Brasileiros não operam “importados” – Conversa pra boi dormir

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Resolvemos republicar esta matéria no Portal Marítimo, originalmente publicada no dia 1º de Setembro de 2010, em razão de estarmos vendo na mídia convencional e “marrom” uma clara tentativa de impedir que nós, brasileiros, exerçamos nossa profissão em nossa própria costa, sob uma chuva de justificvativas as mais absurdas possíveis.Segue a matéria que, como já dito acima, foi originalmente publicada aqui no Portal no dia 1º de Setembro:

No último dia 31, li uma notícia que me deixou um pouco estarrecido. A informação que recebi veio oficialmente, através de diversos jornais, do senhor Paulo Sergio de Almeida, Presidente do Conselho Nacional de Imigração(CNI). Segundo Almeida, somente no primeiro semestre deste ano (janeiro a junho), o número de autorizações para a atuação de profissionais estrangeiros em embarcações e plataformas estrangeiras em operação no Brasil subiu 24%, totalizando 8244 autorizações, contra 6670, no mesmo período do ano passado. Se compararmos com 2008, o aumento foi de 54%.

“O setor de prospecção e exploração de petróleo e gás é um dos que mais investem e crescem no País, fazendo uso de equipamentos importados e, conseqüentemente, necessitando do ingresso de mão de obra estrangeira para tripular as embarcações”, disse Almeida.

Juntamente a essa declaração, como já nos foi noticiado pela Imprensa, a presidente do SindaRio (Sindicato das Agências de Navegação Marítima do Rio), Marianne Von Lachmann, presenteou-nos com a seguinte pérola:

“A escassez de mão de obra marítima gera tensão imensa. Não há tripulantes oficiais.”

Como num ciclo vicioso, nosso “querido” Ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, embarcou nessa e comprometeu-se a tentar buscar solução, com a seguinte declaração:

“Não posso tirar emprego de brasileiros, mas não dá para impedir o setor de crescer e gerar mais empregos indiretos”.

As contratações em embarcações estrangeiras são reguladas pela Resolução Normativa 72 do CNI, que estipula os percentuais mínimos de trabalhadores brasileiros que devem ser admitidos de acordo com o tempo de permanência do navio ou da plataforma estrangeira no País.

Isso tudo é muito bonito na teoria, mostra uma legislação supostamente forte e preocupada em defender os postos de trabalho do sbrasileiros, mas quem trabalha embarcado sabe que, na prática, a coisa não é bem assim. Os desrespeitos à RN 72 são comuns, mais do que deveriam, e os estrangeiros inundam nosso Mercado, ocupando postos que poderiam ser ocupados por brasileiros.

Não vou virar as costas para a realidade e dizer que há profissionais para atual demanda, pois isso seria faltar com a verdade, mas acredito que há que se fazer um investimento na melhor formação dos profissionais, e não somente no aumento do número de formados, nos diversos setores ligados à atividade petrolífera. O que vejo é um momentâneo equilíbrio instável, mas se levarmos em conta que as instituições tanto técnicas como de nível superior têm aumentado, a cada ano, o número de vagas disponíveis, vemos que as coisas estão no caminho. Lembremos que nosso país teve seu parque industrial sucateado por mais de vinte anos, o que gerou um déficit muito grande de profissionais especializados, como Oficiais de Marinha Mercante, Engenheiros de todo tipo, Técnicos da Área de Construção Naval etc.

O “Gran Finale”, foi saber que tentaram autorização para 1200 chineses entarem em nosso país. Como se já não bastassem os imigrantes ilegais que ficam ali pela Rua Uruguaiana, nas praias vendendo todo tipo de quinquilharia e todos os MADE IN CHINA que vemos em Guarda Chuvas, Tênis e até nesse notebook pelo qual vos escrevo, agora teremos que conviver com isso a bordo? Alguém aqui acha que quem nada tem a perder vai fazer algo para primar por algum nível de excelência no que faz? Deixo a pergunta para os leitores.

Setor de Imigração da PF em breve…

Só quem é leigo, só quem não embarca e não conhece a nossa profissão, é que “engole” a desculpa de que não somos habilitados a operar “equipamentos importados”. Que pensamento mais “chinfrim”, que pensamentozinho de país subdesenvolvido, oriundo de um Povo que, cada vez mais e mais, é tratado como “coitadinho” pelo Poder Público e isso vai se perpetuando, perpetuando e perpetuando… Não tem fim. Um Povo que não conhece suas origens e, não sabendo de onde veio, dificilmente tem noção de onde quer chegar. Infelizmente, assim é o nosso Brasil. Nosso Povo não está muito aí para quem somos não.

