Zezé Safa Onça – Um "vapo" das antigas

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Qual é o preço justo para um serviço? Um Oficial de Máquinas da antiga, autêntico “vapozeiro” (ou vaporzeiro) foi contratado para consertar um enorme sistema de caldeiras de um navio a vapor, agora convertido em FPSO, mas ainda dependente da antiga (mas funcional) planta de vapor que não estava funcionando bem por um motivo até então desconhecido.

FPSO onde Zezé foi fazer o reparo na caldeira

Chegando ao Aeroporto de Macaé, Seu José Maria Matos, Oficial Superior de Máquinas aposentado e conhecido nos anos 60 e 70 na Marinha Mercante como “Zezé Safa Onça”, preparava-se para sua primeira viagem de helicóptero. Zezé tomou uns 8 cafés expressos no Aeroporto de tão nervoso que estava. Lembrava-se das cenas “de terror” do Curso HUET, onde aprendera as técnicas de escape em caso de um acidente com o helicóptero e fora homenageado como o aluno mais velho a completar aquele curso. Detalhe: ele não pegou tempo no curso não… Nas quatro descidas da cabine dentro da piscina ele se safou muito bem, melhor que muito jovenzinho que ali estava, mas estava morrendo de medo internamente, apesar de não aparentar.

Zezé no Aeroporto de Macaé - Vocês estão vendo ele ali, no meio da multidão? Não? Como não?! Bem, eu também não tô vendo, mas tá valendo assim mesmo, pois eu precisava colocar uma foto aqui e só achei essa...

Aquele helicóptero não podia cair. No way! O ano era 2005, já no finzinho, chegando dezembro, e Zezé Safa Onça completara 79 anos, mas com aparência de uns cinqüenta e poucos (vai, tô forçando… cinqüenta e todos, mas estava “inteiro”). Bem, o fato é que ele não aparentava idade que tinha.

Zezé em algum navio desses por aí - foto tirada em 1999, na casa da famosa Lúcia, em Madre de Deus - Nessa época Zezé já estava grisalho... (Foto tirada pelo Maquinista Xavier, o famoso "Xaxá", da Transpetro)

Seu porte era magro, de postura incrivelmente ereta e elegante, braços fortes, cabeça branca como a neve, contrastando com sua pele negra como a noite. A voz era uma melodia, voz essa que fizera muito sucesso nas antigas rodas de samba do Cacique de Ramos, do Arranco do Engenho de Dentro, do Boêmios de Irajá e da Grande Portela, em Madureira, isso sem falar nas serestas de beira de cais por esses portos da vida.

Zezé Safa Onça (a direita) jogando Capoeira no Cais do Porto do Rio de Janeiro - 1947

Jogava Capoeira, arte na qual era Mestre. Sua Capoeira era a de Angola, mais “malandreada” que a Regional. Dizem que, na sua praticagem, estando o navio em Salvador, Zezé foi ao recém fundado Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), no Largo do Pelourinho, na Bahia. Aquela era a primeira escola de Capoeira legalizada pelo governo baiano. Zezé foi lá, jogou Capoeira com os caras e foi elogiado pelo Mestre Pastinha em pessoa, que deu-lhe de presente um berimbau feito por suas mãos e um uniforme completo de sua Academia. O lendário conjunto formado por camisa amarela e calças pretas, que fora inspirado no uniforme do Ipiranga, seu time de coração.

Zezé Safa Onça com o pessoal do CECA - Na ponta esquerda, podemos ver Mestre Pastinha. Zezé Safa Onça, vestido com o uniforme que ganhara de presente, é o segundo da direita para esquerda.

Mestre Bimba, sabendo daquele carioca da clara de nascimento (nascera em São João de Meriti), mas carioca da gema por escolha (cresceu no Morro da Serrinha, em Madureira) bom de ginga, convidou-o para sua roda também.

Mestre Bimba e seus alunos - "Levamos um mofo do Zezé"

Zezé foi; na verdade tentou ir, pois o Comandante já soava o apito lá no cais e ele quase perde o navio. Deu um “mofo” no Mestre Bimba para não dar “mofo” no Pratica que estava de serviço. Sabe como é pra Pratica, né? Pega tudo se der um lance desses!

