Recordar é vivier – Praticagem: O começo

6

Depois dos três anos na EFOMM enfim chegou a hora da Praticagem! Apesar das visitas a navios mercantes no período da adaptação e em embarcações de offshore no terceiro ano, é  na praticagem que tudo começa pra valer!!

Embarquei em no N/T Gurupá da Transpetro, navio de Gás Liquefeito de Petróleo,  como Praticante de Oficial de Máquinas, eu estava com muito receio de que tipo de ambiente de trabalho eu poderia encontrar lá, pois é um ambiente predominantemente masculino e ficava cheia de perguntas… E se, por preconceito, eles não me deixassem fazer as coisas?! E se houvesse assédio de algum tipo?!

Mas posso dizer a vocês que lá encontrei uma tripulação muito boa, em sua maioria, uma tripulação com jovens oficiais e bastante mulheres. Encontrei um ambiente mais familiar, presenciando por diversas  vezes famílias a bordo.

Apesar do número de mulheres ser grande, na máquina só tinha as três mulheres Praticantes.  O começo foi complicado, tivemos que ganhar a confiança dos Oficiais de Máquinas, porque sempre existe a questão das mulheres serem mais fracas ou simplesmente não acreditarem na nossa capacidade mesmo. Mas ao longo do tempo ganhamos a confiança deles e mostramos que a gente é sim capaz de fazer os mesmos trabalhos na máquina.

Na praticagem participei de uma docagem, onde pude ver a manutenção de alguns equipamentos e conhecer algumas coisas do navio que só podem ser reparadas ou verificadas com o navio totalmente parado, o que foi muito bom para o meu aprendizado. Vi que a gente pode aprender muitas coisas durante a praticagem, mas que é só o começo, pois ser maquinista é estar sempre aprendendo alguma coisa nova.

Chefe Agripino – Um grande Professor

Eu também lidei com pessoas dispostas a ensinar e outras nem tanto, que tinham um certo preconceito, achando que por sermos mulheres não saberíamos a diferença entre as ferramentas e nem aprenderíamos… Mas os que estiveram dispostos a ensinar, explicavam tudo e davam a oportunidade de fazermos as coisas sozinhas pra ir ganhando a responsabiliade inerente a nossa profissão.

Fui também ao lançamento do navio N/T João Candido, em Pernambuco, uma cerimônia bonita apesar de ter sido muito voltada para os funcionários do estaleiro e muito pouco para os Oficiais de Marinha Mercante, mas que marca a renovação da frota brasileira.

Pude perceber e viver a diferença que é ter uma boa tripulação a bordo. Foi a primeira vez que fiquei longe da minha família por tanto tempo e isso ajudou muito a amenizar a saudade de casa e das pessoas que se ama. Quando eu estava em Buenos Aires, por exemplo, na docagem do navio, meu sobrinho nasceu e eu fiquei muito triste por não estar lá, mas tive pessoas ao meu lado que se tornaram grandes amigos, além de colegas de profissão, e me ajudaram a passar por essa! Pessoas que me apoiaram quando a saudade apertava um pouco mais… Passei por esses meses com pessoas que hoje são muito importantes e que talvez não veja de novo, mas que foram essenciais durante esse tempo….

Praticantes do Gurupá

Sei que ser maquinista é abrir mão um pouco da vaidade também, mas só a bordo. A bordo eu coloco a mão na massa mesmo, não me preocupo se vou ou o quanto vou me sujar, porque o que importa mesmo é trabalhar e aprender, mas quando eu saio acho importante ter vaidade porque faz isso muito bem para nossa auto-estiama.

Foram 165 dias a bordo, o começo de uma carreira.

Digo mais: foi o momento de constatar que não poderia ter feito escolha mais acertada ao ser maquinista, ou maquibamba!

Por Nelsiane Carrara

6 COMENTÁRIOS

  1. Ainda lembro como se fosse hoje do meu embarque como Pratitica (Estagiário de Máquinas) no Grajaú.
    Isso na época em que havia o PIM.
    Realmente é um mundo novo e quando a gente olha para a Praça de Máquians pela primeira vez, nem sabe por onde vai começar.
    Querida Nelsiane, ser Maquinista vai muito além do que a gente pode imaginar, não tenha dúvidas disso, pois todo dia aprendemos algo novo.

  2. Eh bom poder ter participado de alguma forma desse momento que vou pasou, apesar de nao ser de maquinas. Otimo Navio. Tripulação muito BOA. Principalmente o pessoal de Maquinas. Que todos tenham uma oportunidade como essa que vc teve nelsiane.. PARABENS.. Sucesso na carreira.

  3. “O bom maquinista é aquele que não perde os espírito de praticante durante sua carreira”.(acho q vou patentear essa frase…rsss) Realmente Cintra, todo dia aprendemos algo novo, não importa se você está há anos em algum lugar, a diversão está nesse aprendizado!!!
    Não podemos perder nunca a vontade de aprender, o respeito pelos equipamentos e o entusiasmo típicos da praticagem!

  4. Vocês não imaginam minha felicidade ao ler o comentário da Nelsiane acerca da experiência dela na praticagem. Como sempre enfatizo na sala de aula, ser maquinista é se dedicar, com amor, a tudo que acontece em uma praça de máquinas. As mulheres, pela maior sensibilidade, têm todas as condições de desempenhar muito bem esta profissão. Parabéns a todas elas.

    Délio Almeida

    • Grande mestre Délio.
      Seja bem vindo ao Portal.
      Com certeza esse Amor é presente em tudo o que fazemos.
      As coisas que enfrentamos, após certo tempo, só continuamos com Amor à profissão mesmo.
      Só que está embarcado e vê a “boca da dala” é que sabe do que estamos falando.
      Forte abraço.

  5. Primeiramente parabéns a todos vocês.
    Um desabafo de uma mãe. Chorosa e orgulhosa ao mesmo tempo. Estou com o meu coração apertado um pedacinho de min hoje ocupa um pedacinho do navio Gurupa. Ler os comentários acima me trouxe um pouco de conforto, por perceber a satisfação na certeza de terem escolhido o que mais lhes completam como profissionais.
    Um grande beijo no coração de todos os que fazem parte do quadro da Marinha Mercante, que Deus lhes proteja.
    Shirlei B. Gonçalves

Deixe uma resposta