Profissionais mal qualificados ou mal selecionados?

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O mercado agora finalmente mostra uma discreta melhora, tanto que o setor de serviços cresceu pelo quarto mês consecutivo, fechando pela primeira vez em alta, ainda que discreta (0,2%) e conforme vai crescendo, o setor vai gerando empregos.

Mesmo assim, de uma forma geral, não há tantas vagas disponíveis e o fluxo de profissionais entrando no mercado, ou pelo menos na disputa pelo mercado, com um papel na mão, vem aumentando.

Vários profissionais estão numa verdadeira guerra por uma vaga, composta por batalhas diárias e alguns já estão nesta guerra há meses, outros por anos.

A pergunta que não cala é justamente a de sempre, a que nunca foi nova: será que deve-se buscar apenas por um “profissional qualificado / certificado” ou de fato ir a fundo no mercado e buscar realmente um bom profissional? Porque são coisas diferentes, que fique claro.

É uma pergunta do tipo “chicken and egg“, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

E não deveria ser, pois se há uma boa seleção o mau profissional não entra, simples assim.

Em se tratando de selecionar um bom profissional, ou seja, qualificado, certificado, com uma certa experiência, um bom perfil pessoal e técnico, que se relacione bem com as pessoas e com um bom histórico em sua profissão, dentre outras características, o processo seletivo dá mais trabalho e a verdade é que alguns profissionais do RH não querem ter este trabalho.

Tal fato me assustou recentemente, após eu ter visto uma postagem de uma profissional de RH dizendo que “para ela pouco importa a formação do profissional, desde que ele tenha os certificados em mãos”, mostrando total desconexão com a contratação dos melhores, estando apenas preocupada em preencher um buraco, baseando-se em critérios no mínimo questionáveis para a contratação da força de trabalho de sua empresa ou de seu cliente.

Vamos ver aonde isso vai parar…

Outro critério interessante é o de “aonde o profissional reside”, geralmente é adotado por empresas que não tem compromisso com a qualidade do que entregam aos seus clientes e à Sociedade, e aí muitos profissionais locais de certos pólos da indústria naval e offshore são beneficiados, ainda que tenham sido mal formados.

Outro dia me perguntaram porque tem tanta gente de Volta Redonda e Resende empregado na indústria naval e offshore enquanto cidadãos residentes em cidades como Macaé e Campos seguem desempregados. Precisa explicar? Com uma CSN e um monte de montadoras, um parque industrial gigante, escolas de alto nível, fora os SENAIs que funcionam de verdade, formando os melhores profissionais que já vi na área técnica, eu vou buscar aonde?

Vou dar um exemplo clássico do caso de profissionais ainda inexperientes para ilustrar:

Currículo do profissional que é Técnico em alguma coisa pela Escola Técnica da “Tia Loló” e que tem curso de motorista, embalador, pedreiro e padeiro. Até “técnico a distância” eu já vi. Nada contra um profissional que se virou procurando aprender várias coisas, mas a falta de foco leva o profissional sabe aonde: a lugar nenhum.

Aí recebemos um outro currículo de um técnico formado pelo CEFET.

Faz toda a diferença SIM, quer você, leitor, goste ou não…

Eu me lembro nos tempos de ouro, que vão voltar, quando as empresas de destaque iam buscar seus técnicos diretamente na CEFET, IFF, FAETECs e SENAI, essa era a realidade.

Há outras instituições boas, mas estas se destacam das demais. E é opção do empregador querer os que ele julga serem melhor formados, até porque muitos desses empregadores contribuem diretamente para a formação dos mesmos, principalmente através do sistema “S”, que, no nosso caso (indústria) é representado por toda a estrutura disponibilizada nas instalações do SESI / SENAI.

Agora, é óbvio que tem o apadrinhamento, principalmente na Perfuração e nas atividades que não são exercidas por Marítimos, onde oficialmente, para se entrar na função mais básica, que é a de Homem de Área, só te é exigido os cursos de Salvatagem e escape de aeronave.