Segundo a Rádio Cipó, Safa Onça era fanchone até o osso. Sua voz melosa tinha conquistado mulheres de Oslo/Noruega a Punta Arenas/Chile e de Kobe/Japão a La Cruz/Venezuela. A fama do “negão” ia longe. Uns mais entusiasmados dizem que o filho de Mané Garrincha na Suécia era, na verdade, de Zezé Safa Onça. O pessoal da época diz que nada foi confirmado, mas que os indícios são fortes, até porque o navio onde Zezé era 1OM estava atracado em Gotemburgo durante a Copa da Suécia.

O pior é que Zezé embarcou num “tramp “da Doce Nave em 1994 e, após Rotterdam e Port Cartier sem ir para terra, pois prometera que ia tomar jeito, não agüentou quando o Doce Bay foi parar nos Estados Unidos, justamente no dia do jogo Brasil e Suécia, quando o baixinho Romário arrebentou. O negão foi pra terra, deu uma “voltinha”, comemorou a vitória do Brasil confraternizando com as torcedoras, pois a cidade estava muito animada no dia. Zezé deixou saudades e provou que “fanchonice” não tem idade. Saiu até foto nos jornais locais. O Chefe Newton Ramos, vizinho do Zezé até hoje na Ilha do Governador, estava a bordo e me contou tudo quando trabalhamos lá no Lochnagar, na Subsea 7. Podem perguntar para ele, que agora trabalha na Norskan.

"Volta Zezé!!!"

Bem, voltemos a Macaé, pois também sou “vapo” e se eu continuar falando do negão esta matéria não sai.

Pois bem. Zezé escutou a descrição feita pelo Oficial de Máquinas do navio quanto aos problemas, ali na FPSO chamado de Operador de “Sala” de Máquinas (pessoamente odeio este termo “Sala de Máquinas” – isto dói aos meus ouvidos) um rapaz recém formado, que praticara 6 meses (4 meses em um navio graneleiro e 2 meses em um rebocador) . Fez umas poucas perguntas, dirigiu-se à Praça de Máquinas e foi verificar as Caldeiras para verificar o ocorrido. No caminho esbarrou com um antipático polonês, um croata debochado, que mais parecia um mulambo, cheirava mal e que parecia estar sob efeito de alguma substância ilegal (Zezé pensou – Esse cara não tá puro…) e dois simpáticos filipinos, que só falavam “”yes”, yes”, “yes”, a tudo o que ele perguntava com seu inglês nível norueguês, construído e cuidadosamente lapidado por anos e anos de mar.

"Yes, yes, yes..."

Vale ressaltar que o negão falava alemão (idioma da maioria dos antigos manuais dos equipamentos), espanhol, francês (que aprendera com o lendário Comandante Sabatié) e ainda dava suas orelhadas no japonês. Sem esquecer da Língua do Maranhão… Vapozeiro que não fala a Língua do Maranhão está perdido…

Assim que a porta do elevador se abriu, nosso velho amigo teve a primeira emoção: estava, novamente, em uma Praça de Máquinas. A emoção foi forte, primeiramente, mas aquele velho coração vapozeiro, um órgão paradoxalmente duro como rocha e mole como manteiga (como a maioria dos vapozeiros de verdade) agüentou. Já passara por coisas piores a bordo de antigos navios. Em sua Praticagem, com apenas 16 anos de idade, no vapor Lloyd Buarque, em 1942, fora torpedeado, na Costa da Carolina do Norte, num ato de guerra, e teve que abandonar o navio. Aquele coração era realmente navegado e naquele peito havia medalhas de guerra.

Lloyd Buarque

Um humilde herói anônimo, como muitos da época da Guerra. Aquele vapozeiro, aquele representante da Marinha Mercante, sabia o que era ser um herói. Sim, campanhas, nós temos heróis.

O velho Maquinista adentrou a fornalha aberta. Olhou para o feixe tubular, um verdadeiro labirinto de tubos e mais tubos, escutou o ruído surdo da caldeira adjacente e o silvo do vapor que escapava, durante alguns instantes. Ficou pouco tempo ali dentro, mas teve que sair. Não porque estava sufocado ou coisa do tipo. Zezé era Maquinista com muito orgulho e já estivera em lugares mais fechados que aquele, mas sim porque seu coração batia forte. Muito forte. Mais uma emoção, mas ele não podia ceder. Era mais forte que isso.

