Opinião – As emissões atmosféricas na Marinha Mercante e o Relatório da Transparência Internacional

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A Transparência Internacional propôs em relatório recente algumas mudanças que, segundo a entidade, poderiam melhorar a capacidade de governança da Organização Marítima Internacional (IMO) em servir o que eles chamam de “cidadãos do mundo” em problemas como o Efeito Estufa e emissões de gases de diferentes tipos.

Reconhecemos a importância da entidade no combate à corrupção no mundo e a relevância do trabalho realizado como mais uma representante da Sociedade Civil Organizada, uma papel inegável. Porém, os argumentos apresentados no relatório demonstram total desconhecimento da atividade marítima, total desconexão com a Marinha Mercante e desconhecimento da linha de atuação super rigorosa da própria IMO em suas tratativas.

Se você, leitor, que conhecer o relatório, pode acessá-lo por aqui, diretamente no site Transparência Internacional.

Porém, antes de tomar a lista como grande tábua de salvação, é de extrema importância entender o porquê de haver uma relação tão próxima entre a Marinha Mercante e as enissões atmosféricas. Entender isso é fundamental para que possamos alinhar soluções realmente efetivas.

O problema com as emissões começam por questões técnicas e justamente por causa do uso de motores a diesel.

Dentre os gases emitidos, destacamos:

  • SOx: são os óxidos sulfurosos, extremamente danosos à saúde humana e ao meio ambiente. Esses gases são formados pelo enxofre presente no óleo diesel e os níveis de emissão é diretamente proporcional à concentração. Os que mais preocupam são o dióxido de enxofre (SO2) e de óxido sulfúrico (SO3). Além dos prejuízos diretos à saúde humana, o SO2, quando entra em contato com a umidade atmosférica, produz o ácido sulfúrico (H2SO4), elemento fundamental na formação da chuva ácida, que traz diversos danos à Natureza.
  • NOx: são os óxidos nitrosos, relacionados à poluição atmosférica.
  • CO2: dióxido de carbono (gás carbônico), que é o principal gás relacionado ao efeito estufa.
  • CO: monóxido de carbono, que é altamente tóxico e perigoso para a saúde humana

Todos, sem exceção, representam um grande risco à saúde humana.

O problema com as emissões começam por questões técnicas e justamente por causa do uso de motores a diesel.

Ainda que possua um poder calorífico maior que a maioria dos outros combustíveis utilizados em motores de combustão interna, largamente utilizados na propulsão e na geração de energia de embarcações e, por isso, ser um comustível mais econômico, o diesel apresenta algumas características que muitos desconhecem.

Isto ocorre porque o diesel tem uma maior cadeia de hidrocarbonetos, compostos químicos formados por Hidrogênio e Carbono, quando comparado à maioria dos combustíveis. Ou seja: literalmente ele “possui mais Hidrogênio e Carbono”.

De acordo com o Princípio da Conservação de Energia, todo esse Carbono e esse Hidrogênio que, juntamente com o ar atmosférico devidamente resfriado e filtrado não é transformado em potência eficiente, ou seja, aquela que empurra o pistão do motor para que ele se mova, é dissipado de outras formas e uma delas é a descarga de gases, a “fumaça” que sai na exaustão dos motores.

Esta não é uma boa realidade em um cenário onde os compromissos assumidos na Covenção de Paris chamam a atenção para as consequências da poluição atmosférica, e que agora gera toda uma pressão apra que a Marinha Mercante Mundial se adeque.

Essa fumaça que sai pela chaminé das embarcações é composta basicamente por gases, vapores e partículas sólidas.

Os compostos mais comuns presentes nessa fumaça, além dos hidrocarbonetos não qeuimados, são o monóxido e dióxido de carbono, os óxidos sulfurosos e os óxidos nitrosos.

Pensemos agora no fato de os motores diesel não apresentarem uma queima tão homogênea (mistura ar + combustível) como os motores que são movidos à gasolina. A única forma se se garantir uma queima completa é pelo excesso de ar e para termos uma combustão ainda melhor, um combustível de boa qualidade deve ser fornecido e, ainda assim, devidamente tratado antes de ser queimado no motor. Isso já evidencia, como bem sabem os nossos Maquinistas, a necessidade de termos nossos injetores, bombas injetoras, filtros, purificadores, turbocompressores e resfriadores de ar de lavagem sempre limpos e com a manutenção em dia. Tanques limpos e devidamente drenados. É um sistema integrado, não dá pra utilizar um cobertor curto… tem que cobrir tudo.

Toda vez que por algum motivo não conseguimos este excesso de ar no caixão de ar de lavagem, há a emissão desses gases, já que a combustão é incompleta. Os motivos vão desde uma carga baixa demais nos motores, que inclusive acelera o processo de carbonização dos cilindros e pistões, até problemas nos turbocarregadores, por sujeira, desalinhamento ou manutenção incorreta.

Nem o relativamente recente advento e a utilização cada vez maior de motores com sistema common-rail, que otimiza o desempenho dos motores diesel analisando e controlando a injeção cilindro a cilindro (volume de diesel e pressão de injeção) de forma completamente independente através de uma unidade de comando, acabou com os problemas da emissões.

O sistema melhora de forma significativa o desempenho do motor, reduz consumo e consequentemente as emissões, porém, não resolve o problema por completo. A fumaça vai estar lá. Sempre.

Para se ter uma ideia, um motor diesel típico, sem o sistema common rail, chega a poluir sete vezes mais que um motor de potência equivalente movido à gasolina.

Propostas existem e passam por medidas como:

  • Maior utilização de filtros diversos, de ar, combustível e de gases
  • Melhor qualidade dos combustíveis oferecidos, restrição máxima no consumo de óleo pesado e incentivos para a aquisição dos mesmos, através de renúncia fiscal dos governos
  • Incentivo da utilização de tecnologia de ponta com sistemas de injeção tipo common rail, motores a gás, baterias e acumuladores de diversos tipos, através de renúncia fiscal por parte dos governos dos estados membros
  • Instalação de scrubbers nas chaminés com incentivos fiscais por parte dos estados membros
  • Incentivos para sistemas de co-geração a bordo e aproveitamento dos gases para outros propósitos, como pressurização de sistemas, por exemplo
  • Criação de programas incentivo à pesquisa a fim de se desenvolver alternativas menos poluentes para a propulsão e geração de energia a bordo

Há outras aplicações, porém, essas são mais diretas.

No nosso ponto de vista, a participação dos governos dos estados membros através de renúncia fiscal (não total, mas parcial) e incentivo à pesquisa é de suma importância, do contrário, o transporte marítimo será simplesmente inviabilizado. O custo é altíssimo e um consenso deve ser buscado.

Empurrar esta conta nos armadores pode trazer consequências nada benéficas para a atividade internacionalmente.

Não temos a menor intenção de fazer o papel que cabe ao Secretário-Geral da IMO, Sr. Kitack Lim, mas acreditamos piamente na liberdade cada estado membro adotar as medidas que julgar pertinentes para atender às recomendações da IMO, tudo no momento adequado, e não apenas porque uma organização globalista está pressionando.

E o Comitê de Proteção do Meio Ambiente Marítimo da IMO inclusive já determinou algumas medidas para que se inicie as ações por parte da Marinha Mercante Mundial para que se reduzam as emissões, iniciando já na próxima semana, algo que já vinha sendo delineado há algum tempo.

A solução efetiva passa pela técnica, impreterivelmente.

Por Rodrigo Cintra

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