Quer dizer que o brasileiro não é habilitado para operar “equipamentos importados”? Que equipamentos são estes, meu Deus do Céu!?

Aqui e em qualquer lugar do mundo, motores, bombas, compressores, separadores centrífugos, equipamentos de navegação, Top Drive, Draworks, Umbilicais, ROV, Árvores de Natal, Sistemas de DP, BOP’s, Bombas de Lama, Cunhas, Chaves Flutuantes, Guindastes, lambaios etc são operados seguindo-se um padrão. Não há muito o que fugir disso, a não ser que a Agência Espacial Norte Americana, a NASA, resolva entrar no Oil Business agora… e mesmo assim garanto que muito cara safo ia tirar de letra.

Particularmente eu me sinto ofendido com uma afirmação dessas. Trabalho como Coordenador de Manutenção de uma Plataforma de Perfuração, tenho profissionais de diferentes nacionalidades subordinados a mim, dentre eles estadunidenses, europeus e asiáticos e vejo, cada dia mais, que não é a nacionalidade que define o padrão do trabalho do profissional, mas sim sua qualificação, seu perfil e interesse. Vou dar o exemplo da área de Elétrica, área onde pairam diversos mistérios e pavões enfeitados, onde tudo é cabuloso e obscuro… O meu melhor profissional a bordo nesta área é um brasileiro, rapaz novo, de Santa Catarina e já vi empresas que colocam como exigência operacional um profissional dessa área que seja expatriado. Por outro lado, minha equipe opera e faz a manutenção de equipamentos de toda parte do mundo, de fabricantes como National Oiwell Warco, Caterpillar, Elmago, Wesfalia, Bauer, Rockwell e outros.

Eu fico imaginando e permito-me fazer um paralelo com uma estória já conhecida, onde o estrangeiro é visto como “Doutor” e o brasilerio é visto como “peão”.

Esta estória é muito boa sim, mas é conversa mole pra boi dormir…

Força e Honra! Sempre!

Por Rodrigo Cintra

12 COMENTÁRIOS

  1. Concordo que os brasileiros são tão habilitados para trabalhar com qualquer equipamento como qualquer estrangeiro, até por que como você mesmo disse, os equipamentos tem seus procedimentos padrões na hora de operar e o está manuseando não muda isso.

  2. Nelsiane, isso é coversa que convence somente os leigos mesmo. O pior é que uma pessoa dispara uma declaração infeliz e as outras vão seguindo… todas pessoas influentes, pessoas públicas, com enorme poder de decisão em suas mãos.
    Infelizmente estamos à mercê disso no país, pois não temos nenhuma profissão offshore regulamentada, o que enche a nossa área de leigos dando “orelhadas” e, pior, decidindo sobre nosso futuro

  3. Faz muito tempo que nao vejo um brasileiro com um pensamento tao racista e lastimosamente exagerado.
    Eu sou estrangeiro… me formei no ciaga, e realmente os brasileiros estao na altura do profesionalismo de qualquer “gringo” e mutas vezes ate mais.
    Mas dizer que as leis migratorias aqui sao faceis de serem resolvidas eh uma grande falacia…alias umas grande mentira.
    So quem vive em carne propia o rigor das leis para se trabalhar no brasil e o maravilhoso tratamento que a PF mantem com nos, pode opinar sobre o tema, as ameacas mais potenciais para seu futuro nao estao fora das tuas fronteiras mas sim dentro delas… vamos torcer entao para vc ficar feliz e que uma faculdade como a ESTACIO comence a formar oficiais como foi um projeto gerado no congreso um par de anos atras e mostrado na revista do sindimar no 2007.
    Hoje em dia, voces tem aquele “salario” por causa da falta de mao de obra… e nao tem brasilero mercante sem trabalho, jah parou pra pesquisar como eh a logistica de pessoal em emrpessas como teekay e norlkan e o que eles facem com os estrangeiros quando tem brasilero no seu lugar? Fica como tarefa parar pra pensar um pouco antes de largar o dedo no blog… Doutor.

