Peregrinos do Petróleo

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Acredito que esta pauta renda bem mais do que um texto. Ela se trata de uma situação cada vez mais comum, que são as centenas de pessoas que vêm de várias partes do país, principalmente do nordeste, e vivem em Macaé completamente sem dinheiro por meses a procura de algum emprego na área offshore.

A partir deste texto e valendo para os demais que vierem, os nomes dos entrevistados serão fictícios para não expor os trabalhadores negativamente. Obviamente, esse tipo de menção atrapalharia em vez de ajudar.

Jader é um homem de 30 anos natural de Quixadá, no sertão cearense, próximo à região metropolitana de Fortaleza. Desde muito pequeno, já ajudava sua mãe, a costureira Judite e seu pai Ederson, um artesão que levava suas obras, pequenos artefatos de madeira até a beira da estrada, onde os punha à venda. Entre tecidos e entalhes, estava lá ele, Jader, tentando dividir com os pais um pouco do peso que era fazer sobreviver uma família na seca do nordeste.

Não que não fosse feliz, mas Jader tinha uma vida muito difícil

Cresceu e, por influência do marido de uma das patroas de dona Judite, foi estudar na capital. Não era nada demais, mas uma vaga num colégio mediano da capital era a maior chance de mudar o destino de Jader, Judite e Ederson.

Curiosamente, Jader era filho único, algo que não é muito normal no nordeste. No entanto, isso aconteceu porque dona Judite nunca pôde ter filhos, e Jader havia sido dado ao casal por força das circunstâncias das mortes de seus pais biológicos.

Na capital, Jader se dedicou e formou-se técnico em mecânica. Também por influência de um antigo patrão de Judite, logo começou a trabalhar numa oficina, depois numa fábrica até que foi para a Indústria Naval do Ceará, um estaleiro de navios de pequeno e médio porte. Lá, Jader se qualificou como soldador e num bate-papo com os amigos na hora do almoço, percebeu que, entre tantas opiniões, uma delas era unânime: o sonho de ir para Macaé e trabalhar no offshore.

Entre as garfadas na bóia, o sonho de embarcar

Só podia ser um sonho, mesmo. Ele, que nunca havia saído do Ceará, nem imaginava ter recursos para a viagem Fortaleza x Macaé ; que ganhava pouco mais do que R$ 1.000,00 mensais e sustentava sua família de maneira praticamente integral, como iria enxergar uma realidade onde ganharia o triplo do seu salário atual, mais benefícios que nunca teve em vida?

Junto com mais três colegas, Jader pediu demissão da Indústria Naval do Ceará e, munido do dinheiro da recisão, comprou uma passagem de ônibus para o Rio de Janeiro. Como nunca havia viajado na vida, foi primeiro à capital do RJ, pensando que Macaé ficava na região metropolitana. Na rodoviária mesmo descobriu que não era e comprou uma passagem no mesmo dia, para Macaé.

Chegou na capital brasileira do petróleo e se hospedou numa pensão. Largou a única bolsa que tinha no armário e saiu com uma pasta a buscar as empresas. Sua vida agora era andar por Macaé em busca de emprego. Foi neste momento que os olhos de Jader começavam a desembaçar e focalizar a verdadeira situação em que houvera se metido.

Já na primeira semana, Jader já tinha conhecido dezenas de outros como ele, mas o sonho persistiu vorazmente, até que o dinheiro de sua demissão acabou e não havia mais como continuar na pensão. E agora? Como iria comer? Onde iria dormir? Os nós que atavam suas mãos eram tão fortes, que nem mesmo desistir era uma opção, porque não tinha dinheiro para voltar para casa.

Sem teto e sem dinheiro, Jader se tornou mais um dos Peregrinos do Petróleo. Para comer e vestir, buscava entidades filantrópicas, tomava sopões e para encarar o frio noturno, vestia agasalhos doados. Mesmo assim, acordava todos os dias e ia buscar seu emprego.

Todas as noites, era essa a realidade de Jader

A cada dia, o pessimismo aumentava. Do grupo, ninguém havia conseguido nada e muitos, de tempos em tempos, iam pegando o pouco que conseguiam e voltavam para casa. O que segurava Jader era, curiosamente, o fato de não ter segurança alguma. Ele não tinha escolha. Tinha que ficar.

Enquanto isso, Judite e Ederson continuavam no sertão, trabalhando, mas sem a ajuda de Jader, que não se comunicava com os pais desde então.

Assim como este texto, a história de Jader ainda não encontrou um final. Enquanto os jornais falam da falta de mão-de-obra todos os dias, pessoas como Jader passam fome em Macaé a procura de trabalho. Por que isso acontece? Qual é a verdade a respeito do mercado de trabalho? Será que não são qualificados o bastante?

Uma coisa é certa: O Petróleo redesenhou muitas coisas, inclusive o êxodo.

