Nesta sexta-feira o mercado foi pego com o pedido de demissão do Presidente da Petrobras, Pedro Parente, um gestor que vinha fazendo um belo trabalho à frente da estatal, ajustando as contas, melhorando os resultados da empresa e mostrando que uma gestão profissional é capaz de levar a empresa a grandes resultados, fato que, inevitavelmente, desagradou àqueles que faziam da empresa um verdadeiro curral político.

Em sua carta de demissão, que reproduzimos abaixo na íntegra, o executivo explica sua decisão ao Presidente da República, Michel Temer:

“Excelentíssimo Senhor Presidente da República,

Quando Vossa Excelência me estendeu o honroso convite para ser presidente da Petrobras, conversamos longamente sobre a minha visão de como poderia trabalhar para recuperar a empresa, que passava por graves dificuldades, sem aportes de capital do Tesouro, que na ocasião se mencionava ser indispensável e da ordem de dezenas de bilhões de reais. Vossa Excelência concordou inteiramente com a minha visão e me concedeu a autonomia necessária para levar a cabo tão difícil missão.

Durante o período em que fui presidente da empresa, contei com o pleno apoio de seu Conselho. A trajetória da Petrobras nesse período foi acompanhada de perto pela imprensa, pela opinião pública, e por seus investidores e acionistas. Os resultados obtidos revelam o acerto do conjunto das medidas que adotamos, que vão muito além da política de preços.

Faço um julgamento sereno de meu desempenho, e me sinto autorizado a dizer que o que prometi, foi entregue, graças ao trabalho abnegado de um time de executivos, gerentes e o apoio de uma grande parte da força de trabalho da empresa, sempre, repito, com o decidido apoio de seu Conselho.

A Petrobras é hoje uma empresa com reputação recuperada, indicadores de segurança em linha com as melhores empresas do setor, resultados financeiros muito positivos, como demonstrado pelo último resultado divulgado, dívida em franca trajetória de redução e um planejamento estratégico que tem se mostrado capaz de fazer a empresa investir de forma responsável e duradoura, gerando empregos e riqueza para o nosso país.

E isso tudo sem qualquer aporte de capital do Tesouro Nacional, conforme nossa conversa inicial. Me parece, assim, que as bases de uma trajetória virtuosa para a Petrobras estão lançadas.

A greve dos caminhoneiros e suas graves consequências para a vida do País desencadearam um intenso e por vezes emocional debate sobre as origens dessa crise e colocaram a política de preços da Petrobras sob intenso questionamento. Poucos conseguem enxergar que ela reflete choques que alcançaram a economia global, com seus efeitos no País.

Movimentos na cotação do petróleo e do câmbio elevaram os preços dos derivados, magnificaram as distorções de tributação no setor e levaram o governo a buscar alternativas para a solução da greve, definindo-se pela concessão de subvenção ao consumidor de diesel.

Tenho refletido muito sobre tudo o que aconteceu. Está claro, Sr. Presidente, que novas discussões serão necessárias. E, diante deste quadro fica claro que a minha permanência na presidencia da Petrobras deixou de ser positiva e de contribuir para a construção das alternativas que o governo tem pela frente.

Sempre procurei demonstrar, em minha trajetória na vida pública que, acima de tudo, meu compromisso é com o bem público. Não tenho qualquer apego a cargos ou posições e não serei um empecilho para que essas alternativas sejam discutidas.

Sendo assim, por meio desta carta, apresento meu pedido de demissão do cargo de Presidente da Petrobras, em caráter irrevogável e irretratável. Coloco-me à disposição para fazer a transição pelo período necessário para aquele que vier a me substituir.

Vossa Excelência tem sido impecável na visão de gestão profissional da Petrobras. Permita-me, Sr. Presidente, registrar a minha sugestão de que, para continuar com essa histórica contribuição para a empresa — que foi nesse período gerida sem qualquer interferência política — Vossa Excelência se apoie nas regras corporativas, que tanto foram aperfeiçoadas nesses dois anos, e na contribuição do Conselho de Administração para a escolha do novo presidente da Petrobras.

