Rystad Energy – A mudança do fluxo de gás natural na América do Sul

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O mercado de gás na América do Sul é um pouco diferente dos outros mercados em todo o mundo. Até certo ponto, é um mercado desenvolvido com importação e exportação de todo o país, mas é segmentado, relativamente pequeno, dominado por empresas nacionais e sem regulamentos muito transparentes em cada país.

A região é atualmente um importador de gás sob a forma de LNG, o que é relativamente caro. Por outro lado, a região possui recursos significativos não desenvolvidos que deveriam tê-la levado à autossuficiência.

Neste artigo, analisamos a situação atual na região e o que é provável que aconteça durante o próximo período de 5 anos. Também estamos apontando algumas tendências de longo prazo que acreditamos que podem ser prolongadas. De forma simplificada, o que acreditamos é que o mercado de gás na América do Sul vai mudar significativamente neste período. A região no total parece continuar a depender da importação de gás natural, no entanto, os diferentes países enfrentam desafios e oportunidades bastante diferentes.

A produção total de gás na América do Sul apresenta-se de forma notavelmente estável durante o período de 2010 a 2022, e espera-se que seja bastante estável após 2022 também. No entanto, como mostrado na figura 1, a composição está mudando consideravelmente.

A produção de Trinidad e Tobago está diminuindo, enquanto a produção do Brasil está aumentando igualmente. O atual e único exportador de gás canalizado na região, a Bolívia, está lutando para manter o nível de produção dentro dos planos atuais.

Grande parte do gás de Trinidad e Tobago é vendido dentro da própria região. No entanto, sendo a maioria LNG, isso tem pouco efeito sobre a situação das importações para os países importadores da América do Sul.

A Rystad Energy não se preocupa com a oferta limitada de GNL em um mercado global. Isso poderia indicar que os importadores deveriam procurar em outros lugares diferentes de Trinidad e Tobago para comprar seu gás, o que pode indicar um custo maior para esses países.

Outra observação importante é que a Argentina não está aumentando, mas sim diminuindo ligeiramente sua produção de gás.

Como já discutimos Trinidad e Tobago, vamos nos concentrar mais na parte sul da região. Aqui é onde temos tanto gás canalizado como GNL no mercado e onde o mercado em cada país está interconectado.

Se olharmos mais de perto a situação na Bolívia, veremos que o país parece estar em uma situação semelhante à de Trinidad e Tobago há alguns anos atrás. A previsão é de que produção diminua e a indústria local está querendo consumir mais gás no mercado interno, mas poucas novas reservas de gás devem ser descobertas ou desenvolvidas.

Na figura 2 mostramos a produção de gás da Bolívia dividida por campos em produção, em desenvolvimento e descobertas.

Infelizmente não há novos campos sendo desenvolvidos na Bolívia e isso significa que a produção deverá começar a diminuir quando não for mais limitada pela capacidade de separação, dependendo da pressão do poço. A menos que novos recursos sejam adicionados rapidamente para desenvolver as descobertas já existentes ou para encontrar e desenvolver mais gás natural, a produção boliviana irá diminuir entre 6 e7 %.

A Bolívia atualmente não tem capacidade para aumentar suas exportações de gás para países vizinhos. Porém, diante do atual cenário, é mais provável que reduza a exportação de gás canalizado para Argentina, Brasil e Chile.

Muitos tem voltado seus olhos para a Argentina e Vaca Muerta. Esta grande região, que se destaca pela concentração de xisto e gás, parece ser capaz de abastecer a Argentina sozinha e talvez substituir até mesmo a Bolívia como um exportador de gás canalizado na região.

Vaca Muerta tem um enorme potencial, no entanto, há duas questões importantes a lembrar. Uma delas é que a produção de gás convencional na Argentina está em declínio, e esta não é uma nova tendência, que tende a continuar.

Veja na figura 3 como a produção prevista de gás natural na Argentina está com tendência de queda, mesmo com aumento significativo na produção de gás não convencional.

A segunda questão é que o desenvolvimento da produção de gás em Vaca Muerta leva tempo. A falta de equipamento e infraestrutura (isto é, estradas, trilhos e tubulações especialmente para água) significa que os recursos em Vaca Muerta levarão tempo para serem desenvolvidos.

Esta falta de estrutura não vai cobrir a lacuna local na Argentina e na região dentro de qualquer prazo razoável. Sabemos que a produção de gás no Chile, por sua vez, é bastante limitada, e por isso temos que prestar atenção no Brasil e nos volumes significativos esperados para serem produzidos associados com os volumes de petróleo dos campos do pré-sal. Na figura 4 vemos a produção de gás no Brasil dividida pelo gás dos campos do pré-sal e o restante.

Espera-se que o Brasil quase dobre sua produção de gás nos próximos 5 anos, e acreditamos que esta tendência tem uma chance de ser prolongada por mais alguns anos. O gás do pré-sal é gás associado, o que significa que ele vem como uma porção fixa do óleo que está sendo produzido a partir dos mesmos campos. O gás pode ser re-injetado em alguns reservatórios por algum tempo e também será usado como combustível para os diversos FPSOs produzindo no pré-sal. No entanto, o gás do pré-sal representa uma enorme oportunidade econômica para o Brasil e deve ser coletado e comercializado no mercado.

Não abordamos a situação da procura até agora neste artigo, por isso vamos concluir com algumas reflexões.

