Novo incêndio em navio da Maersk chama atenção para o transporte de cargas perigosas

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Maersk Kensington – Foto: KwsideB

Um incêndio logo abaixo do convés principal do navio Maersk Kensington, um conteinero de 6.188 TEUs, foi contido pela tripulação na noite desta quinta-feira, que utilizou todos os sistemas de CO2 existentes a bordo, enquanto o navio seguia de Oman para Suez.

O incêndio, com causas ainda desconhecidas, ocorreu por volta das 20:50 (horário local) e a empresa informou que todos os 26 tripulantes encontram-se bem, em segurança e sem ferimentos.

O navio permanece fundeado ao largo do Porto de Salalah, Oman, até que seja inspecionado e liberado pelas autoridades locais e demais entidades envolvidas, como classificadora e seguradora.

O incidente ocorre pouco mais de uma semana após o incêndio que deixou mortos e feridos em outro navio da Maersk, o Maersk Honam, mas a empresa informa que, a princípio, os incodentes não estão ligados um ao outro.

O navio Maersk Kensington, construído em 2007, estava com 3.518 contêineres a bordo no momento do incêndio e não temos informações precisas a respeito dos danos causados à carga.

Com nossa experiência em conteineros, chegamos à conclusão que pode haver relação dos dois incêndios com o transporte de cargas perigosas que infelizmente, em muitos portos, ainda não são embarcadas com a identificação e documentação correta.

E isso é sério demais, já que muitas cargas são suscetíveis à combustão espontânea sob determinadas condições e se levarmos em conta o clima local, com altíssimas temperaturas, podemos imaginar a temperatura dentro de um porão de cargas de um navio desses e maior ainda dentro de um contêiner comum.

As cargas devem estar detalhadamente descritas no BL (bill of lading), em conformidade com a regras internacionais (Hamburg, Hague ou Hague-Visby).

Independentemente da regra utilizada, todas preconizam a necessidade de se detalhar a carga com sua descrição, natureza, quantidade, qualidade e com a informação das suas leading marks (marcas e números de identificação).

Fora as regras de emissão do BL, que valem para todo e qualquer tipo de carga, o transporte específico de cargas perigosas é regido pelo International Maritime Dangerous Goods (IMDG) Code, e essas cargas podem ser radiotivas, inflamáveis, tóxicas, dentre outras classificações. A obrigatoriedade na observância dessas regras aumenta a segurança ao meio ambiente, ao navio, tripulação e grante que entidades internacionais de supply chain possam fazer o manuseio, transporte e armazenamento correto das mesmas.

Assim, as cargas devem ser corretamente classificadas, identificadas, embaladas, acondicionadas e, quando necessário, segregadas de outras cargas. Seguir o IMDG Code corretamente garante, inclusive, a entrega da carga conforme o que foi contratado, já que erros podem causar atrasos ou até mesmo impedir o desembarque da carga nos portos.

Operações marítimas representam uma disciplina bem complexa e o conhecimento não apenas técnico, mas também da documentação da carga e Legislação aplicável pode fazer toda a diferença na preservação da vida humana, do meio ambiente e dos ativos das empresas envolvidas.

Por Rodrigo Cintra

2 COMENTÁRIOS

  1. Bom dia Senhores, a desconfiança apontada pela equipe de reportagem procede. Certa fez ao inspecionar um porta container de uma empresa nacional notei um container “dry”, cuja carga declarada era um gas!!! pasmem!!!

    forte abraço em todos e segurança acima de tudo
    att

    Marcio Barros

  2. O transporte de cargas em navios de containers é um processo muito mais complexo do que em qualquer outro tipo de navio. Fui Imediato e Comandante de navios de produtos químicos, onde o Imediato tem o controle sobre o plano de carga e a compatibilidade entre elas nos tanques adjacentes e com relação ao tipo de material do seu revestimento e construção, sobre a temperatura das cargas quando necessitam ser aquecidas.
    Isso é complexo, mas não é um problema gigantesco quando se tem 20, 30 ou 40 tanques no navio para distribuir as cargas e verificar a compatibilidade entre elas no seu plano de carregamento. Contudo, em um navio com 3000, 5000, 15000 containers, com estadias de menos de 24 horas (as vezes menos de 12 horas) e com todos os procedimentos que precisam ser feitos nas operações nos portos, é simplesmente impossível para o Imediato – por mais auxílio que os Of. de Náutica possam dar – verificar todo o plano de carga, container por container.
    A responsabilidade dos Planners (pessoas responsáveis por fazer os planos de carregamento dos navios nos escritórios em terra) que enviam estes planos para bordo são fundamentais para que estas situações sejam evitadas écomplexa e total. Em terra, eles não tem nenhum outro envolvimento com nenhum outro dos aspectos de bordo. Não tem que coordenar planos de manutenção, fazer quartos de navegação, coordenar treinamentos, etc.
    O investimento em formação dos Planners é fundamental para que acontecimentos como estes possam ser evitados, mitigando-se riscos. Muitos Planners são jovens Of. de Náutica que encontram uma forma de trabalhar em terra firme. a EFOMM dá uma base sobre como proceder nas disciplinas de seu curriculo, mas é preciso mais do que isso. Quando fiz as orais para o endosso da minha certificação de Comandante na Inglaterra, em 1999, um dia inteiro da semana de exame foi sobre o IMDG Code. Foi o dia mais desgastante de todos, tamanha a importância pertinente do assunto.
    Os recentes ocorridos nos navios da Maersk Line são um sinal de alerta e as empresas (nacionais e estrangeiras) precisam usar isso para reavaliar e melhorar seus procedimentos operacionais e de segurança para que se consiga reduzir os riscos de novas ocorrências.

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