Alexandre Castro, Presidente da ABTN, fala sobre o Costa Concordia

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O naufrágio do navio de cruzeiro Costa Concordia na costa da Itália, foi fruto de uma situação “completamente atípica e injustificável” de descumprimento das regras marítimas internacionais, segundo o Presidente da ABTN (Associação Brasileira dos Tripulantes em Navios de Cruzeiro), Alexandre Castro. Para ele, as normas estão adequadas, mas o treinamento dado a “tripulantes não marítimos” (como fotógrafos e garçons) e passageiros dos navios de cruzeiro está desatualizado.

Especialista em segurança no mar, Castro confirmou que o acidente foi provocado por um erro humano e defendeu que as regras internacionais de navegação estão em dia, mas disse também que é preciso reformar algumas das normas de segurança para navios de cruzeiro.

No entanto, apesar de admitir que o Capitão do Costa Concordia, Francesco Schettino – preso logo após o acidente, acusado de homicídio pelas 11 vítimas já confirmadas no naufrágio – errou, Castro alerta que o Comandante pode não ser o único culpado pela tragédia.

– Esse Comandante não errou sozinho. Outros oficiais também deixaram a situação chegar aonde chegou. Equipamentos para evitar o acidente, eles tinham. Esses erros foram um efeito dominó, e ele não deve ser o único condenado.

De acordo com Castro, está claro que o acidente foi provocado por uma série de erros – como se aproximar perigosamente da costa sem observar os equipamentos de radar para detectar a rocha que rasgou parte do casco do navio.

Mas, para o especialista, a parte mais “dolorosa” do acidente está na postura do capitão ao abandonar o navio. Segundo Castro, Schettino violou uma “convenção mãe” da segurança marítima, a Convenção SOLAS (Salvaguarda da Vida Humana no Mar, na sigla em inglês) ao abandonar o barco antes dos passageiros.

– Em primeiro lugar, ele [o Capitão] é a autoridade máxima dentro do navio, até porque as normas internacionais de gerenciamento de segurança delegam a total autoridade com relação às emergências para ele. Isso vai completamente contra as regras de segurança.

O Capitão não pode coordenar as operações de comandante ou qualquer outro tipo de situação de emergência de terra firme ou do porto. Para você ter uma ideia de como ele descumpriu as regras de segurança, nem o Capitão do Titanic abandonou o barco, e naquela época ainda não existia nenhuma legislação.

Segundo Castro, o acidente pode ter sido provocado por uma postura “romântica” do capitão, que queria supostamente homenagear um amigo da ilha de Giglio, onde o navio afundou após se aproximar demais da costa.

– Ele foi extremamente infeliz nessa decisão. Ele pode ter feito isso por amizade, romantismo, simpatia etc., mas tem horas em que você precisa ter 100% de seriedade.

Passageiros precisam de treinamento

Professor de Técnicas de Segurança Marítima e especialista em Gerenciamento de Crises e Controle de Pânico, Castro afirma que as normas de segurança da IMO (Organização Marítima Internacional, órgão máximo da lei marítima mundial) não estão defasadas e que o descumprimento destas leis levou ao acidente.

No entanto, ele alerta que o treinamento dado a “tripulantes não marítimos” (como fotógrafos e garçons) e passageiros dos navios de cruzeiro em controle de pânico é inadequado.

– Os passageiros levam na brincadeira e a IMO tem que dar mais atenção a isso. Acredito que o naufrágio do Costa Concordia possa levar a mudanças nesse sentido. O passageiro do navio de cruzeiro precisa ter uma informação mais clara sobre as regras de segurança principalmente antes de embarcar. No momento em que ele é levado ao treinamento atual, que não é tratado com irresponsabilidade, ele não presta a devida atenção. O passageiro de primeira viagem até dá atenção às instruções, mas o mais experiente não. Por isso, uma das principais causas de acidentes marítimos é familiarização excessiva com os navios.

