já que elimina a necessidade de milhares de viagens de carreta no ano.

Se pensarmos em tudo o que exportamos e importamos, e em como poderíamos envolver navios arvorando a nossa bandeira nesse trade, vemos que a situação é caótica.

Enquanto isso, vamos amargurando o chamado custo Brasil, que mais atrapalha do que ajuda, sustentando uma estrutura ineficiente, arcaica e engessada.

E ainda temos que ver gente que mal sabe o que é Bombordo e Boreste tomando decisões em relação ao setor estando pessimamente assessorados por entidades das mais diversas esferas que não possuem gabarito técnico para tal. E as que até poderiam ter, não conseguem de fato representar os interesses do setor marítimo como um todo em nosso país, tamanha é a quantidade de reuniões e discussões improdutivas, onde praticamente se discute o “sexo do anjos”, se come e bebe muito bem nos coquetéis, mas não se produz, de fato, absolutamente nada. Uma publicação, um Plano de Ação que seja, qualquer outcome… NADA.

O Brasil precisa crescer, do contrário, continuaremos a ser o país do futuro, assim como nossos avós já escutavam.

Desde que o mundo é mundo, foi pelo mar que grandes potências surgiram ou pereceram. Aliás, o mundo como conhecemos hoje só assim o é por causa da navegação.

Vai demorar mais quanto tempo para as autoridades enxergarem isso e incentivarem a atividade?

Convido todos a fazer esta reflexão, não somente os milhares de trabalhadores que leem nossas páginas diariamente, mas principalmente o empresariado.

Acorda, Brasil!

Por Rodrigo Cintra

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente artigo Rodrigo!

    Me formei ano passado na EFOMM, e apesar de ser bastante positiva e acreditar que o nosso Brasil vai melhorar economicamente e socialmente, fico triste em constatar que todo o potencial do nosso país está longe de querer ser explorado não só pelo nosso governo, mas também pela minha geração.

    Acho que para ser “o país do futuro” o Brasil deveria estar mais preocupado com a construção do pensamento de quem fará o futuro acontecer. A maioria dos jovens no entanto estão longe de querer ser empresários de sucesso, vejo muitos inclusive sem foco, sonhos ou esperança.

    Eu mesma pretendo fundar meu negócio, mas não tão grande como uma empresa de modal marítimo que carregue nossas mercadorias por esse mundão afora! É como se isso fosse muito “poderoso” pra mim, mas ao ler o seu artigo eu fico pensando: “Por que não?…”

    Se serei capaz de transportar tantas mercadorias, por que não posso pensar em um dia ser dona de uma transportadora? Se uma empresa coreana consegue fazer o transporte de mercadorias, por que uma brasileira não conseguiria?

    São muitos os obstáculos, e como vc mesmo disse temos um forte embargo que é o nosso próprio Governo…

    Sei que estou começando, mas também sei que terei sucesso e serei grande para também auxilar muitas outras pessoas e pra mim não há melhor forma de fazer isso do que criando uma empresa e compartilhando essa missão.

    Obrigada por expandir meu pensamento e esperança.

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