Mais do mesmo II – Grupo de Estudos sobre a Cabotagem esbarra adivinhem no quê?

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Visando a discussão de soluções estruturais e o estabelecimento de prioridades para o melhor aproveitamento da matriz logística, em especial as oportunidades oferecidas pela cabotagem, a ECR criou um grupo de estudos de cabotagem, que reunia representantes de consultorias, universidades, empresas e órgãos públicos como a Secretaria de Estado dos Transportes de São Paulo.

O grupo, já extinto, tinha como objetivo integrar os vários agentes da cadeia de abastecimento (embarcadores, recebedores, operadores logísticos e provedores de serviços de transportes rodoviário, ferroviário e aquaviário) e debater o desenvolvimento de melhores práticas para o modal, mas a iniciativa não resistiu.

Claudio Czapski, que estava à frente deste grupo explica que, ele funcionou por mais de um ano, tendo avançado bastante no diagnóstico. Porém, as dificuldades na obtenção de números reais das operações, que seriam necessários para subsidiar propostas de mudanças estruturais ou eventuais demandas às diferentes esferas de governo para combater algumas das barreiras existentes impediram a continuação do grupo. “Essas barreiras envolveriam renúncias fiscais, alterações em leis, entre outros. Por ser um setor, relativamente pequeno, números são bastante difíceis de serem obtidos, pois, por exemplo, os custos operacionais de embarcações de diferentes portes ou cumprindo rotas diferentes, são bastante díspares”, explica Czapski.

De acordo com o especialista, há, ainda, fatores oportunísticos, como a data do fechamento do frete em função da disponibilidade de rota e capacidade disponível, bem como a dificuldade estrutural que a cabotagem, de um modo geral, envolve quase sempre duas pernas adicionais em outro modal, do embarcador até o porto de saída e do porto de chegada até o recebedor. “Consequentemente, isso tudo, evidencia que quaisquer cálculos são bastante complexos e foi neste ponto que encontramos um entrave”, diz.

Para ele, o modal ainda não conseguiu alcançar mudanças muito significativas. “Ainda existe um enorme potencial não suficientemente explorado e permanece o dilema de como viabilizar os investimentos estruturais indispensáveis ao desenvolvimento como, por exemplo, como tornar mais atraente o uso da cabotagem. Neste sentido é necessário que haja maior freqüência de navios e maior abrangência de portos. Até que se atinja uma utilização suficiente desta oferta, haverá um período de ociosidade parcial que pode representar uma operação, que sequer cobre os custos e quem banca este período?”, questiona o especialista.

Outro ponto que Claudio Czapski aponta é a questão da integração multi-modal e custos das operações portuárias , bem como a formação de uma tripulação qualificada que, hoje, se dá em ritmo insuficiente. “Não podemos esquecer que também temos de vencer barreiras culturais de um setor logístico quase que integralmente desenhado e operado pelo modal rodoviário”, afirma.

De acordo com a Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) , a cabotagem cresceu 41,2% nos últimos dez anos, no entanto, mesmo assim, utilizamos cerca de 1/3 deste meio de transporte. Para o especialista, este crescimento, porém, pode ser visto da seguinte forma: “O aumento de altas taxas é comum em atividades sub-utilizadas e qualquer pequeno crescimento é visto como percentual de uma base reduzida que sinaliza uma taxa elevada”, diz.

Czapski  crê que  houve um aumento significativo do modal, pois os operadores do setor fizeram importantes investimentos para aumentar a frequência e a disponibilidade em rotas prioritárias, mas, além disso, se agravaram as condições e custos do modal rodoviário predominante. “A conjugação desses elementos – custos e investimentos –  certamente alavancou a cabotagem , mas ainda há muito a fazer, gargalos importantes que precisam ser vencidos”, diz.

Entraves

O especialista aponta problemas estruturais no setor, especialmente de cunho fiscal, de operações e burocracia portuária, bem como a integração multimodal. “Além, é claro, da ausência de ações de marketing que promovam as vantagens competitivas da cabotagem dentre as empresas que contratam e operam a logística de grandes volumes”, sustenta.

Para Cláudio o crescimento lento da cabotagem está atrelado a outros pontos. “deve-se considerar as questões de investimentos de capital particulares ao setor naval, custos e tempos de produção de navios. Assim como também, a flexibilidade para diferentes tipos de carga, financiamento e respectivo retorno deste investimento. Além das restrições/protecionismo que limita a competição internacional na produção e operação”, diz.

Para o especialista, a cabotagem pode aumentar a eficiência da cadeia de abastecimento oferecendo uma alternativa potencialmente de menor custo e risco para cargas de grande volume em distâncias médias e longas, “o que traz como benefício complementar, a redução potencial de caminhões nas estradas do Brasil o que, entre outros, agrega em termos ambientais”, aponta.

Perguntado se acredita que  daqui para a frente, por conta da renovação da frota de cabotagem, é possível identificarmos a migração de determinadas cargas para a cabotagem, Cláudio explica que a logística é fortemente lastreada na matemática, ou seja: “De um modo geral, busca-se a maneira mais custo-efetivo de levar mercadorias de um ponto para outro analisando as alternativas técnicas à disposição. Na medida em que a cabotagem se mostre vantajosa nesta análise, certamente será capaz de capturar uma fatia maior do mercado de transporte”, argumenta.

O grupo

A iniciativa de criação do grupo de estudos da cabotagem, que Cláudio esteve a frente, tem como pano de fundo a ECR, uma associação voltada á busca da eficiência da cadeia de produção e distribuição de produtos de consumo, em benefício do consumidor. Neste contexto, um dos temas tratados é a logística, onde, segundo Claudio Czapski , a alta concentração no modal rodoviário, certamente traz uma série de custos e riscos que poderiam ser reduzidos ou até eliminados, com uma matriz de transporte mais diversificada. “A cabotagem, neste sentido, desponta como um recurso com potencial acima de sua efetiva participação. A ideia do grupo era avaliar melhor este potencial e seus benefícios, bem como barreiras e limitações para seu desenvolvimento, com vistas à adoção de medidas cabíveis  para minimizar barreiras e ampliar oportunidades”, diz.

Para ele, um grupo onde estejam reunidos não apenas os representantes das empresas prestadoras de serviços logísticos em geral e de cabotagem, e também embarcadores, recebedores e todos os outros envolvidos no transporte de ponta a ponta pode agregar a discussão sobre este meio de navegação. “Muitas vezes, é na interface entre as atividades de algumas empresas que se encontram grandes oportunidades pouco exploradas, por não haver ninguém responsável por isso”, finaliza.

Texto de Andrezza Queiroga

Com as informações – Guia Marítimo

Por Rodrigo Cintra

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