Orelhadas sobre a carreira na Marinha Mercante

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Infelizmente, caros colegas, como já disse aqui antes, há muita gente escrevendo besteira a respeito da carreira de Oficial da Marinha Mercante. As “orelhadas” existem e temos que conviver com as mesmas…

Lendo o Jornal A Tribuna, notei que, mais uma vez, escreveram besteiras a respeito da carreira de Oficial de Marinha Mercante. Isso é reflexo da Imprensa ávida por notícias a qualquer custo, sem um mínimo de compromisso com a realidade, concentrando-se apenas em noticiar algo. Não sei qual foi a fonte, mas temos visto algumas reportagens e notas bem tendenciosas em determinados jornais ultimamente. Aliás, pude notar a total falta de preocupação com a Língua Portuguesa.

Vamos às orelhadas:

1- “Salário atraente, possibilidade de conhecer muitos países” – salário atraente sim, se compararmos com quem está em terra, junto dos seus, com convívio social. Porém, se analisarmos a rotina de bordo, ainda temos muito o que avançar, sem sombra de dúvidas. Possibilidade de conhecer outros países? Francamente, não temos Longo Curso. O Longo Curso JÁ ERA e a Cabotagem luta para se fortalecer. Exceto algumas pouquíssimas pessoas no offshore que estão operando em águas estrangeiras, os que pegam uma docagem fora, uma “saidinha” aqui pela América do Sul ou uma esporádica ida a outro continente, num “tramp” desse da vida, o marítimo brasileiro vai conhecer mesmo é a “Terra Brasilis” (que é muito grande), a fundo, de Coari a Rio Grande.

2- “A área, aquecida pelo grande aumento no volume de cargas transportadas por via marítima nas últimas duas décadas, no bojo do processo de globalização, tem estado cada vez mais aquecida.” – Volto a dizer: Não temos mais o Longo Curso e nossa Cabotagem luta para sobreviver e deixar de ser um mero “transbordo”. Toda essa carga é transportada por navios em sua maioria BDC (Bandeira de Conveniência), com filipinos, croatas, poloneses, ucranianos, gregos… tem de tudo a bordo, deve ter até marciano, menos brasileiros.

3- No Brasil, em particular, esse mercado de trabalho está em faze de crescimento, em função dos projetos de ampliação da frota nacional de cargueiros e petroleiros para fazer face ao aumento da demanda por transportes – lembrando que 90% das exportações e importações brasileiras são feitas pelo mar.” – Bem, para começar, FASE se escreve com “S”, e não com “Z”. Desses 90% de movimentação, quase nada é feito por brasileiros. Repito: QUASE NADA.

4- “Os oficiais de marinha mercante são formados por dois centros/escolas mantidos pela Marinha: o Centro de Instrução Almirante Graça Aranha – Ciaga (Rio de Janeiro) e Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar – Ciaba (Belém/Pará)” – Os Centros de Formação são administrados pela Marinha, mas mantidos pelas contribuições ao Ensino Profissional Marítimo, feitas pelas empresas, mais verbas repassadas diretamente pela IMO – International Maritime Organization, braço marítimo da ONU. As verbas oriundas da Marinha do Brasil são mínimas e muitas vezes nem são repassadas.

5- “O vencimento básico inicial (segundo oficial, que é a primeira patente) é de cerca de R$ 3 mil. A ascensão ao posto máximo de comandante leva cerca de 10/12 anos, com vencimentos que chegam a R$ 12 mil.” – Essa foi a orelhada mor – divulgando salários e períodos de ascenção na carreira sem um mínimo de embasamento. Não vou comentar essa. Na Marinha Mercante (com maiúsculas, ok?) não há patentes, o que há são categorias e funções. Quanto aos salários, quem está “aqui de dentro” conhece melhor os valores.

6- “O Sindmar, que tem índice de sindicalização de 90% entre a categoria, mantém acordos coletivos com mais de 40 empresas de navegação, contribuindo para a melhoria das condições de trabalho.” – Essa é para rir mesmo. Ter ACT não significa necessariamente, que as coisas estão às mil maravilhas, muito menos que isso contribui para a melhoria das condições de trabalho. Além disso, esse nível de adesão da classe ao Sindmar tem nuances desconhecidas por quem está “de fora” da Marinha Mercante.

