A controversa ISO 19030, que propõe o monitoramento de desempenho do casco e do hélice

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Em 2016, a ISO, International Standard Organization, escreveu uma nova norma, a ISO 19030, com o título de “Tecnologia Naval e Marítima – Medição de mudanças no desempenho do casco e do hélice”.

Quando falamos de casco e hélice e relacionamos estes elementos com a performance do navio, devemos ter em mente que as condições desses elementos estão diretamente ligadas à potência entregue pelos motores da embarcação, quer sejam propelidas por linha de eixo ou por propulsão diesel elétrica. Deixo claro que esta ISO versa apenas sobre navios de propulsão por linha de eixo e com passo fixo, porém, se estamos buscando a excelência, por que não fazermos, como boa prática, uma gestão similar aos demais tipos de propulsão?

Inclusive é mencionado na ISO que nas revisões futuras, os outros tipos de propulsão serão incluídos. O problema é que ISOs são revistas a cada 5 anos apenas. Será que podemos esperar, diante de uma frota mundial onde a minoria dos navios se enquadram na propulsão por eixo com hélice de passo fixo?

As interações entre as partes do navio devem sempre ser entendidas como um todo, uma vez que há relações hidrostáticas e hidrodinâmicas, com o meio marinho, e as diversas relações entre eles em si, gerando vibrações, desgastes, atritos, etc.

É vital termos uma ferramenta que permita mensurar estas interações entendendo como as condições do casco e do propulsor podem impactar na manutenção dos mesmos, e vice-versa, através de indicadores que possam, inclusive, definir rotinas de manutenção, modificações de projeto e da própria gestão da eficiência energética da embarcação.

Segundo a ISO, a norma ISO 19030 pretende “prescrever métodos práticos para mensurar as mudanças de performance no casco e no propulsor de um navio específico e definir uma gama de indicadores de performance para atividades de manutenção, reparo e retrofit. Os métodos não pretendem comparar a performance de navios de diferentes tipos e tamanhos (incluindo navios irmãos) nem ser usados em sua estrutura regulatória “.

Com o tempo a norma deve enquadrar os navios com propulsão azimutal

A ISO 19030 Possui três subdivisões:

— ISO 19030-1 delineia os princípios gerais sobre como mensurar as mudanças na performance de cascos e propulsores e definir uma gama de indicadores de performance para atividades de manutenção, reparo e retrofit.
— ISO 19030-2 define o método padrão para a medição das mudanças na performance de cascos e propulsores e para o calcular os indicadores de performance. Ele também fornece orientação sobre a precisão esperada de cada indicador de desempenho.
— ISO 19030-3 delineia alternativas ao método padrão. Alguns podem resultar uma precisão menor, mas aumentam a aplicabilidade do padrão. Outros podem resultar numa precisão igual ou maior, mas incluem elementos que ainda não são amplamente utilizados na navegação comercial.

Os princípios e métodos estabelecidos pela ISO 19030 são baseados em equipamentos, informações, procedimentos e metodologias de medição que estão geralmente disponíveis e são reconhecidas internacionalmente pela indústria.

Como isso afeta o Gestor de Embarcações?

Como a prática de Operações Marítimas os ensina, sob um ponto de vista comercial é extremamente importante manter os custos de um navio em níveis mínimos, mesmo que estejamos em tempos bons, fora da crise.

Infelizmente pela quase que ausência de profissionais que vieram de bordo, do meio marítimo, ou seja, estiveram no “chão de fábrica” da Marinha Mercante, diretamente no navio, na unidade de negócios, na alta administração das empresas, uma gestão eficiente de recursos ainda entendida com “gastar menos”. Cálculos aritméticos são feitos para se avaliar orçamentos com uma estrutura de contas extremamente complexa e cheia de variáveis. Orçamentos são definidos sem que se siga, pelo menos, uma série histórica de dados que muitas vezes são armazenados de forma incorreta ou até mesmo não representam fidedignamente a realidade.

Mesmo assim, podemos meio que estabelecer um tipo de padrão na gestão de uma embarcação, levando-se em conta os principais custos, e gostaríamos de destacar neste artigo o custo do combustível, que interage diretamente com a performance o casco e do propulsor do navio. Basicamente velocidade, potência entregue e consumo de combustível.

De qualquer ponto de vista comercial, é importante manter os custos de operação de um navio no mínimo. Um dos principais custos é o consumo de combustível que é afetado por vários fatores, como tamanho do navio, perfil operacional, habilidades de navegação da tripulação, clima e condições do mar, etc.

Do ponto de vista muito básico, o indicador de desempenho para o navio é o consumo de combustível por carga movida por milha náutica. Esta é uma definição muito razoável que é basicamente a definição usada pela UE para a nova legislação relacionada às emissões de CO2 e o EEOI (Indicador Operacional de Eficiência Energética) definido pela IMO.

O problema é que, no caso do casco e hélice, a avaliação é mais complexa, exige indicadores mais sofisticados, mas justamente pela complexidade do problema, ainda há muita controvérsia entre os especialistas.

A abordagem proposta pela ISO requer equipamentos diversos, extrema riqueza de dados coletados em pontos a serem monitorados a bordo dos navios, rigorosos procedimentos para manter a precisão do monitoramento, que deve ser feito de forma contínua por muito tempo.

O método negligencia alguns dos fatores que sabemos o quanto afetam o desempenho dos navios em operação, tais como ondas, movimentos de leme, efeitos dinâmicos (acelerações, desacelerações, caturros, guinadas etc).

A norma em questão precisará ser posta à prova no mundo real, e, devido à complexidade dos equipamentos exigidos, dificuldade de comseguí-los, elevadíssimo custo de implementação, dados de projeto raramente disponíveis, e procedimentos que provocam uma profunda mudança no Plano de Manutenção, demandando muito tempo para implementação, se formos levar em conta toda uma frota.

Quem escreveu a norma, e não sabemos se de forma involuntária ou deliberada, negligenciou muitos fatores importantes na condução do negócio que envolve as Operações Marítimas. A complexidade do alvo da ISO 19030, em oposição à simplificação da mesma, pode acabar fazendo com que a norma perca o rumo traçado ao seu objetivo.

É querer fazer, como já mencionado acima, um cálculo aritmético onde cabe um cálculo bem mais complexo.

E você, armador, cuidado! Não assuma para si esta responsabilidade cegamente, incorporando a ISO 19030 em seu sistema de gerenciamento, pois o preço pode ser altíssimo.

É importante? Sim, sem dúvida alguma.

É essencial? Nesse momento, definitivamente NÃO.

A dica que deixamos é o trivial: mantenha seu casco limpo e tratado, pintando na marca durante as docagens de 5 anos, seu sistema anti incrustante funcionando, anodos em seu devido lugar e sistema de proteção por corrente impressa, caso tenha, em pleno funcionamento. Hélices limpos, com manutenção na marca durante as puxadas de eixo durante os serviços de 5 anos, etc…

Quer conversar mais sobre isso? É só procurar a gente.

Mas não tem ninguém falando sobre isso no Brasil ainda? Até tem, mas de uma forma mais comercial do que técnica, pois o pessoal “dono” do conhecimento técnico marítimo está mais preocupado com outras coisas, infelizmente.

Por Rodrigo Cintra

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