Praticagem safa?

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Assim como a evasão, tema do meu último texto por aqui, outro reflexo deste mercado escancarado por oficiais de Marinha Mercante é o despreparo dos novos oficiais. Estava conversando outro dia com dois praticantes de máquinas recém-formados e descobri duas coisas: Uma é que a idéia de que a EFOMM não prepara os alunos já é fixa entre eles e a outra é que está todo mundo acostumado com isso, “porque na praticagem safa”. Mas a praticagem safa mesmo?

Eu acho que a praticagem dá o mínimo necessário para que o oficial possa embarcar sem matar ninguém. Tem gente que diz que é o suficiente, tem gente que diz que é muito pouco, enfim. Um médico, para cuidar de uma vida, estuda seis anos e mesmo assim encontrei com muitos despreparados nos últimos meses acompanhando a gravidez e parto da minha esposa. Que dirá, meu Deus, um oficial mercante, responsável por dezenas, às vezes centenas de vidas, estudar meros três anos e embarcar seis meses, quando embarcam!

Pois é, meus amigos, quando embarcam. Não é segredo que rola um cambalacho brabo de falsificação da CIR para que esse embarque dure menos tempo. Imaginem, só: o que já era pouco virando quase nada.

O fato é que esses recém-formados acabam sempre caindo neste ralo de empregos. São absorvidos de qualquer jeito, porque são raros, então não importa se estão crus.

Se as empresas investissem em treinamento, beleza! Em menos tempo de formação, a Marinha e as empresas investem menos na EFOMM, economizam, e poderiam até existir espécies de convênios com as empresas, dividindo a formação do aluno, ora na Escola, ora na empresa. Isso seria simplesmente excelente para os alunos.

Simplesmente excelente, mesmo. Tiro por mim, que abandonei a EFOMM sem sequer saber o que era. Já estava indo para o segundo ano de náutica sem ao menos saber direito a diferença entre uma especialidade e outra. Essa é a maravilhosa formação que os nossos praticas têm. Com o perdão da ironia, acho que muito dessa falsa preparação vem da cor…Aquela cor cinza que ocupa os gabinetes que beiram a Alegrete.

Em vez da Transpetro vir buscar os alunos na marra, como faz todos os anos, oferecendo bolsas, isso e aquilo, podem dividir o treinamento com a Escola, investindo em oficiais cada vez mais bem formados.

Não estou aqui falando de teoria, cuspe e giz, não! Estou falando de praticas por dentro do mercado, das manobras dos sindicatos, das legislações, da situação nacional e internacional da nossa Marinha Mercante. Estou falando de formar oficiais adaptados à realidade do mercado.

Sei que é um sonho distante, mas meu papel é mostrar a verdade dos fatos e mostrar a incoerência do que é em relação ao que deve ser. Como queremos uma Marinha Mercante melhor para todos, acredito que textos como esse devem ser lidos.

Rodrigo Cintra comentou no meu último texto sobre esses “inhos” que estão fazendo seus pés-de-meia há 20 anos, vivem falando mal de bordo, da empresa, da sombra…Para estes oficiais, pessoal, a formação está ótima. Pouco tempo, pouco esforço, pouca informação. Depois que embarca, pega rápido o “esquemão” da unidade e vira mais um “inho”, com seu empreguinho, seu salariozinho, dando seu servicinho.

Vou terminar o texto dizendo que sim, eu sei que a situação é complexa. Temos uma relação direta com o comando do CIAGA e sabemos das dificuldades políticas e financeiras, nessa ordem.

No entanto, é preciso mudar. Camarão que dorme, a onda leva.

Um forte abraço a todos!

Por Marcus Lotfi

15 COMMENTS

  1. é depois de vinte anos na escola será que aprendemos o jogo sujo ? para fazer alguma coisa diferente é só começar ., e ninguém começa nada pois não sou da escola ´´efomm´´
    mais tive contato com muitos que se formaram lá sei do preconceito que se sofre por não ser dela e também que todos que conheci fazem a mesma coisa querem ganhar seu salario e sacanear quem não se formou lá pois assumem funções de supervisão que pode ser de qualquer Professional qualificado . pois aqui fora também se forma profissionais . e deve-se sim acabar com essa sacanagem e preconceito . pois os gringos estão vindo para o brasil e apresentando estes ´´certificados ´´ não fazem nenhuma avaliação destes mesmos certificados pelos órgãos certificadores que exigem tanto do Professional BRASILEIRO.