Olhou a sua volta e um filme passou por sua cabeça…

Lembrou dos antigos navios que tripulara, desde o Lloyd Buarque até o NT Campos Salles da FRONAPE, onde encerrara a brilhante carreira como Chefe de Máquinas.

NT Campos Salles - Nesta foto ele ainda se chamava João Goulart - Foto tirada pelo Oficial de Máquinas Marcus Vinícius Lima Arantes, que foi Praticante do Zezé, e depois Terceiro

Depois ainda dera uns embarques no Felipe Camarão e no Barão de Mauá, mas só para safar onça, cobrindo férias de uns Chefes. Dizem que em 2001 ele estava de 1OM no Barão de Mauá e “comia um ferro que dava gosto”. Tanto era que o Comandante Luiz de Almeida Matos, o querido “Cabeção”, adorava aquele “nego véio”, como ele mesmo descrevia, cheio de disposição para trabalhar e que envergava com a mesma elegância de antes, nos eventos e recepções a bordo do VLCC, o lindo uniforme “azul de verão” da Marinha Mercante. Calça azul e camisa branca. Sapatos pretos engraxados de uma forma que dava para usá-los como espelhos. Isso sem falar no Comandante Menezes, que, em seu habitual “fino trato” com os Praticantes da Transpetro, sempre usava o negão como exemplo a ser seguido. Sempre lembro que, quando eu estava praticando no Lorena BR, três Marinheiros sempre falavam no “negão”: Pedro Vitório, o famoso “Baianinho”, que até apontador de cavalo já foi, Mariano e o famoso Pelezinho (barbeiro nas horas vagas). Os três, quando novos, na época dos classe “A”, eram muito “remo tortos” e Zezé tentou ensinar-lhes Capoeira, a pedido do Comandante Menezes e do Comandante Tavares, para ver se eles canalizavam aquilo de alguma forma, mas não deu certo, pois o “Trio Parada Dura”, como já diz o nome, era “parada dura” mesmo. Nas aulas o Mariano sempre tava cansado, o Pelezinho tinha algum cabelo para cortar e o Baianinho… Bem,  Pedro Vitório até que tentou, mas era muito desengonçado.

Soube, inclusive, que a FEMAR queria contratá-lo como professor, mas Zezé não aceitou, alegando ter razões próprias. Outro dia eu liguei para ele, mas ele disse que não comenta o assunto. Voltemos a narrativa.

Com suas enrugadas e calejadas mãos, Safa Onça apalpou alguns dos tubos daquele enorme feixe tubular. Olhou aqui e ali, conferiu a instrumentação já obsoleta, mas ainda funcionando do Painel de Controle da Caldeira.

Vendo sua insistência em olhar a antiga instrumentação, o jovem Oficial de Máquinas diz:

– Ô ,Velha Guarda! A gente nem olha isso aí. Esse negócio dá leitura errada. Tem que olhar lá no computador da Sala de Controle, se bem que vive dando problema no de lá também, e o Instrumentista sempre tem que vir aqui dar uma olhada.O negão reesponde:

– Meu filho, este manômetro está graduado em Libra por polegada quadrada, e , aparentemente, está em boas condições. É um instrumento de ótima qualidade e, pela etiqueta que está aqui, foi recentemente calibrado. Este manômetro foi fabricado no Japão, dura bastante tempo e não é de quebrar. Fora isso, as conexões estão todas íntegras, a não ser que haja alguma obstrução nestas redes capilares aqui por detrás do painel. O seu indicador do Centro de Controle de Máquinas, pelo que vi, dá a leitura em Bar. Basta você multiplicar por 14.5 a leitura em bar que você vai ter a leitura deste instrumento aqui.

Com o habitual ímpeto da juventude, fruto da inexperiência que tanto tenta se esconder atrás de palavras e mais palavras, o jovem Oficial de Máquinas responde:

– Que libra que nada, isso aí e psi, outra coisa, nada a ver.

