Falácias sobre a crise da Indústria Naval

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Boa noite, queridos leitores do Portal Marítimo! Ao deparar-me com a reportagem do jornal Folha de São Paulo sobre a Indústria Naval, um misto de indignação, frustração e tristeza tomou conta de mim.

Reportagem da Folha: “Crise de estaleiros paralisa obras de US$ 6 bi no Rio de Janeiro”

Lembrei da famosa citação:

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”

Essa frase é de Joseph Goebbels, que foi ministro da Propaganda de Adolf Hitler na Alemanha Nazista.

O diagnóstico do autor da matéria é bem difundido aqui na imprensa brasileira: a crise da indústria naval foi gerada pela corrupção na Petrobras. É isso que repetem por todos os lados, infelizmente.

No “mundo” que esses jornalistas vivem, parece que o valor do barril de petróleo deve estar ainda na casa dos US$ 115; assim como a diária das sondas, que ainda deve girar em torno de US$ 450 mil; e a exploração do petróleo continua como prioridade das petroleiras; e os estaleiros pelo mundo estão indo de vento em popa!

É a parte da mídia míope, que não consegue ver o que está acontecendo no resto do mundo, contribuindo para desinformar seus leitores!

Segundo tal matéria, nossa indústria naval brasileira está falida, mesmo que ainda tenha 38 mil empregos diretos, e que a culpa da suposta falência foi do esquema de corrupção na Petrobras!

No título da matéria, a inversão de causa e consequência. Não foi a crise dos estaleiros que parou as obras! E, sim, a mudança de planos da Transpetro, como mencionou o executivo do Sinaval no final da matéria. Ignora o fato da Petrobras ter colocado em xeque a própria existência da Transpetro, e de continuar se endividando, para ser armador, proprietário de navios, ao invés de se utilizar dos afretamentos, como é feito na área de apoio marítimo. Omite o alto grau de endividamento da Petrobras como um todo, e simplesmente, esquece da razão principal de todo esse ciclo que a construção naval está sofrendo: a queda do preço do barril de petróleo e a influência que teve nos planos de negócios da Petrobras,

No momento em que a Sete Brasil foi concebida, a relação valor da sonda e diária oferecida à Petrobras fazia sentido. O terrível esquema de corrupção encontrado nesse projeto não inviabilizaria financeiramente seu plano de construção, caso a atividade de exploração e perfuração tivesse se mantido mundo afora. Se continuasse sendo um bom negócio para a Petrobras, os contratos com a Sete e seus operadores teriam sido assinados, e os financiamento teriam ido adiante. Mas não foi isso o que ocorreu. A oferta de sondas passou a ser muito maior que a demanda. As diárias caíram. E, simplesmente, o valor da diária que a Petrobras garantira, ao ser sócia da Sete Brasil, era muito maior que o praticado quando o esquema veio à público.

Será que foi a crise mesmo?

Nossa indústria sentiu o baque pois era, extremamente, dependente da indústria de Óleo & Gás, com exceção aos estaleiros da região norte. Todos os projetos tinham o mesmo cliente final.

Nossa indústria ainda sobrevive! E para nos mantermos vivos por mais tempo, precisamos nos reinventar.

Muitos nem consideram o mercado de apoio offshore como opção. A mesmice na retórica pessimista toma conta dos influenciadores. Será que um pessimista será capaz de desenvolver negócios?

Há de se buscar por oportunidades!

Copiar modelos inteligentes que estão obtendo sucesso em outras partes do mundo. Olhar também outros mercados.

Há de se entender a operação de seus clientes e do usuário final, desenvolvendo novas embarcações, mais eficientes, com soluções técnicas superiores às existentes nos dias de hoje, com menor custo de operação. A inovação não para.

Mesmo com a apatia do governo. Mesmo com a calmaria, pós “perfect storm”.

Há luz no fim do túnel. Chegou a hora de investir e se posicionar para operações de 2019 em diante. Nossa moeda se desvalorizou frente ao dólar. Os custos foram reduzidos. Os preços das embarcações despencaram. Quer melhor cenário?

