Cruzeiro das Loucas: O despreparo dos passageiros e a necessidade de segurança à bordo desses navios

5
834

Como muita gente já leu aqui, além de Jornalista, Também sou Técnico em Segurança do Trabalho e desde que comecei o curso, a ideia geral é a de que é muito difícil se implementar os conceitos prevencionistas nas organizações, estabelecimentos, enfim, onde quer que seja.

Estive pensando agora comigo, se numa embarcação mercante, onde todos à bordo recebem treinamento de segurança, acidentes hediondos já acontecem, imagine num cruzeiro marítimo, onde as pessoas sequer perfil para embarcar têm e fazem a viagem com apenas um briefing de SMS? Complicado, não é?

O simples fato de se estar à bordo já dificulta as coisas. O ambiente é diferente, tudo é diferente, existe o desconforto e a saudade para quem está trabalhando e existe o calor e a euforia dos que estão à passeio. Todos têm “coisas mais importantes” para pensar e ninguém quer o chato do Safety Technician no ouvido mandando colocar o EPI. Tanto que em navios de cruzeiro isso nem existe.

No caso de um acidente, a probabilidade de haver mortes num navio de cruzeiro é muito maior, se pensarmos sob este viés. Lembrando, inclusive, que a periculosidade é a mesma. Estão ambos à bordo, não é? Neste ponto de vista específico, qual a diferença com um full-container? Os riscos são mais ou menos os mesmos, caso os procedimentos de segurança sejam cumpridos à risca.

No entanto, sabemos que em nenhuma das situações isso acontece. E isso aumenta os riscos, além de originar outros e causar acidentes que podem ser fatais no caso de se ter embarcado um grupo de milhares de pessoas completamente analfabetas em termos de segurança.

Ninguém acha que vai dar errado, a verdade é essa. Quem se preocupa com a segurança numa hora dessas, correndo o risco de ser chamada de chata, velha, ranzinza e caxias? Eu sei, porque passo por isso todos os dias. Meu trabalho é esse: Ver uma coisa e avisar, com o perdão da palavra: “Isso aí vai dar merda”.

Em 90% das vezes, realmente não dá, mas a ilusão de conforto que as situações inseguras criam (Prevenir é chato. Então, é mais legal não ligar para isso) é, acima de tudo, perigosa.

Aliás, esse conforto se manifesta de várias formas. Tem vezes em que o lucro fala mais alto, e a empresa excede o número de passageiros. Outras vezes, a economia fala mais alto e a empresa fornece EPI inapropriado ou de qualidade inferior. E tem outras vezes em que a esperteza fala mais alto, quando o empresário se pergunta: “Porque fazer esse movimento todo para emitir um PPRA, se tem um cara ali que assina um prontinho por qualquer 1000 reais?” ou ainda: “Para que se preocupar com a fiscalização, se o Auditor do MTE é gente minha?”, entre tantas outras vezes em que tantas outras coisas, infelizmente, falam mais alto que a segurança.

É algo que ninguém lembra que existe, até que corpos bóiam n´água. Aí a mídia cai em cima de um Comandante, porque o povo não quer que o problema se solucione. O povo quer o espetáculo… E espetáculo de verdade tem que ter a cabeça de alguém numa baixela. Daqui a pouquinho, pode apostar, CMT Schettino, sua cuca será a cuia onde a mídia vai comer seus miolos.

Enquanto isso, profissionais de Segurança do mundo todo estão trabalhando duro. Uns diretamente com o Costa Concordia, outros de longe, porque é assim que a Segurança evolui, investigando.

E um dos tópicos que pode ser abordado é justamente as normas de Segurança em navios de cruzeiros. A tripulação, precisa ser redobradamente instruída nesses termos e uma legislação especíica deve ser criada, porque, não sei se as autoridades perceberam, mas colocar um monte de gente que não sabe nada sobre preservação da própria vida, numa embarcação de longo curso, é, pelo menos para mim, situação de risco grave e iminente.

A maioria das pessoas só pensa em Segurança depois da casa arrombada. Infelizmente.

Um abraço, pessoal!

Por Marcus Lotfi

5 COMMENTS

  1. Quase passaram 100 anos de um caso bastante controverso na história da insegurança marítima. E tudo que disseram foi porque não tinha botes suficientes. E outros porque Carpatia, um barco próximo não forneceu ajuda. E agora a desculpa é da desenfreada economia, e não dão segurança aos navios?

    É, concordo com você Marcus. A segurança só é vista quando na ausência dela, e só sentida quando há perigo.

  2. Caro Marcos,

    Não é bem assim que a coisa funciona.

    Um profissional para ser garçon, camaroteiro, barman, recreador, vendedor de loja, funcionário do cassino, ou qualquer outra atividade a bordo que não seja o de artista de entretenimento é obrigado a fazer um curso sob a chancela da IMO conforme o descrito no STCW/95, Cap 5, Parte 3 (Regra V/3) onde ele é treinado para lidar com controle de multidões, sobrevivência no mar e procedimentos de emergência. Sem certificado, não embarca! Aqui no Brasil, algumas empresas estão certificadas pela DPC.

