A Marinha Mercante que queremos

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Há poucos dias me assustei com uma postagem de alguns profissionais recém formados dizendo que nós, os profissionais de Marinha Mercante, somos meros coadjuvantes perante a modernidade de um navio ou dos equipamentos de bordo. Fico me perguntando de que Marinha Mercante este pessoal está falando, e ao mesmo tempo eu me assusto.

O homem nunca será um mero coadjuvante quando interage com a máquina. Pensar desta forma é um erro. Pensar desta forma limita a busca pela excelência profissional e pelo verdadeiro conhecimento de Marinha Mercante, que envolve tantos conhecimentos, alguns milenares e outros ultra modernos.

Pensar desta forma coloca toda uma geração na direção do abismo profissional. Independentemente do tempo, independentemente da tecnologia, o fator humano sempre estará ali como um fator principal.

Uma Marinha Mercante moderna não pode deixar de lado o zelo e o cuidado pelo conhecimento, pelo tecnicismo, pela pesquisa e pelo ambiente acadêmico que deve buscar a direção da excelência na formação, educação continuada e na oferta de treinamentos que agreguem valor à carreira daqueles que atuam em tão importante atividade.

Os antigos faziam isso, por que não podemos fazer o mesmo?

Nas relações e interações dos homens do mar com os diversos tipos de navios e embarcações, equipamentos diversos, ferramentas e máquinas, o conhecimento sempre desempenhou um papel preponderante no desenvolvimento de processos cada vez mais eficientes e seguros.

No novo cenário, os profissionais, que antes eram avaliados apenas quantitativamente, agora são avaliados qualitativamente, criando uma mudança drástica no cenário da Marinha Mercante mundial. Os profissionais que antes eram avaliados apenas em relação ao quanto eram capazes de produzir e gerar lucro para as empresas, impulsionando a circulação de recursos financeiros, agora são avaliados de forma um pouco diferente.

Apesar de o volume ainda ser levado em conta, a qualidade tem feito a diferença, fazendo, desta forma, com que a capacidade de criação e inovação estejam agora em um patamar elevadíssimo nas relações de trabalho.

A capacidade de inovar e aperfeiçoar-se constantemente para um mercado cada vez mais desafiador e ávido por novas alternativas, tem diferenciado os profissionais que atuam nas atividades relacionadas à Marinha Mercante. Mais que isso, esta capacidade de interagir com as modificações e novidades de mercado é o que garante a permanência do profissional no Mercado de Trabalho. Algo bastante normal num segmento onde o nível de tecnologia embarcada só fica atrás do utilizado pelos astronautas nas naves espaciais.

Conciliar toda esta modernidade com os conhecimentos antigos sobre os diversos assuntos que norteiam a profissão é o grande segredo para que o profissional esteja a caminho de um nível de excelência. Esta é uma mudança irreversível em nossa profissão, exigindo uma estratégia bastante diferenciada para que não somente o presente, mas também o futuro, estejam devidamente garantidos.

No alto nível o Mercado pede um profissional que domine a parte científica, conhecendo os processos físicos e químicos, os modelos matemáticos e toda a ciência das relações humanas. Alguns vão além e fazem o que costumamos chamar de “enxergar Marinha Mercante além do costado do navio”, e entendem o papel preponderante de sua atividade quando inserida no cenário macro econômico mundial. Claramente se enxerga uma atividade de destaque, que movimenta mais de 90% da Economia mundial e que deve ser tratada com a importância que tem, exigindo, para isso, profissionais que tenham um nível técnico condizente.

Em nossa atividade os profissionais interagem todo o tempo com equipamentos sofisticadíssimos. Por isso, além do conhecimento técnico necessário para tal, o mesmo deve desenvolver o discernimento necessário para ser um verdadeiro agente do processo de tomada de decisão. Não tem improviso, Não tem chute. É uma sequência de vidas, um conhecimento milenar que veio evoluindo paulatinamente, alimentado por uma Engenharia fantástica.

O valor de Mercado deste profissional já está atrelado à qualidade de sua formação e em características bem particulares e inovadoras como criatividade, dinamismo, proatividade, empreendedorismo, adaptabilidade e resiliência.

A única forma de chegar a este nível de profissionais é através da Educação de qualidade, tanto na formação como no aperfeiçoamento. Um processo contínuo que dá a oportunidade ao profissional não apenas de “pegar um papel”, mas de realmente agregar valores à sua formação quando retorna aos bancos escolares, quer seja em um curso do Ensino Profissional Marítimo que esteja na grade oficial da Autoridade Marítima ou num curso inovador ministrado por alguma empresa particular.

O papel é o que menos importa num cenário onde o conhecimento diferencia o profissional, destacando-o da multidão.