Além disso, segundo Castro, garçons, salva-vidas, cozinheiros e outros profissionais que não fazem parte da tripulação marítima essencial ainda recebem um treinamento aquém do que é necessário para o gerenciamento de crises e controle de pânico. Muitas vezes trabalham mais horas do que é permitido pela IMO aos demais tripulantes, mas ainda possuem um papel importante nos momentos de crise em um navio de cruzeiro.

Desde o naufrágio do Titanic, em 1912, mais de cem resoluções foram criadas para dar mais segurança às viagens marítimas – e a cada novo acidente grave, a IMO continua a estabelecer novas regras.

De acordo com Castro, a expectativa agora é de que o naufrágio do Costa Concordia leve a entidade a discutir novas convenções de segurança e controle de pânico entre passageiros e tripulantes.

No entanto, outro ponto abordado pelo especialista é com relação aos móveis nos navios de cruzeiro – que normalmente não estão “pregados” ao chão devido a questões de “luxo”.

– Isso [móveis soltos] compromete muito a segurança, principalmente no caso de mau tempo. Muitas vezes os projetos de navio cruzeiro não levam em conta a segurança, mas sim a beleza e o luxo da embarcação. Tem que travar os moveis no chão! Essa pode ter sido a causa do desaparecimento de algumas pessoas no Costa Concordia. Elas podem estar em setores do navio presas atrás de móveis.

Com a sinformações – R7

Nota do entrevistado – Em relação ao fato de ser uma transgressão o Comandnate abandonar o navio, o ISM Code, que foi absorvido pelo SOLAS, sendo, agora, um capítulo do mesmo, decide isso em seu sistema de gerenciamento.

*Alexandre Castro também é Presidente tbm da SOBEA (Sociedade Brasileira de Enfermagem Aquaviária) e Diretor Geral do Grupo Berit, que fornece serviços de treinamento em excelência para tripulantes de cruzeiros e empresas. Conheça o Grupo Berit clicando aqui.

Por Rodrigo Cintra

4 COMMENTS

  1. Olha ai maritimos, mesmo sendo terraqueo fiz os mesmos comentarios, que foram questionados burramente
    Basicamente a seguranca consiste na observacao, cumprimento de normas, identificacao e correcao de erros.
    Nao preciso de bola de cristal, nem ser dono da verdade como foi comentado
    E so nao ser burro
    Parabens Sr. Alexandre Castro, se houver interesse tenho varias ideias para melhorar a seguranca neste tipo de embarcacao, inclusive antes do embarque, se houver ointeresse estou a sua disposicao

  2. Segundo as informações do “especialista em segurança”as normas estão adequadas, mas o treinamento dado a “tripulantes não marítimos” (como fotógrafos e garçons) e passageiros dos navios de cruzeiro está desatualizado.
    Nào se deve tecer alguma opinião sobre acidentes marítimos sem antes houver uma investigação minunciosa e um laudo técnico emitido pela autoridade competente.
    A princípio cabe ao grupo de investigação saber as causas do acidente e promover meios para que este tipo de acidente não se repita.
    Cabe a polícia denunciar e a justiça julgar os responsáveis.
    Vi muita besteria sendo dita na televisão, justamente por “especialistas em Segurança”.
    No mínimo o especialista deveria citar a sua formação, em qual os quais instituições obteve o título de especialista. Me desculpem mas isso é patético para um oficial da Marinha Mercante, pelo menos é o que eu acredito que este senhor seja.