O velho Safa Onça explica ao jovem colega que psi significa “pound per square inch” e não alonga muito a conversa, até porque ele, na hora do trabalho, é de falar pouco e agir muito. Só era de falar muito com Praticantes, pois sempre teve um cuidado especial com eles. Quando na ativa, seus Oficiais, sub Oficiais e Foguistas o admiravam pois, apesar de trabalhar em silêncio, ele sempre reunia o pessoal depois para um papo mais técnico a respeito das ocorrências. Isso sem falar nos papos nos salões (ele freqüentava todos – Oficiais, Sub Oficiais e Guarnição – tinha trânsito livre). Era calmo, muito calmo. Sempre fora ssim. Até se estivesse saindo na porrada com alguém, o negão era calmo.

A única coisa que o tirava do sério era o Jogo de Pitoco. Aquilo tinha um poder incrível sobre ele. Seu vício, além das mulheres, não era cachaça, era Pitoco. Ele tomava uma cachacinha de vez em quando, gostava de uma “branquinha”, mas era somente umazinha, para “ajudar na digestão”, segundo ele. Fumava um cigarrinho de palha de vez em quando também, mas esses eram hábitos, não vícios, pois era uma coisa esporádica. Seu vício ficava nos três salões dos antigos navios. Ali eles estavam, os tabuleiros, coloridos, feitos pelas mãos de vapozeiros que muito lembravam o Jogo de Ludo, mas eram chamados de Pitoco. O “raio” do Pitoco. O pessoal da Marinha de Guerra tinha algo parecido, um jogo chamado “Aliados”, mas Pitoco é Pitoco. Pitoco não é cinza. Pitoco é cáqui. Além de cáqui, o Pitoco era mais forte que ele.

Ele não conseguia controlar: batia o copo de couro, muito bem feito pelo Maquinista Ismíti (o nome era esse mesmo, devidamente acentuado, provavelmente uma tentaiva frustrada de registrar “Schmidt”), na mesa. Dava “dois menino” quando não podia, “dezoito” quando tava “no tiro do polícia por um” (às vezes de dois “polícias”). Quando saía com “dois trepado” então, Zezé perdia a esportiva, mas esse não era o grande problema. O verdadeiro problema era quando aparecia “perú de fora”. Ele falava “Perú de fora não dá peruada”, mas era uma vez só. Na segunda ele já levantava e partia para o braço. O fato é que, além de azarado no Pitoco, ele na verdade não entendia aquele jogo. Foram anos e mais anos de Marinha Mercante e ele não aprendeu a jogar Pitoco. Vai entender? Definitivamente Pitoco e Zezé não se davam bem. Inclusive uma vez sobraram uns sopapos para o Mestre Cabedelo (um dos muitos Mestres Cabedelos de nossa Marinha Mercante – desde aquela época a Dinastia Cabedelo já havia começado), que dava peruadas insistentemente em seu jogo. Mas pôxa, o Mestre só queria ajudar.

Capítulo a parte para este Maquinista com nome de gringo, o Ismíti. Seu nome era esse porque sua mãe, mulher de vida fácil, Dona Severina, sem saber que nome dar ao filho sem pai, escreveu este nome num pedaço de papel e deu para o moço do Cartório ali na Praça Mauá, próximo ao Edifício do Lloyd. Ela achava que garantiria um futuro de gringo para o filho brasileiro que, talvez, tivesse sangue gringo. Dona Severina era meretriz famosa, mas descuidada; fazia até trato com o “cão” em nome de seus interesses, mas aquele menino era seu filho e, para não ter problemas com responsabilidades (não gostava de responsabilidades, definitivamente) e por amor à criança, resolveu dar um nome de gringo para ela.

Severina, mãe do Ismíti - dizem que nem ela o Zezé perdoou...

O moço do Cartório, antigo cliente dela e “sem saco” que era (era um Carvoeiro aposentado do Lloyd), pegou e datilografou o que ela escrevera. Foi o famoso “embrulha e manda”. Ismíti era de uma tez clara, mas com os traços indígenas, os olhos verdes e um cabelo crespo, bem crespo mesmo. Sem condições de querer descobrir quem era seu pai, ou ao menos tentar descobrir de onde era seu pai, pois ali estava uma mistura total de raças e cores, do Brasil e do mundo. Não dava nem para suspeitar ou ao menos elucubrar sobre o assunto, ainda mais numa época em que a Genética não era tão avançada como hoje e nem era cogitado o exame de DNA. Dizem que Zezé “batia cartão” por ali também, sempre que ia passear na Praça Mauá. Inclusive, Ismíti foi para a Marinha Mercante porque tinha Zezé como exemplo e incentivador. Zezé fora, na infância de Ismíti, um tipo de referência paterna, mas o negão tratou de cair fora rapidinho, pois fez as contas e viu que aquela quilha não fora batida por ele. Bem, um dia eu falo dele mais detalhadamente.