A poucos brasileiros foi dada a honra de presidir a Petrobras. Tenho plena consciência disso e sou muito grato a que, por um período de dois anos, essa honra única me tenha sido conferida por Vossa Excelência.

Quero finalmente registrar o meu agradecimento ao Conselho de Administração, meus colegas da Diretoria Executiva, minha equipe de apoio direto, os demais gestores da empresa e toda força de trabalho que fazem a Petrobras ser a grande empresa que é, orgulho de todos os brasileiros.

Respeitosamente,

Pedro Parente”

Conhecido por sua frase, dita assim que assumiu a empresa em 2016, “Acabou a influência política na Petrobras”, Parente seguiu firme numa gestão totalmente técnica e profissional, tirando a empresa de um prejuízo de R$ 14,8 bilhões em 2016, para um lucro de R$ 6,9 bilhões no primeiro trimestre deste ano, o que possibilitou, inclusive, a distribuição de dividendos entre seus acionistas.

Parente conseguiu melhorar a performance da empresa de forma inegável e impactante, porém, segundo diversos especialistas, errou ao não articular politicamente, dada a relevância da empresa na Economia do Brasil. E a política de reajustes dos preços dos combustíveis seguindo rigidamente as cotações do barril de petróleo e do dólar evidenciou bem isso.

Sem querer emitir juízo de valor sobre o ocorrido, até porque podemos nos posicionar de forma totalmente equivocada, os fatos nos mostram que começou uma verdadeira discussão do tipo “o ovo ou a galinha” sobre como a crise começou, e isso colocou em xeque a forma como a Petrobras vinha conduzindo seus reajustes.

É claro que pesa muito nesses fatos a súbita alta na cotação do barril de petróleo, e toda a corrupção da qual a empresa foi alvo por quase duas décadas. Uns dizem que a Petrobras pagou a conta de um Governo corrupto que se alimentou dela de diversas formas. Será que, agora, seria a vez da Petrobras cobrar essa conta do Governo? Pois é! O problema é que Governo não faz dinheiro, não gera recursos. O Governo sempre vai empurrar isso para o contribuinte.

Somos eu e você que pagamos esta conta, leitor!

Enquanto houver monopólio na distribuição do combustível, não estaremos livres disso.

Enquanto não desenvolvermos aqui no Brasil a possibilidade de termos um diesel de qualidade totalmente nacional, diferente do que temos hoje, idem. Você sabia que importamos diesel de qualidade superior ao nosso para realizar uma mistura com o nosso e assim termos algo tecnicamente aceitável para ser fornecido ao consumidor final?

A indicação do novo presidente feita pelo Conselho de Administração da empresa, Ivan Lopes, que até então era o Diretor Executivo Financeiro e de Relacionamento com Clientes, cargo que vai acumular, indica que o Governo manterá a gestão técnica da estatal, sinalizando que o melhor da gestão de Pedro Parente deve continuar da mesma forma. Lopes fica no cargo até o dia 29 de março de 2019, data em que será eleito o novo Presidente.

Seu nome é bem visto pelo Mercado Financeiro e ele é considerado internamente da empresa como o grande responsável pela realização das diversas mudanças e ajustes que vem reduzindo o endividamento da Petrobras.

Segundo declarações do Presidente Michel Temer, a política de reajustes de preços deve se manter, e o Governo interveio para que esta conta não seja paga pelo consumidor subsidiando o diesel através de recursos que originalmente iriam para outras áreas.

De qualquer forma, ainda que indiretamente, nós, contribuintes, pagaremos esta conta. Já eles…

Bem, eles estão com a vida boa de sempre.

Ou você redita que alguém em Brasília está passando aperto ou deixando de comer do bom e do mekhor por causa disso tudo?

Acorda, Brasil! Precisamos endireitar este país.

Por Rodrigo Cintra

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