  2. pois no mundo off-shore tem vários que fazem isso.
    chega!!!!
    pois funções de supervisor de manutenção de oim podem sim ser de qualquer profissional qualificado de formação Técnica ou superior do brasil.

  3. Prezados Senhores,
    É importante abordar alguns temas comentados no texto acima.
    Em primeiro lugar, Universidade alguma do mundo vai dar o conhecimento prático, seja ela qual for, esta é uma missão da praticagem e dos estágios em cada profissão. Em segundo lugar é importante que o aluno da EFOMM compreenda que a Escola está formando sua profissão de onde irá tirar o seu sustento no futuro e encará-la de forma séria. E com a mesma seriedade encarar o período de praticagem se dedicando ao aprendizado independente do compromisso da empresa ou do navio com sua formação. As deficiencias da formação podem ser compensadas parcialmente com compromisso profissional. Muita coisa precisa ser melhorada, é verdade, mas é imprescíndivel que o futuro Oficial se comprometa com sua própria profissão, senão se torna um aleijão profissonal que só terá emprego até que o mercado se equilibre ou com a formação própria ou com a importação de profissionais do mar de outros países.

    Saudações maquibambas
    Paulino SOARES NETO
    OSM

  4. O sucateamento do EPM nos últimos anos está criando um problema para todos que já estão no mar há anos e que hoje, por circunstâncias do mercado, são obrigados a lidar com estes alunos que as escolas vem “despejando” no mercado.

    Se os alunos que fazem o curso regular já vem com deficiências, imaginem os que vem do “supletivo” (ASOM/N), que tem uma carga horária 40 ou 50% menor?

    A praticagem existe para que o aluno ponha em prática aquilo que aprendeu na escola e não para aprender o que não aprendeu (o que eventualmente pode acontecer, mas não como regra).

    O problema é: se o supervisor deste aluno (o 2ON ou 2OM) tiver um ou dois anos de formado e uma formação tão ruim quanto a do praticante, logo serão dois profissionais mal formados a bordo ao invés de um!
    Comandantes e Chefes de Máquinas estão sendo forçados a “aprovar” estes praticantes em seus estágios, pressionados pelas empresas devido à necessidade de se ter “quantidade” de pessoal suficiente para os navios não pararem.

    No início dos anos 2000 a escola tinha um processo de “estagio de mar” que foi o melhor que vi em mais de 20 anos: Ao final do 1º ano, o aluno ia para bordo e ficava 3 semanas, vendo o que era a vida de bordo antes de decidir se escolheria Náutica, Máquinas ou “Casa”, desistindo do curso. No primeiro semestre do 3º ano, ia para bordo cumprir a 1ª parte da praticagem, que seria complementada no último semestre do 4º ano.

    A IMO não se opõe a este tipo de processo, mas algum “gênio” na DPC leu o “model course” do STCW e determinou que se passasse a fazer a forma como se tem feito há alguns anos: 3 anos de teoria e 1 ano depois, no mar.
    É isso que gera o outro problema: Quem, hoje, fica 1 ano no mar?

    Ninguém! e com isso os praticantes tem feito seus “embarques”, com a CIR ficando a bordo enquanto ele tem direito a repouso em casa. Infelizmente a MB do Brasil não parece estar preocupada com a formação de qualidade dos novos profissionais que estão indo para o mar e os Comandantes e Chefes nos navios tem que “dormir com um olho aberto e o outro fechado”!

    sds,

  5. Se safa ou não safa vai depender de algumas coisas, mas no final, chego à conclusão que a Praticagem não safa.

    Algo que sempre falei para os meus terceiros:

    1- Enquanto você é aluno da EFOMM, ou ACOM/N, ou ASOM/N, a responsabilidade (palavra muitas vezes confundida com “culpa”, e neste caso cai muito bem) é sua como aluno, que deve empenhar-se, da Marinha do Brasil, procurando oferecer a melhor formação possível e das empresas procurando apoiar o EPM de maneira EFETIVA e, neste caso, TIRO MEU CHAPÉU PARA A TRANSPETRO (PODEM FALAR O QUE FOR DA EMPRESA, MAS ISSO É INQUESTIONÁVEL).