Praça Maua - 1956 - Nessa época, zezé reinava absoluto nesse lugar. A bordo ele era Maquinista, mas ali ele era o Comandante

Voltemos ao Zezé:

Como disse, Safa Onça sempre foi de falar pouco e agir muito. Assim o fora na época da Greve de 1953, onde não “arregou”. Assim o foi também na época da Escola do Lloyd, desde a primeira confusão com os Aspirantes da Escola Naval em um evento com representação da Marinha no Teatro Municipal, Cinelândia, onde, por causa de uma bonita moça loira, de boa família, encantada com o “tamanho do contraste” da pele dela com a pele do “negão”, Zezé teve que usar de seus conhecimentos de Capoeira. Dois Aspirantes, ao verem o negão tirando uns amassos nas Escadarias da Biblioteca Nacional, ali por bombordo do Teatro Municipal, bem na Rio Branco, no meio da madruagda, foram em sua direção para zombar dele. A primeira coisa que falaram foi “Negão, dá um sorriso senão a gente não te vê, pois você está de Azulão”, e abriram uma gargalhada, até verem que conheciam a menina que estava com Zezé (namoradinha de um e irmã do outro) e decidirem (péssima decisão) avançar sobre o jovem aluno da Escola de Marinha Mercante.

Um rabo de arraia para um lado, um martelo cruzado para o outro, um chapéu de couro e um belo cruzado de esquerda resolveram a contenda (a esquerda do negão era sinistra, pior que Almirante Waldemar e Fabiano Ossola juntos, dizem por aí ). Foi coisa rápida: dois Aspirantes para o Hospital e o Zezé direto para uma viatura do SP, “educadamente” (aquela educação de Marinha) conduzido por dois Fuzileiros Navais que mais pareciam uns armários de tão grandes que eram. Um que conseguia ser mais escuro do que Zezé e outro que mais parecia um Gigante Alemão.

Os dois Fuzileiros que fizeram a escolta de Zezé, em um evento recente da Associação de Veteranos do Corpo de Fuzileiros Navais

O colorido do evento ficou, literalmente, Preto e Branco para Zezé. Ali Zezé teria seu primeiro encontro com o bailéu, onde o Alemãozão foi embora e foi o outro Fuzileiro que ficou de guarda. A coisa ficou preta para Zezé.

A menina envolvida na confusão, descendente de família alemã, estava encantada com sua pele negra, que de tão negra chegava a brilhar. Soube que aquela linda menina, que mais parecia uma boneca, foi a primeira a parir um filho de Zezé, isso já uns cinco ou seis anos após este ocorrido. Ao deixar o bailéu, Zezé deu um “J” de encontrá-la e aquele seria apenas o primeiro de muitos encontros por anos e mais anos, mesmo ela tendo casado com o Aspirante envolvido na confusão (ele a perdoara – erro grave nesse caso, ainda mais com o Zezé envolvido na estória, esse sim, “não perdoava” umazinha sequer – Zezé sempre dizia que quem perdoa é padre e quem dispensa é medico – ele era vapozeiro). Foi um verdadeiro escândalo quando, no seio daquela família branca como o 5.5 de Marinha, nasceu um menininho mulatinho com os olhos azuis.

Filho do Zezé - foto remasterizada por computador

A habitual altivez, seu porte esguio e elegante e a luz que emanava de Zezé , sempre foram uma faca de dois gumes. As mulheres adoravam e os homens invejavam. O negão era realmente pintoso. Dessa vez, a situação era complicada, pois, como já foi dito, um dos Aspirantes envolvidos na confusão era irmão da moça e o outro, o namorado. Que situação! Como se não bastasse, o pai de um deles era um Oficial de alta patente, condecorado da Primeira Guerra Mundial. Este oficial havia integrado a Divisão Naval em Operações de Guerra, comandada pelo Contra-Almirante Pedro Max Fernando Frontin, que havia sido incorporada à esquadra britânica em Gibraltar. O cara era um herói por ter participado do primeiro esforço naval brasileiro em águas internacionais. Ele era, naquela época, um Tenente; apenas mais um tenente a bordo, dentre tantos, mas estava ali e, por isso, só pelo fato de estar a bordo, era herói de Guerra. Vai entender…