    • Não vou iniciar uma polêmica pelo site, mas gostaria que você me mostrasse aonde está o racismo na minha matéria.
      Sabe quem é um dos meus melhores amigos?
      Rodolfo Aristides Parker Morellos, panamenho. É um irmão. A única diferença entre ele e um irmão é a de que ele não nasceu da minha mãe.
      Não acredito que a solução seja formar Oficiais na Estácio, mas sim investirmos em qualidade nas Escolas, e não somente em quantidade, como acontece hoje.
      Veja que o foco da minha matéria foi justamente a justificativa usada para termos uma enxurrada de estrangeiros aqui no país.
      Um forte abraço e aguardo sua resposta.
      Ainda não sou Doutor, mas quem sabe um dia, quando nossa profissão for regulamentada, a gente não tenha diversos doutores nas diversas área que envolvem a Marinha Mercante e a Indústria Offshore.
      Me desculpa se minha matéria te ofendeu. Tenha a mais absoluta certeza de que esta não foi minha intenção.
      Conto com sua participação em nosso site

  4. Olá Gutierrez!
    Como meu fera eu tenho um carinho especial por você!
    Primeiramente, não consideramos você nem um estrangeiro mais, você já é da família mercante Brasileira, se formou no CIAGA, e é uma exclente pessoa.
    Realmente, há uma discriminação enorme da nossa PF com estrangeiros, mas somente com provenientes dos chamados “Países Subdesenvolvidos”, ou em retaliação a países como Espanha, que Ph… com brasileiros no setor de imigração.
    Eu presenciei uma cena que deve descrever muito bem o que você deve estar sentindo. Tive a oportunidade um projeto ainda na fase de contrução, na China. Relizamos a viagem, da China para cá, a princípio somente com 5 brasileiros. A equipe de Hotelaria da Plataforma, soldadores , e outras funções foram preenchidas com Malaios, Indonésios, Filipino, e até Sul-africanos. Quando chegamos no Brasil, a PF estava no cais aguardando esse pessoal para escolta-los até o aeroporto, e olha q eles tinham bastante dinheiro e tinham a intenção de gasta alguma no Brasil.
    Já o pessoal do Norte Europeu, mal tiveram seus passaportes checados, e alguns pararam na delegacia no dia seguinte…
    Infelizmente, o Brasil se parece com “primo de classe média baixa”, que gosta de andar com os “primos ricos”, e têm vegonha dos “primos pobres”.
    Se você reparar bem, o foco foi exatamente esse : “Somente pessoas provenientes de Paises desenvolvidos são capazes de operar equipamentos de última geração”, mas essa frase estaria grande demais para o Cintra colocar como título!
    Saudações marinheiras!

  5. Isso tudo é muito bonito na teoria, mostra uma legislação supostamente forte e preocupada em defender os postos de trabalho do sbrasileiros, mas quem trabalha embarcado sabe que, na prática, a coisa não é bem assim. Os desrespeitos à RN 72 são comuns, mais do que deveriam, e os estrangeiros inundam nosso Mercado, ocupando postos que poderiam ser ocupados por brasileiros.

    Nao entendo seu problema com estrangeiros, se eles trabalham aqui no Brasil e porque a constituicao brasileira lhe garante esse direito.

    • Não tenho problema algum com os estrangeiros. Meu problema é com a afirmação de que os brasileiros não são capacitados para operar equipamentos importados e com o uso dessa infeliz afirmação para que se justifique uma enxurrada de profissionais expatriados em nosso país, ocupando vagas que poderiam ser ocupadas por brasileiros. Nossa legislação é forte somente no papel, pois na prática, ela simplesmente não é respeitada.
      Obrigado por sua participação, Ana.

  6. CONCORDO COM NOSSO AMIGO EU SOU MARINHEIRO DE CONVES COM INGLES E NAO ESTOU VENDO ESSA ESCASSES DE MAO DE OBRA QUE TANTO FALAM POIS EU ESTOU A PROCURA DE EMPREGO TENHO SIM EXPERIENCIA POIS ATUO NA AREA DE OFF SHORE DESDE 1982 E ENVIO MEU CV E NAO TENHO RESPOSTA !! OQ ESTA HAVENDO ? SERA MESMO QUE NAO TEM VAGA NA AREA ?? PQ ESTAO TIRANDO NOSSA MAO DE OBRA? POIS VEJO SIM A CADA DIA MAIS MAO DE OBRA DE FORA TRABALHANDO EM NOSSAS AGUAS E MEUS COMPANHEIROS NAS FILAS QUERENDO TRABALHAR E NAO CONSEGUEM!! OOOO LUPI!!

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