Mulheres marítimas e a “tendência ao desembarque” – vamos conversar sobre isso?

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Pois é, amigos. As mulheres vem invadindo, no melhor sentido da palavra, o mercado de trabalho dos oficiais mercantes. Isso é muito bom, na minha opinião. Nunca gostei de tabus ou paradigmas. O fato é que um certo aspecto desta enxurrada cada vez maior de mulheres de macacão tem levantado alguns questionamentos dentro da Marinha Mercante.

A cada ano,  cerca de 400 novos oficiais de náutica e de máquinas são injetados no mercado. A fatia das mulheres tem aumentado consideravelmente desde que elas passaram a ser admitidas como alunas da EFOMM (Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante), no ano de 1998.  Neste ano, a porcentagem das mulheres inscritas no concurso passou de 50%. Para nós, entusiastas da modernidade e do redesenho dos moldes para a evolução do nosso ofício, isso tem tudo para ser bom, não é?

Elas seguem conquistando seu espaço

O que tem feito as cabeças das autoridades marítimas coçarem de preocupação é o paradigma não declarado oficialmente, mas fortemente alimentado nos bastidores, de que as mulheres são mais suscetíveis à desistência da carreira do mar. Não tenho provas para embasar este argumento que, a propósito, nem é meu. Porém, também não tenho como provar o contrário.

Sendo isso verdade, teremos aí um sério problema. Pois além do fato de que mais da metade dos próximos oficiais serem, na verdade, próximas, as vagas nas Escolas de Formação de Oficiais da Marinha Mercante aumentaram consideravelmente nos últimos anos. Quanto mais houver mulheres, maior seria, tomando-se isso como base, a quantidade de desistentes. Isso provocaria um rombo num momento em que havia tantos buracos no mercado offshore precisando ser preenchidos, mas agora, não mais.

Já há muitas mulheres com anos e anos de carreira no mar

O mercado apertou, as vagas diminuíram, e elas continuam aí, participando dos processos seleivos, buscando seu espaço e tentando mostrar seu trabalho.

Eu, particularmente, acredito que os tempos sejam outros. As mulheres de hoje vivem o mundo de hoje, muito mais igualitário, apesar do machismo ainda existir em muitas situações. Além disso, a situação dos empregos no Brasil está cada vez pior. Nunca houve tanta gente querendo embarcar. Mais ainda, a profissão embarcada realmente é difícil, tanto para homens quanto para mulheres e, se houver desistência, será dos dois lados. 

Comandante indiana Radhika Menon – Primeira mulher a receber a medalha por bravura concedida pela IMO

Afinal de contas, o mais importante na hora de estimar quaisquer prognósticos a respeito de qualquer assunto, é ouvir as partes envolvidas. As mulheres marítimas podem, melhor do que ninguém, explicar o que realmente está acontecendo e se esta “tendência ao desembarque” realmente se justifica.

Convoco-as por aqui para isso!

No mais, é sempre bom vê-las conquistando mais e mais espaço!

Com um abraço especial às mulheres!

Por Marcus Lotfi

19 COMENTÁRIOS

  1. Vale ressaltar que as mulheres foram admitidas como alunas nas EFOMM em 1996 (CIABA), e muito mais do que 150 oficiais entram no mercado por ano, considerando os cursos de acesso e formacão nas duas escolas.

  2. E quanto à guarnição?
    A Capitania dos Portos tem formado mulheres no curso CFAQ II / III nas categorias: Moço de Convés e Moço de Máquina.
    O mercado ainda está muito fechado para o público feminino.

  3. Estou formado ha 7 anos e posso afirmar que muitas mulheres que conheci nessa jornada ja deixaram de embarcar. Outras seguem na luta, mas vejo que e questao de tempo pra sairem, pois o fator casamento x filhos pra elas, e muito complicado. Respeito a decisao delas. Ou seja, tem fundamento a preocupacao das autoridades. Precisamos de mais profissionais dispostos a ficar mais tempo no mar, senao os gringos irao dominar tudo!!

  4. A vida no mar é difícil para o homem, por ficar um longo tempo embarcado, perde-se um pouco da vida social: Aniversários, finais de ano e lutos. Para as damas é muito mais complicado, devido a afinidade familiar, filhos e determinados serviços a bordo. Espero que seja equalizado a evazão. Vemos muitas Oficiais, mas quarnição muito pouco, ainda.

  5. Sonho em incressar na marinha desde pequena, sera um sonho realizado se eu conseguir vou deixer Deus tomar direção de tudo….Mais admiro muito as mulheres que já fazem parte e sinal que o poder feminino esta sendo priorizado….Amo demais caso eu não consiga vou amar do mesmo jeito a( Carreira Militar)…

  6. a marinha mercante é feito para vapoceiro e tem que esta no sanque ;embarquei com varias mulheres oficias que so queria mandar e ficar na sala de controler fazendo lanche.numa guarnição reduzida.assim é mole embarcar marinha mercante é muito trabalho e suor e solidão.

