Novas reservas nos EUA estão num dos lugares mais perigosos

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Em um escaldante dia de junho na localidade de Houma, no estado da Louisiana, o escritório local da British Petroleum – agora transformado no Centro de Comando do Incidente da Deep-water Horizon – está fervilhando de homens e mulheres circunspectos. Na sala de comando das operações, telas de vídeo exibem mapas da mancha de óleo e a localização das embarcações mobilizadas. Mark Ploen, vice-responsável pelas operações, está rodeado de gente que trabalhou com ele no vazamento do navio-tanque Exxon Valdez, 20 anos antes, no Alasca. “É como uma reunião de colegas de ginásio”, diz, sem ironia.

A 80 quilômetros dali, 1,6 mil metros abaixo da superfície do mar, o poço Macondo, da BP, estava lançando no fundo do golfo uma quantidade de óleo equivalente a um Exxon Valdez a cada quatro dias. No fim de abril, uma explosiva erupção no poço transformara a Deepwater Horizon, uma das mais avançadas plataformas de perfuração existentes, em uma montanha de metal queimado e retorcido no fundo do mar. Tanto as empresas petroleiras como as agências oficiais reguladoras sempre agiram como se esse tipo de catástrofe jamais fosse acontecer. E de fato nada desse tipo havia ocorrido no golfo do México desde 1979, quando um poço mexicano, o Ixtoc I, inundou de óleo as águas rasas da baía de Campeche. De lá para cá, as técnicas de perfuração foram aperfeiçoadas. A demanda por petróleo aumenta em escala irresistível, levando as companhias a se aventurar muito além das plataformas continentais. Antes desse acidente, os maiores riscos pareciam estar nos vazamentos de navios-tanque como o Exxon Valdez.

No prédio em Houma, mais de mil pessoas tentavam organizar um plano de limpeza ambiental como jamais se vira no planeta. E outras dezenas de milhares estavam lá fora, esquadrinhando a superfície do mar em aviões e helicópteros e combatendo a mancha de óleo que se ampliava por meio de embarcações especiais de coleta e de um dilúvio de dispersantes químicos. Contudo, milhões de barris de petróleo leve e doce continuavam se movendo rumo a pântanos e praias do golfo do México.

As águas do golfo abaixo dos 300 metros de profundidade são uma nova fronteira ao setor petroleiro – e um dos lugares mais difíceis de se perfurar poços no mundo. Após a suave inclinação da plataforma continental, o leito marinho despenca, transformando-se em um terreno acidentado de bacias e cordilheiras, com desfiladeiros profundos, cristas oceânicas e vulcões de lama ativos. Todos os dias mais de 2 mil barris de petróleo escapam por diversas fissuras naturais no leito. Mas as reservas economicamente viáveis estão situadas em profundidades ainda maiores, muitas vezes sob camadas de sal em movimento e vulneráveis a terremotos submarinos. No fundo do mar as temperaturas estão próximas do congelamento, ao passo que nas reservas de petróleo chegam a 200ºC: são como garrafas de refrigerante quentes e sacudidas, esperando apenas que alguém abra a tampa. Bolsões de gás metano explosivo e hidratos de metano, estes últimos congelados mas instáveis, ocultam-se nos sedimentos, aumentando o risco de explosões.

Durante décadas, os custos exorbitantes da perfuração de poços em profundidade fizeram com que as plataformas de exploração fossem instaladas perto da costa. No entanto, o esgotamento dessas jazidas, o que fez o preço do barril de petróleo disparar, e as descobertas de reservas em campos de alto-mar desencadearam uma corrida global para as águas profundas. Recentes achados nos campos Tupi e Guará, no Brasil, podem tornar o país um dos maiores produtores de petróleo do mundo. O litoral de Angola é igualmente promissor.

Em 1995 o Congresso americano aprovou uma lei que incentiva empresas a prospectarem em maior profundidade. Logo uma esquadra de plataformas estava abrindo poços em todo o golfo. Novos campos tornaram-se viáveis bem a tempo de compensar o declínio da produção de petróleo na plataforma continental. Hoje, o golfo do México responde por 30% de toda a produção dos Estados Unidos, com metade desse volume vindo de poços em águas profundas (de 305 a 1 524 metros), um terço de águas ultraprofundas (mais de 1 525 metros) e o restante de águas rasas. O poço Macondo, da BP, mesmo com 1 525 metros de água e outros 3 960 metros sob o leito marinho, não era considerado tão profundo. Já foi perfurado um poço através de 3 048 metros de água e com profundidade total de 10 683 metros – recorde mundial, estabelecido em 2009 pela própria Deepwater Horizon em outro campo da BP. Segundo estimativas, as áreas profundas do golfo podem conter até 45 bilhões de barris.

Mas, enquanto a tecnologia viabilizava as perfurações, não ocorreram avanços nos métodos de prevenção e de limpeza. Desde o início do século, relatórios vêm alertando sobre o risco crescente de erupções em águas profundas, falibilidade dos sistemas de segurança e dificuldade de se interromper um vazamento – desses poços, que estão submetidos a pressões muito altas, podem jorrar até 100 mil barris de óleo por dia.
Vários poços em águas profundas não apresentam, em termos relativos, muitos problemas ao serem abertos. Mas esse não foi o caso do Macondo, perfurado pela Transocean, uma empresa baseada na Suíça e contratada pela BP.

A primeira plataforma da Transocean foi inutilizada pelo furacão Ida apenas um mês depois de entrar em atividade. A Deepwater Horizon iniciou seus esforços malfadados em fevereiro de 2010. No início de março, a sonda de perfuração ficou presa no poço. Até 20 de abril, a plataforma acumulava um atraso de seis semanas em seu cronograma – um prejuízo de meio milhão de dólares por dia para a BP. Ela havia escolhido perfurar o poço no ritmo mais rápido possível – usando um tipo conhecido como de “tubulação longa”, no qual se utilizam dutos de revestimento entre o reservatório de óleo e a cabeça do poço. Escavações assim em geral contam com duas barreiras entre o óleo e o sistema de segurança contra erupções, o BOP, instalado no leito do mar: um tampão de cimento no fundo e um vedador metálico localizado na cabeça do poço. Esse vedador ainda não estava instalado quando ocorreu a erupção.

Para ler esta matéria na íntegra, acesse National Geographic

Por Nelsiane Carrara

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