E, para finalizar:

O ressurgimento da indústria naval brasileira, no final dos anos 90, deu-se num mercado nunca antes explorado por aqui. Surgia, então, o primeiro Platform Supply Vessel (PSV) de bandeira brasileira. Alguns visionários brasileiros, um nicho, uma solução técnica e um mecanismo interessante de financiamento e proteção de bandeira. Voltava a construção naval.

Outros visionários aparecerão. Tenho certeza!

Vamos trabalhar.

Por Gustavo Pedreira

Twitter: @gustavocped

6 COMMENTS

  1. A capacidade instalada e investimentos em formação profissional relacionada a construção naval desenvolvidos para apoiar a forte demanda no período anterior a crise atual precisa ser aproveitada no sentido de suportar a expectativa e retomada real do crescimento econômico de imediato.

  2. Concordo em parte e descordo;descordo quando se diz que a uma falacia que existe crise no setor naval brasileira primeiro que o setor e tão vunéravel quanto nossa economia,a crise e sim existencial parte se deve a corrupção das instituições politica e governamental dos politicos do nosso país dos últimos anos…pois as informações tem fundamento a crise não são pontuais…
    concordo quado se diz que devemos ir em busca de novos caminhos para o setor não temos como reinventa a “roda”mais devemos aprimorar com restruturação de novas politicas de gestão nos contratos de construção,politicas trabalhista e tecnologias tendencial do setor,devemos tornarmos mais responsável pela saida da crise como um todo.

    • Caro Ivo, a falácia é dizer que a crise da indústria naval é por causa da corrupção na Petrobras. Se fosse isso, a indústria naval de muitos outros países não estaria em crise, com uma queda enorme nas novas encomendas. Essa é minha principal crítica: olhar apenas para o que acontece no Brasil, e esquecer o resto do mundo. Abraço, Gustavo Pedreira

  3. Oh Gustavo! Você crê mesmo que há como competir com os asiáticos? O que para você é se “reinventar”? Tirar coelho da cartola?
    Com nossa burocracia e baixa produtividade você quer que o restante da sociedade pague?
    Acho que dá não! Enquanto existir essa visão corporativista, o choque de realidade não deixará que esse negócio cresça!

  4. Caro Carlos Souza, a crise também afetou os maiores estaleiros da Ásia, com diversos cancelamentos de contratos, e rescisões por contra de atrasos na entrega. Estaleiros que acharam que seria fácil migrar de construção de petroleiro para embarcações offshore, e sonharam que construiriam OSV’s com os índices CGT que praticavam nesses outros barcos. O mercado brasileiro possui sua própria demanda. Além de um mecanismo fantástico de financiamento (FMM) em 20 anos. Os barcos possuem proteção de bandeira. Os asiáticos estão na nossa frente em matéria de inovação. Mas os norte-europeus e países da escandinávia estão anos luz na frente deles em questão de designs e protótipos, e estão bastante ligados em nosso mercado. E para melhorar nossa produtividade, precisamos de escala e tempo de amadurecimento. A construção naval é estratégica em todos os países, pois movimenta muito a economia (empregos diretos, indiretos, impostos, matéria-prima, serviços, etc), por isso os governos tendem a apoiá-la.

  5. Nobre colega Gustavo Pedreira, é uma honra fazer esse contato.

    Sou um novato na indústria naval, iniciei em 2004 e pausei em janeiro de 2015 junto com aproximadamente 3 mil que foram demito Enseada Indústria Naval. Em 2008 eu sentia um grande desconforto com relação à gestão do primeiro estaleiro que eu atuei, isso continuou no segundo e no terceiro. Desse período de 2008 até hoje, eu venho estudando e fazendo algumas formações em Educação Corporativa, Coaching, Empreendedorismo, Psicologia, ADM. Eu levei um tempo para compreender algo que no passado me incomodava muito, algo interno, a “gestão por competências”, e vejo que isso ainda pode trazer muitas perdas mesmo quando a área naval retomar as forças. Gostaria de conversar com você a respeito desse assunto para construirmos possibilidades, a final, CRISE sem S é igual a CRIE.

    Um abraço!

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