Os dois envolvidos na confusão, após uma carreira de favores na MB, foram reformados como CF. Dizem que eles deram aulas no CIAGA como "Sopão", mas não pude confirmar

A confusão no Teatro Municipal foi apenas uma delas, pois Zezé era de confusão em lugares da alta sociedade. Vapozeiro adora “eventos” e ele não era diferente. Era Copacabana Palace, Hotel Glória, só coisa alto nível. E sempre por causa de mulher. Sem sombra de dúvidas ele foi (e ainda é) o maior fanchone da História da Marinha Mercante. Dizem as más línguas que ele, agora aos 84 anos, tem um filho de 2 anos e sua mulher, Dona Sidmar, uma bela morena nascida em Trombetas, mais de meio século mais nova que ele, das ancas largas e canelas grossas, está grávida de gêmeos.

E lá vou eu me perdendo em minha narrativa novamente…

Vapozeiro é fogo. Adora uma estória.

Continuemos então. Prometo que agora vou concluir.

Cantarolando “As Rosas Não Falam”, de Mestre Cartola, suavemente só para si, Zezé pediu para o jovem acender a Caldeira e este foi correndo ao CCM, onde o faria pelo computador, num moderno sistema acionado por “touch screen”. Várias tentativas e nada da Caldeira acender. O jovem Oficial, que tanto cantarolava na EFOMM: “Sou vapozeiro”, “Sou vapozeiro”, estava diante de uma Caldeira e chegava à conclusão que de vapozeiro ele não tinha nada. Por outro lado, ele estava diante de um belo exemplar de vapozeiro: Zezé Safa Onça. O negão by-passou o sistema de automação, apenas desligando os PLCs, tentou acender no manual, não conseguiu. Retirou os queimadores e limpou. Limpou também a fotocélula e, do nada, procurou em seu macacão alguma coisa. De repente, Zezé tira de um dos bolsos um pequeno martelo, com o qual bateu apenas uma vez numa válvula encaranda brilhante, que estava localizada por detrás da Caldeira de Bombordo, bem próxima à válvula garganta. Após instalar de volta a fotocélula e os queimadores, pediu que o jovem Oficial religasse os PLCs e solicitou que acendesse a Caldeira.

Zezé mexe nesse painel até de olhos fechados...

Entraram os ventiladores de tiragem forçada, depois a Caldeira seguiu a operação normal até que, após o arco voltaico no ignitor, o queimador começou a injetar o diesel e… EUREKA! Imediatamente, o sistema inteiro começou a trabalhar com perfeição e o velho vapozeiro viu que já poderia voltar para casa.

Turbina Parsons parada - Zezé quase teve um "treco"

Ficou triste com a velha turbina Parsons, parada, isolada, pois, apesar de ainda funcionar, aquela embarcação era agora uma FPSO. O vapor ali era usado para aquecimento geral e para 2 turbo geradores que, em paralelo com as turbinas a gás que estavam instaladas no convés, supriam toda a energia da plataforma. Lembrou de sua época, quando o “Atenção a Máquinas” era dado 24 horas antes, para que a turbina pudesse ser lentamente balanceada.

O velho manômetro começou, após alguns minutos, a indicar que havia pressão no tubulão.

Jovem Oficial com sua caixa de ferramentas

Zezé aproveitou e disse para o Jovem Oficial conferir tudo e ver o porquê, comparando as pressões no manômetro local com as dos indicadores digitais do CCM, de ele ter dito que bastava multiplicar por 14.5 a indicação digital que ele teria a analógica, dado pelo manômetro.

O jovem Oficial ficou hipnotizado com tudo o que ocorrera diante de seus olhos, largou a caixa de ferramentas no chão, e ficou maravilhado, principalmente por aquele martelinho, um martelinho milagroso, pois ficou o tempo todo desconfiado do velho e de olho no martelo, sem desgrudar a atenção dele.