Eu já recebi um meio oficial de caldeiraria como Motorman e o colega não sabia nem aonde estava. Culpa da empresa, que na hora da seleção (eu perguntei depois à Assistente de RH porquê de ter me mandado aquele profissional) coloca profissionais que pelo visto possuem uma cartola de onde puxam todo tipo de coisa.

A menina me disse que ele foi contratado porque o navio tinha caldeira e se eu era um Oficial de Máquinas e ele um meio oficial de caldeiraria, então ele podia ser meu auxiliar.

Seria cômico se não fosse trágico, dadas as consequências geradas a bordo.

Isso ocorreu faz tempo, mas fui recentemente surpreendido com uma situação semelhante, o que prova que essas pérolas ainda acontecem com certa freqüência.

O pior de tudo é que, depois que a coisa está feita, a bordo a rotina fica complicada, mas a gente dá o jeito. Pior mesmo é o colega que está ali querendo trabalhar, não tem a mínima condição de estar ali e não teve culpa nenhuma de ter caído de pára-quedas.

É o tipo de situação onde você recebe um profissional para te auxiliar numa equipe de Manutenção, e aí você perde a ele uma chave de boca “três quartos”. O profissional, querendo te atender e dar o seu melhor, ainda que não seja qualificado, volta com um balde com três quartos, sala, cozinha, banheiro, lavabo, dependências, etc…

E a culpa não é dele. Ele se candidatou e alguém “especialista no assunto” contratou.

Agora ele já está a bordo e precisamos fazer o melhor com o que temos em mãos, entender suas limitações e somar ao máximo para que os GAPs gerados de um péssimo trabalho feito por alguém da área de recrutamento e seleção sejam diminuídos.

Já vi também advogado que trabalhava de jardineiro na casa de um alto executivo de uma grande empresa em Macaé. O colega tornou-se motorista do executivo e depois conseguiu sua oportunidade a bordo como Rádio Operador…

E deu certo, mostrando que o interesse do profissional vai também pesar demais nessas questões.

Entre profissionais mal qualificados e mal selecionados, eu digo que o nível poderia ser melhor se os processos seletivos fossem mais criteriosos e se houvesse um pouco mais de envolvimento dos setores para os quais esses profissionais vão trabalhar dentro das empresas, até mesmo para os que forem realmente bons, apesar de não terem sido formados nos melhores locais, pudessem mostrar o que sabem.

A entrevista técnica, não “de orelhada”, mas seguindo método, apresentação de situações práticas e avaliação também da teoria, é primordial.

As empresas estão perdendo a oportunidade de montar um corpo de funcionários de altíssimo nível por estarem presas a velhos paradigmas do mercado.

Conversar com a pessoa do RH e desenhar uns palitinhos num pedaço de papel vai dizer muito sobre você, pode até dizer o essencial, mas talvez não diga o necessário.

Por outro lado, o interesse de quem entra em buscar mais conhecimento é primordial, ainda mais quando o profissional tem a oportunidade de conviver num ambiente de altíssimo nível técnico. Aproveitar isso ou não é com ele.

É isso, pessoal.

Obrigado por terem lido este artigo e, como já dito, ainda que discretamente, as coisas vão clareando pouco a pouco.

O Governo atual vem tomando algumas medidas bastante impopulares e polêmicas, umas necessárias, outras questionáveis, mas o fato é que estamos melhor hoje do que há alguns meses.

Não que esteja tudo perfeito, mas inegavelmente o Governo tem tomado medidas que estão fazendo o país voltar a crescer. A coisa está aos poucos melhorando para quem trabalha, para quem produz.

Agora, se você não gosta de trabalhar…

Se prepare, pois o mercado ficará PÉSSIMO.

Por Rodrigo Cintra

1 COMENTÁRIO

  1. Absolutamente perfeito. É uma pena que ter o certificado certo valha mais a pena do que o profissional em si. A longo prazo as empresas perdem, pois pagar um certificado para o cara ‘certo’ custa menos do problemas que um cara que só tem um certificado pode trazer para a empresa.

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