  7. Lotfi,acho que há migração e nao desistencia. Se você buscar suas veteranas ira ver grande maioria trabalhando na area,como QHSE manager, HR manager,ou algo o tipo. Tem muitas vagas na area,é só estudar e ter o famoso QI! rs..
    Vejo muitas meninas que tiveram filhos e embarcaram,continuaram exercendo sua função com a mesma raça. Quem nunca gostou nao tem como ficar na area!
    Eu no momento não trabalho embarcada,mas na area e falo se depender de mim sempre estarei trabalhando para “o mar”.

  8. Concordo discordando do post.
    Se você pesquisar nas turmas da décadas de 70/80/90, onde só se admitia homens pode reparar que as EFOMM’s já formaram desde ator até auditor. Então a “tendência de desembarque” é geral…
    Da turma de 81/Ciaga/Máq só 2 oficiais continuaram a carreira.
    Conheço mulheres que já foram mães, mas continuam embarcando e a motivação até aumentou. Acredito que há uma migração porque nossa formação é muito abrangente e em terra, temos o feeling que o terráqueo não tem para o meio naval.

  9. Sr(as),uma pequena correção:.A Primeira turma de aluna fez o concurso em 1996,mas foram adaptadas em 1997,poid foi a minha turma que “deu”adaptaçao as distintas.Foram 14 alunas ao todo,mas formaram-se 13 pois uma desistiu logo no começo.

  10. Acredito no potencial da marítima, porém, em um certo ponto o fato de ser mulher pesa no quesito desembarque. Minha companheira, assim como eu, é marítima e estamos planejando ampliar a família. Desta forma o afastamento dela será inevitável, e o retorno mais difícil.

  11. Meu sonho sempre foi ser da Marinha Mercante,e hoje conseguie concluir o curso de CAAQ,mas estou vendo que existe ainda muitas barreiras para o acesso feminino. Parece que tudo é por indicação. Mas como uma boa brasileira,continua na luta e não vou desistir.

  12. A permanência no mar, no trabalho embarcado, independe de sexo e sim de uma simples palavra, “vocação” e por consequência determinação para enfretar todas, digo e repito, todas as adversidades que um ser humano pode enfrentar ao escolher não por conveniência financeira e o falso “glamour” e sim de uma profissão onde exitem, os vivos, os mortos e os “homes e agora as mulheres do mar”. Portanto, não adianta se perguntarem o porque de tamanha evasão se as respostas estão individualmente em cada um ou uma no momento da escolha de vida.
    Cada um é responsável por suas escolhas e assim a vida de um verdadeiro marinheiro é um exemplo para aqueles que pensam e acreditam em histórias cheias de fantasias contadas no filmes e novelas.
    Vida longa a todos aqueles que são do mar, sejam homens ou mulheres.

  13. Deixo aqui meus dois centavos sobre esse assunto que é de fato muito polêmico…
    Fala-se muito na evasão das mulheres, mas na realidade há hoje uma evasão de pessoas. Da minha turma, diversos pararam de embarcar. Proporcionalmente, foram mais homens deixando de embarcar do que mulheres. Entretanto, embora a evasão aconteça dos dois lados, o lado da mulher sempre vai pesar mais. Não só pela questão de familiar, mas também por ser julgada duas vezes mais do que um homem na mesma posição. Ainda existe muito preconceito a bordo, muita gente ignorante com ideias retrógradas e animalescas. Muitas mulheres mercantes passam por situações constrangedoras e humilhantes a bordo e, com razão, boa parte prefere se calar, para não atrair ainda mais atenção pra si. Nesse dia das mulheres, eu parabenizo todas as mulheres da nossa Marinha Mercante. Pois elas são verdadeiramente especiais.

  14. Acredito que a evasao das mulheres recebe um grande fator por parte das empresas tambem, ja fui entrevistada em uma empresa que me perguntou sobre meus planos pessoais, se eu iria casar ter filhos e etc…se eu teria problemas com escalas entre outras coisas, percebi um certo receio , PQ MULHERES ENGRAVIDAM, e para a empresa isso eh prejuizo, existem muitas mulheres que tiveram filhos e continuam embarcando, a maioria porque realmente precisam, e a GRAVIDEZ ainda eh um tabu para as empresas, poderia haver uma forma das duas partes sairem ganhando, sei la, nao sei como seria, mas eh muito chato esse clima, deveria haver algum tipo de beneficio para as empresas que mantivessem mulheres gravidas em suas dispensas para a maternidade, e que pudessem dar oportunidades para aquelas que gostariam de continuar embarcando apos a gravidez.