  3. Caro Helio, existem vários pontos de vista que podem ser conflitantes, concordo com o do Sr. Alexandre Castro e não vejo nada patético.
    O que pude constatar através deste site e outros e que muitas pessoas da marinha mercante não possui conhecimento do que se passa em navios de lazer.
    A maioria, por não frequentarem este tipo de embarcação e trabalharem em navios mercantes onde os treinamentos, o controle e o respeito as normas de segurança são mais respeitados.
    Em visitas a navios mercantes isto me pareceu claro, principalmente em navios de países comunistas, onde a disciplina e realmente levada a serio, pois o controle e punição e realmente são aplicados com rigor.
    Nao sou um especialista na área marítima e tenho pouco conhecimentos das normas vigentes, mas tenho formação em engenharia civil, administração de empresas e engenharia de segurança do trabalho, atuando nestas áreas.
    Trabalho também com comercio internacional principalmente na Asia.
    Em minhas viagens de trabalho e lazer a varias outras partes do mundo pude constatar que a cultura e o regime comunista fazem da China a maior potencia industrial do mundo atualmente, com um crescimento econômico incomparável, justamente por ser rigorosa no controle de suas atividades.
    A maioria ignorante, que nunca conheceu este pais fala que tudo que e feito na China e de péssima qualidade, que o e trabalho escravo e a mão de obra e barata e de baixa qualidade sem nenhum conhecimento de causa.
    E importante lembrar que para se alimentar, abrigar, medicar, etc, uma população de 1 bilhão e trezentos milhões de pessoas em um território de dimensões continentais e ainda ser uma SUPERPOTENCIA e preciso de muito controle, eliminando as causas dos problemas pela raiz.
    A maioria do que e comercializado no Brasil e de baixa qualidade, proporcional ao preço pago pelas mercadorias e com sonegação de impostos, e por este motivo e que são baratas.
    Fiz este comentário para ressaltar de que a disciplina e fundamental em qualquer atividade e que realmente faz a diferença, assim como o bom senso e a índole das pessoas.
    O que aconteceu com o Costa Concórdia não foi propriamente um acidente, pois um acidente seria fundamentalmente um fato não premeditado, imprevisto, não ocasionado de forma intencional.
    Totalmente diferente do que ocorreu neste naufrágio onde a embarcação foi deliberadamente posta em risco por motivo injustificado e ainda abandonada pela pessoa mais capacitada para controlar a situação.
    Não e preciso ser nenhum especialista, oficial de marinha ou ate um MANDRAQUE para se observar e constatar isto.
    Ninguem esta julgando o comandante ou a tripulação daquele navio, apenas ressaltando que inaceitável o que ocorreu, independentemente de normas, treinamento ou seja o que for.
    Era um navio de passeio, comandado e tripulado por especialistas e profissionais da área, treinados para o transporte de pessoas, alheias aos riscos existentes em viagens marítimas, sendo que estes PROFISSIONAIS tinham a FUNÇÃO E OBRIGAÇÃO de garantir a segurança e a integridade física daquelas pessoas, principalmente por que ERAM PAGOS PARA ISTO.
    O bom desempenho da segurança do trabalho em qualquer atividade consiste basicamente em observação, analise de riscos pertinentes a atividade e principalmente o cumprimento de normas, sempre procurando identificar novos riscos existentes.
    Também e necessário repetir continuamente estes procedimentos, pois com o passar do tempo existe o relaxamento comum em atividades repetitivas.
    Muita coisa mesmo passa desapercebido, ignorado ou simplesmente deixado de lado em navios de cruzeiro, onde os interesses financeiros prevalecem.
    Realmente pude constatar que isto ocorre, pois recentemente fiz uma viagem como passageiro e vi que foi mencionado pelo Sr. Alexandre e perfeitamente correto.
    Geralmente as pessoas que não estão envolvidas em uma atividade profissional conseguem identificar coisas que as que participam não conseguem enxergar e e muito importante que elas sejam ouvidas, Comentários de não marítimos são importantes e devem ser levados em consideração, também neste caso, pois a visão deles e muito mais ampla e merece ser analisada por não estarem bitolados.
    Nao e necessário que um especialista de segurança deva ser um oficial de marinha ou seja o que for, o importante e ter capacidade e saber analisar os riscos para saber elimina-los.
    Espero que ninguém se sinta ofendido, esta não e minha intenção,
    Obrigado Tadeu Sobocinski Junior

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