Missão cumprida.

Quando o Armador do navio recebeu uma conta de R$10000,00, queixou-se de que o velho Oficial de Máquinas, já aposentado, só havia ficado na Praça de Máquinas durante 1 hora e que ainda havia pagado o helicóptero e o HUET para ele, e pediu uma conta detalhada.

Eis o que o Velha Guarda lhe enviou uma nota:

Total da conta………………..: R$10.000,00, assim discriminados:

Conserto com o martelo…..: R$ 0,50

Saber onde martelar……….: R$ 9.999,50 (incluindo o fato da fotocélula e queimadores estarem sujos, com visível falta de manutenção)

Ao chegar em casa, na Ilha do Governador (lugar onde residem milhares de vapozeiros da antiga), Zezé foi para a praia, como de costume, com seu velho vira latas, o Jupe (aí atras dele na foto), fumar seu cigarrinho de palha e tomar sua cachacinha, levada de casa numa garrafa de Big Coke. Zezé é um homem de hábitos simples…

Quer conhecer o Chefe Zezé? Entrem em contato com o Chefe Enéas, que foi meu Chemaq no FC Flamengo, pois o Enéas, pelo que sei, é sobrinho dele.

A última que eu soube foi que a Nelsiane, nossa colunista, ao encontrar com o velho há pouco tempo num evento em que estávamos, declarou o seguinte: “O Seu Zezé é uma gracinha… Não se fazem mais homens tão cavalheiros como ele..”

Bem pessoal… A estória é essa e eu não inventei nada não…

Isso é apenas o que me contaram por aí…

Zezé Safa Onça na Praia tomando uma cachacinha, ao lado do EISA

PS: Essa estória é fictícia, onde misturei personagens reais com fictícios, mas acontece por aí. Basta ver o choque de gerações. Outra coisa: já avisei que é fictícia porque, do jeito que é vapozeiro, daqui a pouco aparece gente aqui no site dizendo que andou com esse Chefe. (kkkkk)

Minhas cordiais saudações ao Chefe Enéas, Comandante Menezes, Comandante Luiz de Almeida Mattos e meus respeitos à família do Comandante Sabatié. Até o Almirante Waldemar e nosso blogueiro Fabiano Ossola (cruzado potente – eu já levei um dele em um treino de boxe há algum tempo atrás) foram lembrados. Minhas saudações também ao Pedro Vitório (Baianinho), Mariano, Pelezinho , Xaxá e Comandante Tavares (está em terra pela Transpetro em Fortaleza agora, pelo que soube). Chefe Newton Ramos, meu grande amigo… Estamos precisando comer novamente aquela comida maravilhosa e tomar aquele chopp no Siri da Ilha!

Forte abraço aos diversos Zezés que estão or aí, pois vapozeiro é sempre cheio de estórias para contar, e isso é mais um patrimônio da Marinha Mercante que temos que preservar. Espero que tenham gostado.

Quem não tem dinheiro, conta estória…

Força e Honra. Sempre!

Por Rodrigo Cintra

1 COMENTÁRIO

  1. Fui praticante no Lorena BR e realmente tentar controlar baianinho, mariano e pelé é impossível. Ah comandante Tavares, muito boa pessoa.

    • Fui Praticante lá também. Eu me lembro que o Mariano sentava ao lado do Chefe Resende todo dia pela manhã com um prato cheio de lingüiça, cebola e farinha.
      O Chefe Resende, que era todo cuidadoso com sua saúde, sempre passava um sermão para ele sobre saúde, alimentação etc.
      Cada coisa que o Resende falava era mais uma garfada daquelas “caprichadas” que o Mariano dava naquele prato.
      Eu sinto a maior saudade dessa galera. Aquela tripulação do Lorena BR como Comandante Tavares era simplesmente fantástica.

  2. olá a todos. rodrigo cintra, sou 2om recém formado e pratiquei no lorena br, não peguei o chefe rezende lá, mas gostaria de saber se você chegou a trabalhar com o 1om virginio que ja esta lá a um tempão. muito safo aquele cara. e o marinheiro de máquinas alexandre, to pra ver um coroa pra gostar tanto de trabalhar dentro da praça de máquinas como aquele.
    saudações marinheiras.
    nivaldo quirino- 2om.