    A bordo do navio, um Of. Mercante com larga experiência tem uma função que é a de “Safety Officer”. Este profissional (que aqui no Brasil tem a função “empurrada” para 2ON mais moderno, quando na Europa, em navios de carga, é responsabilidade do 1ON, assim como o horário de 00/04) nem costuma tirar quarto de navegação. Ele é responsável pela manutenção, testes, inspeções e tudo o que diz respeito aos equipamentos de segurança e salvatagem. Além disso, ele é o responsável pelo programa de treinamento das equipes de contingência para casos de incêndio, abandono e outras emergências. Treinamentos ocorrem praticamente todos os dias e treinamentos gerais são feitos a cada intervalo de – no máximo – 2 semanas. Quando um cruzeiro começa (embarque de passageiros para iniciar um programa) é feito um treinamento nas primeiras 24 horas do mesmo. Isso é regra (SOLAS/LSA).

    Na divisão da lotação das embarcações salvavidas, vai haver sempre um Oficial por baleeira, quase sempre dois e além destes, marinheiros e pessoal com formação marítima é distribuído pela tabela mestra para haver uma “tripulação marítima” em cada uma delas. As equipes de controle de contingência e controle das “muster stations”, tem como função a reunião, contagem e condução dos passageiros para as estações de desembarque.

    Agora, apesar de tudo que se tem em termos de treinamento, recursos técnicos e normatização, o fator pânico é algo com o qual temos que lidar. Quantos relatos temos de ocorrências em navios mercantes, sem passageiros em que parte da tripulação entrou em pânico? São vários. Se com 20, 30 pessoas isso já gera problemas, imagine com 4.000 pessoas a bordo, sendo a grande maioria passageiros?

    Eu sei como é este tipo de sistema de trabalho por ter sido 2ON por mais de 1 anos em navio de passageiros fora do país entre 91 e 92. De lá para cá, o sistema, a regulamentação e as exigências de treinamento só aumentaram.

    Quanto aos passageiros, o “treinamento” (briefing) é basicamente para dizer: Caso ouçam o alarme ou um aviso pelo sistema de som, pegue seu colete e siga para sua “muster station”. Lá, o passageiro vai encontrar membros da tripulação para orientá-lo, conduzi-lo para as estações de desembarque, se for o caso.

    Uma pergunta: quando tomamos um avião, antes de embarcar fazemos algum curso sobre procedimentos de emergência como os pilotos, copilotos e comissários de voo? Não, né! Ouvimos o briefing antes do avião decolar sobre o que fazer! É a mesma coisa em um navio. Quem toma as ações é a tripulação.

    sds,

  3. Flavio
    Em resposta a sua pergunta, tenho uma visão bem diferente da sua.
    Em um avião, os passageiros estão muito limitados em suas ações, tais como utilizar as mascaras de oxigênio e em alguns casos abandonar o avião, pois não existem para-quedas e mesmo se existissem não fariam grande diferença.
    O uso das saídas de emergência só e possível, geralmente em terra, se for possível a sua abertura.
    Acidentes aéreos geralmente causam a destruição da aeronave, seja com o impacto em terra, no ar, e no mar.
    A despressurização pode matar os ocupantes de um avião, assim como a baixa temperatura, contaminação do ar e vários outros fatores.
    A flutuabilidade da aeronave e muito pequena, geralmente a fuselagem fica avariada e na maioria dos casos e impossível a a abertura das portas de emergência em uma queda no mar.
    Em um acidente aéreo ha muito pouco a fazer e não se necessita muito treinamento.
    Lembro que os únicos dentro de um avião que podem evitar a sua queda são o piloto e o copiloto, que também estão lutando por sua vida, em situações extremamente estressantes, muito mais que em uma embarcação.
    Eles não tem muito tempo para efetuar manobras ou outros procedimentos antes da queda, pois a sua velocidade de cruzeiro esta acima dos 800 Km/hora.
    Pilotos de avião, sim poderiam entrar em panico, não um comandante de navio, que esta muito longe do perigo em relação ao que acontece em um acidente aeronáutico.
    Principalmente se ele estiver flertando, bebendo ou outra coisa qualquer durante uma manobra perigosa e ainda abandonando covardemente a embarcação com seus tripulantes e passageiros.
    O maior índice de acidentes aeronáuticos são em terra, durante manobras de patio, pouso ou decolagem e a evacuação pelas saídas de emergência sempre serão tumultuadas e conduzidas pela tripulação (muito pequena), com raros relatos de abandono das suas responsabilidades, gosto do assunto e nunca ouvi nada parecido.
    Alem disso a sinalização de emergência em navios de passageiro e praticamente inexistente, veja meu relato de treinamento em outra seção. As pessoas somente receberão seu coletes salva-vidas se conseguirem saber onde encontra-los, eles não caem na sua frente quando é necessário, como no caso das mascaras de oxigênio em um avião.
    Obrigado.

  4. FALTOU COMPLETAR
    Em uma embarcação de cruzeiro os coletes salva -vidas são entregues somente na referida “muster station” que e um termo técnico de desconhecimento da maioria digamos dos discriminados terráqueos.
    Portanto a obrigação e dos marítimos e não dos alienígenas em fazer que os terráqueos tenham acesso aos dispositivos de segurança em um navio.
    NINGUÉM SABE EXATAMENTE ONDE FICA ESSE MALDITO LUGAR.
    ATE EM ALGUMAS FABRIQUETAS DE FUNDO DE QUINTAL EXISTEM ROTAS DE EVACUAÇÃO MARCADAS nas paredes, no chão em onde mais for possível.

  5. Ola achei bem interessante esse texto, eu tenho 17 anos vou fazer 18 em abril e to pretendendo fazer um curso tec. De segurança no trabalho, e adoraria trabalhar de Tec. De Segurança no Trabalho embarcado na marinha, quais cursos devo fazer? O salario e bom? E como e o dia a dia de um TST que trabalha embarcado? Desde ja agradecendo. Grande abraço

Deixe uma resposta