Muitas das grandes economias da América do Sul têm potencial de crescimento significativo após anos de políticas mal sucedidas. Isso vale para, pelo menos, os três países-chave que avaliamos com mais profundidade: Argentina, Bolívia e Brasil.

A Bolívia quer cortar a exportação para apoiar o aumento do consumo interno. Programas públicos foram iniciados em 2010 para aumentar o uso de gás natural no transporte. A demanda futura de gás na Bolívia também dependerá, obviamente, do gás disponível e do preço desse gás.

Há questões semelhantes na Argentina. O país experimenta black outs e períodos sem abastecimento de gás em Buenos Aires. Fontes na Argentina explicam que, em Buenos Aires, houve 4 meses sem fornecimento de gás em 2015. Esta é uma clara indicação da alta demanda de gás subjacente no país. O problema na Argentina é que os preços do gás, da energia e da gasolina foram fortemente regulamentados e subsidiados, criando assim um mercado e um padrão de consumo insustentáveis.

Sem incluir mais detalhes sobre a situação da demanda na Argentina, parece ainda óbvio que a Argentina não se tornará um exportador significativo de gás na região por muitos anos. Primeiro Vaca Muerta tem de recuperar o atraso da produção de gás convencional e, em seguida, responder à crescente demanda interna de gás na Argentina antes de eventualmente exportar gás para qualquer um dos seus vizinhos. É claro que nesta análise não estamos levando em conta o comércio de fronteira entre o Chile e a Argentina, que é simplesmente impulsionado pela proximidade com os clientes.

E o Brasil? Onde entra nesta história?

A demanda de gás no Brasil aumentou ano a ano até que a crise econômica atingiu a economia em 2015. Parte do aumento significativo na última década foi associado ao fato de que as usinas hidrelétricas reduziram a produção e foram substituídas por usinas a gás.

A Figura 5 ilustra este desenvolvimento muito claramente.

Recentemente a energia hidráulica tem sido capaz de chamar atenção no país, mas ela ainda está abaixo de 50% de sua capacidade total. A demanda de gás no Brasil é de aproximadamente 50% para uso industrial, 40% para geraçãode energia e o restante para uso residencial e outros.

O setor residencial e industrial são estáveis, mas, naturalmente, influenciados pelo desenvolvimento econômico. No entanto, o consumo de energia depende da precipitação, que é mais difícil de prever, o que deixa as empresas produtoras de E & P explorando gás com uma incerteza adicional. Com grandes flutuações da demanda de gás por energia, os produtores têm de esperar grandes flutuações nos preços e talvez mesmo situações em que não haja saída do gás.

Ainda não existe, até a presente data, uma capacidade significativa de armazenamento de gás instalada, o que significa que produtores de gás, especialmente pequenos e independentes, podem enfrentar o risco de não poderem produzir e vender o seu gás.

Em uma situação em que a Petrobras tinha monopólio e tinha todas as informações, toda a flexibilidade nessa situação poderia ser acumulada pela Petrobras – mas na perda do consumidor que teria que pagar uma conta de eletricidade mais alta.

No futuro, a organização do mercado de gás e energia no Brasil deve ser modificada.

Uma certa parcela da produção de energia deve ser uma carga base produzida pelo gás natural. A energia nas barragens hidrelétricas pode ser barata e armazenada e utilizada para picos de carga e utilizações programadas.

Para que isto aconteça, há que conseguir uma mudança significativa na forma como o setor de energia e os leilões são executados, sendo esta uma questão primordial a ser resolvida pelo Brasil para que o país possa desenvolver um mercado de energia mais previsível e econômico.

A justificativa para tal mudança de política é ainda mais reforçada pelo fato de que o aumento da produção de gás no Brasil deverá vir do gás associado nos campos do pré-sal. Isso significa que o gás tem de ser produzido, e,após isso, queimado ou vendido no mercado.

Se não houver saída para este gás, a queima não é permitida e a produção de petróleo será limitada, o que naturalmente seria uma consequência muito cara para as empresas e a sociedade brasileira em geral. Uma última alternativa para o gás do pré-sal seria instalar uma indústria de consumo de gás mais estável, onde o gás do pré-sal iria ser utilizado em maior escala no Brasil. Isso poderia reduzir o risco para as companhias que produzem o petróleo no pré-sal, mas tornaria o Brasil ainda mais dependente da importação de GNL para cobrir a potencial lacuna que seria criada na relação oferta x demanda de gás para energia no Brasil.

Um futuro que depende de bons acordos

Para resumir estas observações, podemos dizer que o mercado de gás na região sul da América do Sul vai passar por alguns anos muito interessantes. Acreditamos que mudanças significativas ocorrerão e posições interessantes podem ser tomadas na situação de hoje. Um plano estratégico a longo prazo e a cooperação entre os países relevantes ajudariam a trazer a melhor solução para toda a região, no entanto, historicamente, tem sido difícil conseguir acordos de longo prazo.

Gradualmente, esperamos que o Brasil seja o país com a capacidade de se tornar autossuficiente em gás. Desta forma o fluxo de gás deve fluir mais da Bolívia para o Chile e Argentina e menos para o Brasil. Se acrescentarmos também as diferenças na precipitação sazonal e no consumo de gás em geral, acreditamos que a região se beneficiaria de acordos mais flexíveis e baseados no mercado para o comércio de gás entre os países.

Este assunto complexo e interessante terá que ser abordado em outro artigo.

Por Kjetil Solbraekke

Tradução oficial: Rodrigo Cintra

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