O Estaleiro Atlântico Sul (EAS), controlado por Camargo Corrêa e Queiroz Galvão, busca alternativas para fortalecer sua estrutura de capital, e assegurar sua sobrevivência. O Valor apurou que o fundo Apollo, sócio da consultoria de reestruturação de empresas Starboard, estuda fazer oferta pelo EAS, podendo, inclusive, assumir o controle do estaleiro. A empresa de navegação Satco é outro candidato a investir no estaleiro e poderia trazer junto com ela uma carteira de encomendas de navios.

A entrada de novo sócio ou controlador no EAS vai demandar ao menos 8 a 10 meses. “Não é uma operação simples”, disse uma fonte. Em todo caso, a oferta de um investidor pelo estaleiro precisará ter apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O BNDES é o principal credor, com R$ 1,2 bilhão em créditos — 75% da dívida total do EAS, de R$ 1,6 bilhão. BNDES, EAS e Starboard não se pronunciaram.

Na visão do mercado, se as discussões com investidores não chegarem a bom termo, existe risco de o EAS ter de pedir proteção à Justiça contra credores em 2019. O estaleiro está parado, e concedeu férias coletivas aos 3,6 mil empregados até 11 de junho por desabastecimento de insumos como resultado da greve dos caminhoneiros.

Sem nova carteira de encomendas, o EAS enfrenta dificuldades financeiras: teve prejuízo de R$ 466 milhões em 2017. E deverá necessitar de novo aporte de recursos dos sócios ainda neste ano. A situação pode acelerar as conversas para entrada de novo sócio no estaleiro. Existe possibilidade, inclusive, de que esse parceiro venha a possa assumir o controle acionário do estaleiro, apurou o Valor.

A Camargo Corrêa não está disposta a arcar sozinha com novos aportes no EAS e, na avaliação de pessoas do setor, a Queiroz Galvão vive momento delicado com dívidas da ordem de R$ 10 bilhões, e problemas no Tribunal de Contas da União (TCU). Além disso, os dois acionistas ainda encontram restrições de acesso a crédito nos bancos para novos investimentos em seus ativos devido à Lava-Jato.

É nesse contexto complexo que surge a opção do fundo Apollo vir a fazer uma oferta pelo EAS. Na operação, o Apollo pode tornar-se dono do estaleiro. As conversas com o fundo, embora preliminares, são uma das alternativas mais avançadas no momento. Ainda não existe uma oferta vinculante por parte do Apollo, o que poderia ocorrer a curto prazo.

O estaleiro ainda tem cinco navios para entrega à Transpetro, a subsidiária de logística da Petrobras, até meados de 2019. Do lote original de 22, sete foram cancelados quando Pedro Parente assumiu a estatal em 2016.

O EAS já precisaria ter renovado a carteira de encomendas no começo deste ano, o que não aconteceu, tornando a situação da empresa cada vez mais delicada. Uma das alternativas que o EAS vem buscando há algum tempo para continuar a operar envolve a transação com a empresa de navegação Satco, interessada em construir no estaleiro cinco navios petroleiros para atender a Petrobras.

O negócio até hoje não foi adiante, mas a Satco continua no páreo, e também pode fazer uma oferta para entrar no capital do EAS. Ligada a capitais ingleses, teria chegado a sinalizar que assumiria boa parte da dívida do estaleiro com o BNDES, mas a transação com os sócios do EAS também não foi adiante. Hoje, não está claro se o BNDES aceitaria propostas do Apollo ou da Satco envolvendo o controle do EAS. O banco é exigente em termos de garantias reais dos acionistas nesse tipo de operação.

Os novos parceiros do EAS, assim como os atuais acionistas, têm interesse em renegociar as condições de financiamento contratadas com o BNDES, em termos de custos e de prazos. O que o EAS busca, portanto, são opções de continuidade. Se quiser garantir nova encomenda, precisa de garantias para recursos financeiros, o que hoje não tem. Apesar de ter gerado caixa positivo, não consegue pagar a totalidade do serviço da dívida, de custo elevado. No caso do BNDES, a dívida de R$ 1,2 bilhão tem prazo de 20 anos, com quatro de carência e 16 anos para pagar. O EAS considera ser uma dívida cara, que precisaria ser renegociada.

A avaliação de fontes, portanto, é de que a capitalização do estaleiro é “premente” se o EAS quiser se manter operando. A entrada de um sócio no estaleiro torna-se mais fácil se for alguém com balanço “maior” pois facilita levantar recursos com bancos. A dívida do estaleiro com o BNDES tem origem em repasses do Fundo da Marinha Mercante (FMM), mas o risco da operação é do agente financeiro, no caso o banco de fomento. “Eventualmente, o novo controlador teria de discutir novo crédito com o BNDES e pré-pagar o FMM”, disse uma fonte.

No total, o EAS recebeu investimento de R$ 3 bilhões e depois de muitas dificuldades conseguiu capacitar mão de obra e obter ganhos de produtividade. Hoje, o estaleiro atingiu de 70% a 75% da curva de aprendizado, e opera com produção de cinco navios por ano. No entanto, fontes afirma que um estaleiro não consegue sobreviver se não tiver um apoio de conteúdo local de ao menos 40% a 45%.

Fonte: Francisco Góes e Ivo Riberiro / Valor Econômico

Por Redação

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