7- “Para driblar a saudade de casa, os navios mercantes oferecem aos tripulantes hoje uma gama de atividades que vão desde o acesso à internet e salas de jogos até a improvisação de jogos de futebol e vôlei a bordo. Assim, a rotina inclui a criatividade brasileira, mesmo em águas internacionais e portos distantes da costa brasileira.” – Ah tá… navio mercante, brasileiro com Internet full? Me diz aí qual é. Fico aguardando, mas não me deixa esperar muito não, senão eu corro para o offshore, ok? Não tem criatividade não… O que tem é o famoso “J”… o famoso “dar um J”. E tem que dar um “J” porque a maioria dos Armadores brasileiros ainda está no século passado e Internet é como água no deserto.

Com as informações aqui comentadas o jornal A Tribuna

… pior foi ver o Net Marinha, site de ótima qualidade, com informações geralmente muito boas, no dia seguinte, repetindo a mesma reportagem e embarcando na mesma “orelhada”. Bem, pelo menos este último preocupou-se com a Língua Portuguesa…

Por Rodrigo Cintra

1 COMENTÁRIO

  1. A cada dia me apaixono mais por este portal! 0130 PM…morto de sono…mas continuo lendo, e comentando!!! Muito, muito, muito bom mesmo!! Li tudo e, como sempre…saboreei!
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    Ah, improvisação de jogos de futebol e vôlei é o máximo…Imaginei um monte de caras de muleta jogando pelada no convés…hahahahha…doideira, né…Mas eu pensei…

    • O pessoal “dá o J”, como já falei. Futebol nos porões, convés ou tijupá. Vôlei sinceramente eu nunca vi. Pitoco e carteado, é de lei. O Pitoco é engraçado, emocionante.. Você vê os caras se estressando, gritando, tem gente que até para de se falar por causa de uma partida de pitoco. O Zezé Safa Onça, por exemplo, era um que se aborrecia de verdade:

      http://portalmaritimo.com/2011/09/11/conto%c2%a0%e2%80%93%c2%a0zeze%c2%a0safa%c2%a0onca/

      Lembro do meu PIM, quando o futebol no LPG Grajaú, da Transpetro, era atrás do Passadiço. Chefe Jathay, Imediato Monteiro (este último levava a parada a sério mesmo). No Lorena BR, os que ficavam na “secura” do futebol eram o Comandante Tavares (agora trabalhando em terra, no escritório da Transpetro em Fortaleza) e o na época Praticante de Náutica Paulo Roberto. Alguns navios têm piscina também. Orelhadas a parte, acho que o nível de entretenimento ainda tem muito o que melhorar a bordo dos navios, principalmente no quesito “comunicação com o meio exterior”.

  2. Engraçado você ter comentado sobre entretenimento a bordo, pois há alguns colegas que consideram que Sala de Televisão, Vídeos variados, etc. são pura “perda de tempo” para os tripulantes. Mas há de se lembrar que essa “perda de tempo” é necessária! O relaxamento e distração dos tripulantes durante seu período de descanso(ou folga) é de suma importância para que o trabalhador possa render mais!
    Grandes empresas tem agido desta forma, dando alternativas de entretenimento aos seus funcionários no período do almoço; ou dando momentos de relaxamento, ou exercícios, etc…

    O importante é saber que o entretenimento, conforto, e satisfação do funcionário fazem parte, também, de uma gama de fatores que os empregadores devem estar atentos!

    Abraços.

  3. Oi, tinha escrito uma mensagem toda organizada e formal, mas infelizmente, o site deu erro. então vai assim mesmo, eu sou estudante do 3 ano e fazo um pre-vestibular para o Efomm, tava mto satisfeito com o curso, ate ter uma palestra hoje, entao vim pra internet procurar saber mais sobre a vida maritima, vi como voce foi muito negativo em relação a isso, gostaria de mais informações e indicações, se possivel seria otimo voce me adicionar no msn, espero uma resposta, obrigado!