  15. Bem, gostaria de dizer que faço parte da marinha mercante brasileira, marinha está que só existe no papel pois a nossa marinha mercante quase não existe ela é insignificante, de acordo com a extensão do mar territorial Brasileiro, da quantidade de hidrovias ou rios navegaveis e do comércio marítimo internacional. Sou marinheiro de máquinas atualmente, já trabalhei em muitas empresas marítimas nacionais ou multinacionais e com essa crise da Petrobrás é o petrolao, bem como a operação lava-jato o mercado para marítimo no Brasil desapareceu, eu mesmo já estou a dois anos e oito meses desempregado, não consigo embarcar, mando currículo e nada de resposta é pra quem mora na região nordeste como eu aí é que fica mais difícil pois as empresas que ainda restam não querem te dá a passagem e o hotel como no passado próximo elas davam esse benefício pq tudo é concentrado no rio de janeiro ou em algumas regiões destinatário da região sudeste do Brasil tipo: Macaé-rj, ou agora mais recente a bacia de Santos no litoral paulista. Mais a verdade no meu ponto de vista o motivo da dificuldade nessa carreira ou para seguir carreira na marinha mercante brasileira e o seguinte: falta uma política de Estado para a Marinha mercante aqui no Brasil, quase não existe empresas brasileiras de navegação, sejam elas de cabotagem, offshore, longo curso, apoio marítimo, apoio portuário, dragagem, pesquisa sísmica, de grande ou pequena cabotagem no transporte de cargas ou passageiros, não existe armadores nacionais e sem contar que a Marinha formar um mar de gente todo ano, agora pra que isso? Pois não tem navios, nem empresas no Brasil para absorver essa mão de obra, não tem mercado eu mesmo estou sentindo na pele o efeito prático desta situação, dessa crise sem fim e a falta de rumo desse nosso Brasil, onde a prioridade é o transporte terrestre e não o transporte marítimo e fluvial que é o transporte aquaviário. O transporte aquaviário e muito mais econômico, eficiênnte, não polui e levar grandes quantidades de cargas, e seguro e eficaz. Já o transporte terrestre e inseguro, polui o meio ambiente, tem assalto, ataques e roubos de cargas, acabam com as estradas, engarrafam o trânsito das cidades, provacam acidentes, o frente e caro, e existe o desperdício na viagem diferente do transporte aquaviário que uma simples barcaça leva a carga de um mil caminhões. Acho que a Marinha hj deveria oferecer cursos só para quem está na marinha mercante já, tipo: cursos de aperfeiçoamento, atualização, habilitação ou qualificação para o aquaviário subir de função na carreira e se qualificar melhor ou se aperfeiçoar melhor e para com esses cursos de ingressos de novos marítimos ou fluviais tanto guarnição como oficiais pois não tem mercado, nao tem emprego, não tem vaga, não tem navio e nem empresas para absorver este contingente de profissionais e aí? Como fica? Pois agente trabalha com a lei da oferta da procura isso é o capitalismo, ok. Quanto mais gente no mercado aquaviário menor será o salário e os benefícios e vantagens e maior vai ser às exigências e barreiras para se conseguir uma vaga no mercado de trabalho aquviario e e isso está acontecendo hj, eu mesmo não consigo embarcar de do dia 23/06/2015. Então tanto homens como mulheres encontraram muitos desafios nessa área profissional pois gente e muito difícil é como tenho experiência de muito tempo nessa área só fica e sobrevive na profissão quem tem vocação, pois já trabalhei com mulheres abordo de rebocadores offshore e só querem mandar, querem ganhar dinheiro vestir o uniforme branco ou bege Panamá o famoso cáqui mas não querem perder noite de sono e sujar as unhas, não querem suar a camisa reclamam muito e produz pouco, só vivem mariada, aí mano fica difícil pois isso que eu vi na praça de máquinas do navio, mais cada caso é um caso e não estou aqui para generaliza está situado sobre as mulheres, falei só um ouço do que vi é sei das minhas experiências abordo do período em que trabalhei. Saudações marinheiras a todos, bons ventos e bons mares.

  16. Parabéns pela provocação sugerida pelo site Portal Marítimo. É ótimo ter um local para discutir e colocar os diferentes pontos de vista.
    Sou Mercante, tenho orgulho e trabalho em terra. Gosto do trabalho no mar, mas confesso que no meu caso, estar com minha filha é prioridade.
    Continuo trabalhando na área marítima como apoio e o faço com muito prazer.
    Concordo com os colegas que disseram que a evasão acontece com todos, mas o preconceito faz com que a evasão feminina chame mais a atenção.
    Infelizmente ainda há sim muita discriminação, mesmo após 10 anos. Não é difícil ver vagas sendo fechadas de forma velada para o público feminino.
    Na empresa onde trabalho, estou vendo ser contratada, agora, a primeira mulher na guarnição. Uma Mestre de Cabotagem para a função de Marinheiro de Convés. Confesso que me surpreendi e estou torcendo para que seja a primeira de muitas.
    Nesta mesma unidade, a gerente é mulher, a imediato é mulher e todas muito capacitadas.
    Sucesso a nossas Mercantes.

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