    2- Quando você é Praticante, a responsabilidade é sua e da empresa. Sua pelo interesse em praticar o que aprendeu (ou o que deveria ter aprendido) na teoria e aprender mais coisas na prática e da empresa em conscientizar os profissionais a bordo que estes devem empenhar-se no treinamento do Praticante, se bem que isso eu acho que deveria ser intrínseco aos profissionais a bordo, pois é uma questão de sobrevivência do marítimo brasileiro e, por mais que um Praticante se interesse, se o pessoal de bordo não orientar, ele fica perdido a bordo SIM. Aí, são recursos da empresa despendidos para nada e uma profisisonal mal treinado no Mercado.

    3- Quando você já é um Oficial, a responsabilidade é TODA SUA! Se não houver interesse, se você não mostrar que quer aprender mais e mais, a empresa não vai investir, simples assim.

    Fora isso, há uma prática danosa na Marinha Mercante, de se colocar todos os profissionais num mesmo saco, como se fossem todos iguaizinhos, que nem “soldadinho de chumbo”. Cada profissional tem o seu valor, isso é inquestionável.

    Por que esse negócio de o cara achar que somente a empresa deve investir nele? Se o cara não investe em si próprio, que compromisso ele tem com a profissão em si? Me diz aí…

    Tanto curso interessante por aí e o cara não faz, pois acha que a empresa tem que dar o curso a ele. Tem SENAI, tem ABRAMAN, tem CREA, Fabricantes de equipamentos, universidades oferecendo pós graduações com uma série de facilidades e inclusive na nossa área ou áreas correlatas, como QSMS, Shipping, Gestão de Petróleo e Gás, Gestão da Manutenção, etc, etc e etc…

    Aí o que acontece: quem faz acaba abocanhando as melhores posições e o “reclamão” fica lá… marcando passo, reclamando da vida…

    Nem precisa muito. O Chefe Paulino sempre me ensinou e me aconselhou a ler os manuais no tempo vago. E não adianta tentar ler um manual do MCP, por exemplo, porque você não vai. Este, que é enorme, você vai consultar sempre e, de tanto consultar e depois fazer um serviço no motor, a coisa fixa na sua mente. O Chefe sempre pediu que eu focasse nos manuaizinhos de 20 páginas que têm nas Bibliotecas Técnicas do navio, às vezes até de cinco páginas, mas de equipamentos que param uma planta inteira. É muita informação interessante, mas que passa muitas vezes despercebida.

    Definitivamente a Praticagem NÃO SAFA.

    Nunca safou. Nem hoje, nem ontem, nem nunca. O profissional precisa de alguns anos para ter segurança no que faz e principalmente de interesse e compromiso com o que faz.

    Quando um Praticante termina a Praticagem, ele está “pronto” pra COMEÇAR na profissão. COMEÇAR…

    Só a experiência é que vai forjar o profissional completo.

    O final da Praticagem é apenas o começo…

    Se não houver um compromisso sério por parte do profissional, da Marinha e das empresas em relação à qualificação profissional, cada um dentro da sua responsabilidade e fazendo o seu, não adianta.

  6. Concordo plenamente com Rodrigo Cintra, é necessário comprometimento por parte dos oficiais principalmente e, em se tratando dos “maquinistas”, mais ainda. Cuidar de equipamentos cujas avarias podem conduzir a reparos dispendiosos ou mesmo à perda de vidas, cuidar dessas máquinas exige sim muita dedicação. Falando abertamente, tem muito garoto(a) que sai da escola e continua com a mentalidade de aluno por assim dizer, literalmente não quer saber de m…..nenhuma, é preciso mudar essa mentalidade, como bem dizia o Chefe Gabriel (TRANSPETRO) :

    ” Pra domar a fera (MCP) é preciso saber o que acontece dentro dela, é preciso enxergar o âmago do seu ser….risos ”

    conhecimento técnico ninguém adquire por osmose e quanto mais qualificado você é mais confiante você fica na hora do pega pra capar, maior a chance de, em poucas tentativas, safar a parada sem mais problemas e ver o “troço” funcionando denovo depois de muito e suor é uma das sensações mais gratificantes dessa profissão. Vamos correr atrás de treinamento pela empresa, cursos em terra, manuais etc…e mostrar que o marítimo/oficial brasileiro é tão bom quanto ou melhor que qualquer outro na face da terra.