  4. Ô Cintra, vc já trabalhou nas “mil maravilhas” de terra, em empresa de navegação? De ter que acordar todos os dias às 05:00 hs da matina, enfrentar um trânsito fdp e chegar em casa às 20:00 hs morto de cansaço, fazendo esta rotina de segunda a sexta ou às vezes sábado tbm? Que qualidade de convívio com a família é este? A marinha mercante hoje está muito melhor do que quando comecei há 35 anos. Melhoramos muito a partir da greve de 87. Minha geração não ficou o tempo todo questionando, agimos e trouxemos a marinha mercante para os dias melhores de hoje; dê mais um impulso, não fique esperando, nem questionando e nem minando o sonho de muitos jovens. A literatura de marinha mercante é infinitamente extensa. Um oficial mercante bem qualificado tem espaço em vários setores além dos navios. A vida de bordo melhorou muito – trabalhar 21 ou 28 dias e ter o mesmo periodo de folga com a família e não ter que fazer nada pra ninguém é muito bom!!! Aos jovens, mirem-se sempre nos bons exemplos e nos bem sucedidos – na marinha mercante temos muita de gente assim – aos derrotados, fracassados e recalcados, mantenham- se distantes!!! Construí minha vida dentro da marinha mercante, não me arrependo, tenho uma ótima qualidade de vida e uma situação financeira bastante estável. Jovens!!! Venham para a marinha mercante e junte-se aos bons para que juntos possamos levá-la para um futuro melhor e cada vez mais promissor!!! Cintra, por favor, não leve este comentário para o lado pessoal e nem tbm estou me referindo a você quando disse “derrotado”, Ok?
    Um forte abraço fraterno e saudações mercantes!!!

    • Prezado Jorge
      Após oito anos de carreira no mar, hoje trabalho em terra, como Superintendente Técnico em uma empresa de navegação, além das atividades do Grupo Portal Marítimo.
      Apesar de ter apenas 31 anos e na minha pouquíssima experiência, procurei empenhar o meu melhor e me manter no grupo dos que fazem parte da solução dos problemas. Sei do potencial dos oficiais da Marinha Mercante, inclusive eu passo por isso todo dia, pois as pessoas sempre me perguntam que engenharia eu fiz e eu digo que não fiz engenharia e ENCHO A BOCA pra dizer com orgulho que sou Oficial de Máquinas da Marinha Mercante e que meu título de Nível superior é de Bacharel em Ciências Náuticas.
      Estudei muito a bordo, Jorge. Ler manual era que nem ler jornal e este é um hábito que ainda conservo. Hoje tenho confiado a mim uma grande gama de responsabilidades e procuro responder a altura, até mesmo por ter a consciência de que abri uma porta para brasileiros e espero que em breve eu possa ter mais colegas de minha nacionalidade desempenhando a mesma função comigo por aqui.
      Desde Janeiro que trabalho em terra e enfrento isso o que você comentou: engarrafamentos, motoristas mal educados (às vezes eu sou um deles, não posso negar… rsrs). Mesmo assim, te digo: a certeza (ainda que incerta… rsrs) dos feriados, festas, datas especiais, finais de semana e a possibilidade de estudar mais e mais, investindo em pós graduações na área de Manutenção e Gestão, adquirir novo conhecimentos que impactam diretamente no meu trabalho, é uma coisa impagável. A bordo eu não conseguiria fazer isso, mas isso é um outro assunto, até mesmo nem eu esperava estar em terra neste momento. As coisas tem andado meio que a toque de caixa em minha carreira ultimamente e às vezes até eu me assusto. Par te ser sincero, caro colega, hoje minha qualidade de vida é bem melhor. Retomei minhas atividades esportivas, meu estudos, perdi já uns 30 kG, rejuveneci, estou mais alegre, enfim… esta rotina do trabalha – come – dorme não fazia muito o meu tipo, mas a Manutenção me fascina desde os meus 12 anos de idade. Desde os velhos motores de motos e carros até os motores de navios. Hoje estou mais presente na família, antes eu “apenas estava em casa”, mas isso é uma experiência pessoal, provavelmente a sua foi diferente.
      Meu colega, toda vez que analisamos um texto ou uma situação, temos que visualizar o contexto e se você for atento, verá que este texto foi escrito há exatamente dois anos! O contexto mudou, hoje se tem investimento em Cabotagem, que vem crescendo, a qualidade de vida a bordo vem aumentando, a frota nacional, mesmo que aos trancos e barrancos, vai também aumentando, enfim… o contexto é outro.
      Por exemplo a Greve de 87 – eu tenho minha opinião formada sobre isso, o contexto do país era um Governo em fase de democratização num país ainda assustado com os excessos cometidos por ambas as partes durante o Governo Militar. Talvez por isso a Greve tenha tomado a “fama” que tomou. Meu avô paterno foi um dos fundadores, em 1922, de um dos partidos mais atuantes e perseguidos da História deste país e meu saudoso pai esteve profundamente envolvido com a atividade sindical, mas do pessoal das telecomunicações, e eu vivia isso em casa. Tanto vivi que fiz parte de uma liderança estudantil que marcou época no Colégio Pedro II e te digo de cadeira que no jogo político, as pessoas entram por ideal mas, na hora do vamos ver, prevalecem os interesses e não há heróis, meu caro. O que existe são “extremamente beneficiados”, “beneficiados” e “prejudicados” após qualquer mudança política, quer seja ela de cunho estudantil, classista ou partidário. Não vou me alongar nisso, pois este é um outro papo, que nada tem a ver com este texto.
      Porém, relendo o texto, fico feliz por ver o quanto evoluímos em dois anos e inclusive hoje temos sim boas opções de entretenimemto a bordo, talvez não o melhor disponível, mas já temos bem mais que há dois anos atrás.
      O que eu não entendo, e talvez a maioria dos leitores também não, é de onde o colega concluiu que eu posso estar “minando o sonho de jovens”.
      Se existem pessoas que sempre incentivam jovens a abraçarem esta carreira, uma dessas pessoas sou eu.