Um forte abraço, pessoal!

Por Marcus Lotfi

5 COMMENTS

  1. Este conto vai além, Lotfi, muito além de onde você possa imaginar. Passa por seguranças de empresas rasgando currículos deixados na porta das mesmas, até porque a maioria quer uma “boquinha” do lado de dentro, falsas agências de RH em Macaé ludibriando trabalhadores e até mesmo a baixa qualificação dos mesmos, isso sem falar nos diversos oportunistas de plantão.
    Mesmo assim, meu caro, ainda há muitos desses que conseguem seu lugar ao Sol, após muita persistência. Dei um embarque agora rendendo férias em minha antiga plataforma e soube que o cunhado de um dos mecânicos, vindo de Salvador/BA, após mais de um ano “dando cabeçada” em Macaé, entrou em uma empresa como Homem de Área e em poucos meses já é Plataformista… E DOS BONS.
    O Êxodo realmente foi redesenhado e cabe às Autoridades criar políticas públicas visando qualificação e empregabilidade não somente em Macaé, mas em todo o Brasil e isso inevitavelmente passa pela redduscussão dos Royalties o e combate à Corrupção. Como fazer isso? Não pergunte a mim, mas que tem que ser feito… ah isso tem. É para isso que usamos nosso voto, para eleger os nossos representantes e estes sim elaboram as regras do jogo.
    Parabéns pelo texto e cabe àqueles que hoje se encontram em situação semelhante lutarem e persistirem sempre lembrando que sem qualificação, não adianta MESMO.

  2. Engraçado que para nós, aqui do nordeste, Macaé é a cidade das oportunidades e das realizações!
    Esse texto dá um “check” em tudo aquilo que imaginei e em todas as conversas entre colegas que pretendem ingressar na área marítima.
    Infelizmente realidades como esta não chegam a mídia, são todas “mascaradas”, deixando-nos acreditar que a situação é outra.
    Nossa esperança é acreditar que mais pessoas como Chris Nielsen cheguem “ao poder” e revertam essa realidade. Pedindo apoio de colegas, amigos, conhecidos e até mesmo desconhecidos em ajudar pessoas como ela a chegar “no poder”, não suporto mais ver sanguessugas prejudicando nosso futuro.
    Nós cidadãos temos o poder, temos condições de mudar a realidade do país, tudo através de um ato simples, o VOTO. Eu fico muito triste quando ouço falar à respeito de pessoas que trocaram seu “direito à mudanças” simplesmente porque foram beneficiados de alguma forma por políticos corruptos. Uma cesta básica? Realidade comum no nordeste!
    Pessoas que apenas conseguem ver o hoje, pessoas sem visão de futuro e totalidade. Mas eu não as culpo, porque esse tipo de cidadão é “projeto”, de muitos anos, da politicagem. Como chegar ao poder se existem pessoas conscientes/esclarecidas??? Para eles, pessoas “influenciáveis” é mais interessante para a política do país.

  3. A realidade transcrita em poucas linhas, simplismente perfeito o texto acima.Infelizmente eu conheço pessoas nesta situação e eu mesmo estou desde 2009 tentando uma vaga no mercado offshore honestamente e nunca consegui, apesar de ser qualificado com curso técnico e ter os cursos exigidos para embarque..

    Torno a repetir, excelente matéria uma das melhore que já li nos últimos tempos.

  4. Já ouviram algum opositor ao Governo dizer na mídia: “…esse Governo é marqueteiro…”. Provavelmente essa é uma das explicações do porquê muitos não conseguem trabalho em Macaé. A meu ver, o Governo simplesmente usa a cidade de Macaé como marketing de que está gerando muitas vagas de trabalho, e ainda diz que falta profissional qualificado.

    Dizer que falta profissional qualificado nada mais é que uma estratégia para fazer o povo estudar. Nada contra sobre estudar, porém devemos estudar e ter oportunidades de colocar em prática aquilo que estudamos. Nesse estratagema também saem ganhando as escolas que ministram cursinhos e/ou treinamentos de qualificação para os alunos que sonham em trabalhar na área petrolífera.

    Em toda essa situação ainda existe espaço para outros sair lucrando, como as agência de emprego. Imagino que dá até para tirar onda na hora de contratar um candidato a emprego por causa da grande oferta de pretendentes a trabalho em Macaé. Acho que dá até para brincar de mini poderoso feudal ou grande césar no pedastal do coliseu de roma com o dedo para cima ou para baixo eliminando a bel prazer. Aí vem o Q.I. e acaba com a festa. :P:P:P Ou em outras palavras, sem Q.I. fica muito difícil, afinal, invadir terrotório alheio sem ser apresentado por pessoas com credibilidade, torna-se praticamente impossível obter êxito.

    Só uma opinião, talvez ajude…

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