    Saudações a todos os homens e mulheres comprometidos da nossa marinha mercante, em especial aos oficiais de máquinas, grandes guerreiros.

    TODA FORÇA À VANTE

    2OM ERICK MORAIS

  7. “e poderiam até existir espécies de convênios com as empresas, dividindo a formação do aluno, ora na Escola, ora na empresa. Isso seria simplesmente excelente para os alunos. ”

    Rapaz! Eu não sou do ramo, mas, o pouco tempo que tenho frequentando o assunto de navegação e vendo as informações de pessoas como vocês, que são da área, como acontece em escolas Européias, Norte-Americanas, Australianas , etc. Ou seja, como as escolas que seguem os sistema inglês

    • Tem anos que escrevi esse texto e não deveria nem dar ibope para esse tipo de declaração, mas existem outras formas de conhecer um mercado, Karlos. De acordo com a sua tese, o Alexandre Garcia não pode falar de economia, a Míriam Leitão não pode falar de política, o Juca Kfouri não pode falar de esporte…
      .
      É a velha tática de, na falta de argumentos, atacar o dono da ideia em vez da ideia…
      .
      Um resquício podre da democracia é permitir que esse tipo de comentário seja publicado. E como democratas, você sempre vai poder falar o que quiser, caro Karlos, mas é claro que sob a consequência de ter suas colocações devidamente respondidas.

  8. Bem, gostaria de ter tempo para poder escrever mais sobre isso..O praticante esta sendo aprovado,e pior assumindo como oficial sem saber coisas basicas de sua função. Ja fiz inspeção em barcos com 2 ON sem saber fazer passage plan,nem abort point..ta ficando triste..
    Se a formação ta falhando e você é aluno/praticante,se esforce,de o seu melhor..leia manuais,siga o mais antigo e aprenda algo.
    Sempre dê o seu melhor e não se contente em ser mais 1 a bordo.

  9. Boa Noite caros amigos de profissão,

    Lendo esta publicação é fácil reconhecer inúmeras passagens como reais, pois me formei pouco tempo no curso EFOMM/NÁUTICA. A escola está completamente parada no tempo, engessada em todas suas principais matrizes. Em três anos que pude passar lá, percebi que a EFOMM é menor das prioridades do CIAGA. Começando pelos simuladores. O simulador de passadiço, que todos nós, alunos, esperamos 3 anos pra poder pisar, é um misto de equipamentos ultrapassados e sucateados. Não podemos nem compará-lo com um passadiço dos anos 80! Sem falar , que ficamos apenas 20 minutos , isso mesmo, 20 minutos durante todos os 3 anos, pois o simulador foi fechado para a prova de prático! E quando surgia alguma oportunidade de algum evento exterior, como feiras da área offshore, congressos ou cursos ligados à nossa profissão , éramos vetados , pois haviam outras prioridades ( como marchar , ou treinar para alguma cerimônia). Enfim isso é apenas um pequeno relato, dos muitos problemas que enfrentamos.
    Mas como em qualquer profissão existem os que se formam para serem medíocres , e os que, apesar de toda dificuldade, conseguem superá-las e serem excelentes profissionais ! Não vamos generalizar, por favor !

    Att.,
    PON RAISSA MONTESE

  10. Horroroso ainda existir esse desserviço no Brasil… uma equipe de comandantes trazem um
    Navio de qualquer lugar do mundo e quando chega pra atracar precisa de um pratico ??! Pra que mesmo? Muitos entram e saem dos navios e não fazem nada, outros sobem bêbados ou drogados,
    e se fizerem uma cagada a empresa de praticarem não se responsabiliza por nada… será que os comandantes dos navios com seus sonares de todos os tipos e equipamentos de última geração,
    que mostram até um peixe pequeno a kilometeos de distância, não conseguem atracar ??? Pelamordedeus. Um absurdo ainda existir isso. Não deveria ser obrigatório, aliás tudo que é obrigatório é imoral, e no final o povo que paga pois esses custos milionários são repassados aos produtos.
    Acorda Brasil, Fim da contribuição sindical obrigatória e fim da praticarem obrigatória!!!!

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