    • Virgínio é propriedade do Lorena BR.
      Foi meu Oficial Instrutor na Praticagem e conhece o Lorena como poucos.
      Caladão, na dele…
      Tinha o Xavier também, o famoso Xaxá, que me ensinou bastante coisa naquele navio.
      O Marinheiro que me ensinava bastante coisa também era o Lucivando, de Fortaleza, e a gente tava sempre junto.
      Agora… Baianinho, Pelezinho e Mariano…
      São baluartes da Transpetro.
      Tem que fazer busto dos três lá na sede.
      Saudades dessa galera.

  3. Olá, meu nome é Marcos, esse conto serviviu muito de exemplo na minha Vida.
    Tenho 20 anos de idade e até ler esse conto, tinha dúvida que porfissão seguir, agora posso dizer vou me didicar muito nos estudos para entra na EFOMM e serei um Grande Oficial de Máquinas.
    Tirem um dúvida minha à FAETEC-RJ tem Máquinas Navais em nível Técnico, minha dúvida é, Técnico de máquinas navais tem grandes oportunidades no mercado? e se a remuneração e boa?
    Obrigado.

  4. Senhor Rodrigo Cintra.
    Por algum motivo não estou conseguindo visualizar a resposta.
    Será que o Senhor poderia enviar para meu Email é de grande importância essa informação.
    Por favor me tire essa dúvida se Téc. de máquinas navais é uma boa no mercado Naval.
    Meu Email: markin_214@hotmail.com
    Obrigado.

    • Não sei ao certo, Marcos. Se você for Técnico em Mecânica, pode tentar fazer o curso CAAQ, para tornar-se Condutor de Máquinas. Você também pode fazer o Concurso de Admissão para a Escola de Formação de Oficiais de Marinha Mercante, joga no Google que vc acha as informações.Talvez algum leitor possa te ajduar com isso. Sem certificação marítiima, te resta trabalhar nos estaleiros ou oficinas de reparos navais em terra.
      Boa sorte.

  5. A piada da martelada é antiga, ‘seu’ Zezé é mais um a “receber os créditos” pela precisão da mesma, mas o texto foi divertidíssimo!
    Estes senhores que navegaram antes mesmo de alguns dos nossos pais terem nascido merecem o respeito e a consideração que quase nunca damos aos mais velhos no Brasil.
    sds,

  6. Rodrigo Cintra texto muito bom, Sou filho e neto de “vapozeiro” falecido Comandante Nonato Ferreira dos Santos do “falecido” Lloyd Brasileiro, Tenho 41 anos e passei boa parte da minha infância e juventude nos navios do Lloyd nas decadas de 80` e 90` navios como Lloyd Tupiara, Lloyd Itapuã entre outros. Tive a oportunidade de viajar neles. Através do seu texto fiz uma volta ao meu passado com lembranças prazerosas. Mesmo sendo uma obra fictício tem parte dos texto que juro que já tinha visto rs. Infelizmente não segui a carreira do meu Pai, sou área de segurança do trabalho,Tenho o desejo de prestar uma homenagem a todos os marítimos que trabalharam no Lloyd e outras empresas marítimas nesta época onde foram “Guerreiros” para trabalhar naquelas. tenho posse de fotos, registros desta época. Desejaria compartilhar com você e seus leitores como eu, numa forma de homenagear além do meu pai todos aqueles deram de alguma forma contribuição para Marinha Mercante do Brasil. Grato pela atenção, forte abraço.

  7. Bom dia a todos,Sou o mcb Arnaldo trabalhei alguns anos no Lloyd e em varias outras pirangueiras por ai bela estoria embora seja retalhos de uma e de outra estoria não deixa de ser uma bela homenagem a todos os vapozeiros que sempre levaram o nome do Brasil aos oceanos e mares deste mundão de Deus.Minhas sinceras homenagens a todos os vapozeiros brasileiros e um grande abraço a todos.

  8. Parabéns Sr Rodrigo Cintra pela estória do Zezé Safa Onça – Um “vapo” das antigas. Precisamos muito conservar a memória da nossa Marinha Mercante e seus “Vapos”. Infelizmente os Novos Mercantes, não terão tantos contos a contar como os antigos…por isso é importante a preservação dessa memória.
    Samuel Lopes – 2 ON

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