  5. Caro Cintra, peço desculpas se cometi alguns excessos no meu comentário; é que sempre fomos massacrados e expostos a tudo de ruim que a atividade possa, errôneamente, nos proposionar.
    Um leigo ao ler determinados comentários, pode não ter a exatidão da realidade e, nem tudo que é bom para uns é bom para outros ou vice-versa. Vc, assim como eu, sabemos que o mundo só evoluiu porque somos, por natureza, seres inteligentes e inconformados, ou seja: o inconformismo é a razão maior da evolução do homem!!!

    Infelizmente, a nossa atividade é uma das poucas que, muitas das vezes, ficam expostas, maldosamente, a determinados comentários
    e que, por respeito aos que penosamente e heróicamente labutam
    no mar, me sinto no direito de defesa da classe a qual pertenço ou
    pertencemos, eu e você, claro!!!

    Você, como um brilhante oficial mercante, um orgulho para todos nós, sem nenhuma dúvida, tem todo o direito, assim como eu,em
    questionar qualquer matéria ou comentário pertinente à nossa
    profissão, mas ao fazê-lo, penso eu, temos que analisar o contexto
    e verificar se nos é favorável – precisamos de relatos positivos da
    sociedade como um todo reconecendo tudo de bom que já con-
    quistamos e muito mais fôlego para continuar – uma matéria que
    reconhece, tanto social como profissional, a evolução da nossa
    profissão, passa ser também uma ótima injeção de estímulos e
    forças para que continuemos nesta luta, não acha? Rs.

    Você, pelo que pude lê, é uma bela referência, um ótimo exemplo a ser seguido!!! Agora, imagine se antes de entrar para a efomm, eu,
    velho e já mercante, chegasse e lhe disesse tudo de ruim da profissão? Com certeza teria minado o sonho de um possível e, hoje, graças a Deus, brilhante oficial mercante; haja vista o cargo de Superintendente que ocupa na navegação, entende? Quem,
    além do seu esforço e sua família, lhe deu essa base?

    Cintra, talvez no comentário anterior tenha sido um pouco eloquente,
    mas temos que aprender jogar tbm quando o escore nos é favorável
    sem a ilusão de que tudo está perfeito. A imperfeição, quem está literalmente no mesmo barco, como é o nosso caso, conhece, né?

    Também já trabalhei muito em empresa de navegação, onde me
    contrataram só porque eu era oficial de máquinas, mas também não vem ao caso expor meu curículo profissional aqui, né? Rs…
    O importante é que você, assim como eu também, apesar dos meus 56 aninhos, ainda somos partes ativas de uma mesma bandeira que
    um dia, em épocas diferentes, juramos por ela na efommn e esta bandeira, com certeza, estará sempre hasteada em nossos cora-
    ções pelo resto de nossas vidas!!!

    Jamais brigarei com você!!! Rs…. És um dos nossos, sou um dos seus!!! Brigo sim, mas “é” pelos mercantes, por nós!!!

    Gostei muito da sua resposta e da maneira elegante como a fez,
    dígna da verdadeira humuldade do homem do mar e sem a subserviência dos incapazes; o homem do mar só deve se curvar
    para entrar numa dala de praça de máquinas, diante de uma mesa de navegação e acima de tudo diante de Deus!!!

    Direciono à você todas as minhas considerações, respeito, a eterna gratidão por tudo que tem feito por nossa gente e o orgulho maior por ser um dos nossos!!! Precisamos muito de você!!!

    Um forte abraço fraterno.

    Jorge Alves
    OSM/EFOMM-77

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