Para chegar a este nível, a Educação Marítima deve ser elevada a outros patamares, buscando um alto nível de tecnicismo ao mesmo tempo em que busca a formação de profissionais capazes de interagir de fato com equipamentos, sistemas, indivíduos e cenários diferentes, tendo a perfeita percepção de causa e efeito e de todos os riscos e consequências inerentes à todas as suas atividades. Vivemos na Sociedade do Conhecimento e, por isso, os indivíduos são fundamentais.

Segundo Peter Drucker, que é considerado o pai da Administração moderna e principal pensador contemporâneo dos efeitos da globalização da Economia Mundial, a Administração de qualquer atividade é definida como a Ciência que trata sobre pessoas nas organizações. Drucker diferenciou brilhantemente conhecimento de informação. Conhecimento não reside em um livro, em um banco de dados, em um programa de computador: estes contêm informações. O conhecimento está sempre incorporado por um indivíduo, é transportado por uma pessoa, criado, aplicado, ensinado e transmitido por ela. O conhecimento é usado, bem ou mal, por uma pessoa, não sendo algo frio, impessoal.

Desta forma, temos um cenário desafiador que nos provoca a todo momento a pensarmos em novas estratégias para preparar os profissionais para atuar neste novo contexto.

Não pode haver a opção entre a teoria ou a técnica. Ambas devem ser ensinadas de forma associada a fim de buscar a otimização na utilização dos diversos meios de produção.

Tal fato exige profissionais altamente qualificados e treinados, pois será exigido desses profissionais uma altíssima capacidade de tomada de decisões que envolvem a segurança e salvaguarda da vida humana no mar, o meio ambiente e milhões de dólares em ativos de diversas organizações.

Essas decisões geralmente devem ser tomadas num curto espaço de tempo e com bastante autonomia. Tal fato, inevitavelmente, concentra um certo nível de poder nas mãos do profissional, e é neste momento que a Ética deve igualmente nortear todas as suas ações, uma vez que elas vão interferir diretamente no destino coletivo.

Os talentos do ser humano como memória, raciocínio, imaginação, capacidades físicas, sentido estético, facilidade de comunicação com os outros e carisma natural, dentre outros, conforma esta necessidade de cada um se conhecer e se compreender melhor.

Já não basta mais ter “apenas” o conhecimento, mas sim ter o que Edgar Morin chamou de “conhecimento pertinente”, totalmente voltado para avaliar cada coisa de forma contextualizada, com toda a sua complexidade dentro do cenário em que se encontra. Literalmente é saber que manobrar com mar 11 a mais de 200 milhas da costa não é a mesma coisa que manobrar num mar de almirante dentro de águas abrigadas.

Seu conhecimento te leva aonde e de que forma? Você garante que a manobra vai dar certo apenas com o que aprendeu na teoria? Você garante que vai segurar seu barco ao lado da plataforma perdendo um thruster sem ter dado uma lida no FMEA do DP?

O que garante a confiabilidade do seu trabalho? Eu gostaria de convidar você, colega da Marinha Mercante, a refletir sobre isso.

Essa reflexão pode mudar a sua vida profissional a partir de agora.

Você é realmente interessante para o seu empregador ou você “é o que tem pra hoje”? Você está aí agora com esse macacão ou este uniforme porque era a melhor opção ou porque se for despedido a rescisão é muito alta?

Pense nisso. Ao contrário do que muitos disseram nos últimos anos, isso importa sim. Importa tanto quanto “estar na folha”.

É primordial entender que as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo como o nosso são muito determinantes e não adianta virarmos as costas para isso. Você frcha uma válvula errada na Praça de Máquinas e o barco abalroa uma plataforma. E tudo num piscar de olhos.

Não somos os responsáveis pela Marinha Mercante que encontramos ao chegarmos nela, porém, precisamos fazer alguma coisa pela nossa Marinha Mercante e pela que vamos deixar para os que chegarão no futuro.

E isso quer dizer que tudo o que foi conquistado pelos que passaram, o espaço nos navios, o destaque dos brilhantes profissionais que singraram o mar até o início dos anos 90, marcada por uma pujante frota empregada no longo curso, deve servir de exemplo para a atual geração.

A geração de sucesso mais recente é marcada pelo offshore e pelo declínio da atividade marítima em face à crise do petróleo. Porém, nesta geração, também houve uma época de ouro, que podemos destacar de 2000 até 2011, onde os que se formaram tiveram ótimas oportunidades e um bom espaço no mercado, o que permitiu que se destacassem agora no Offshore.

Um cenário muito parecido com o do início dos anos noventa está aí novamente e o esvaziamento da Marinha Mercante é algo iminente, uma verdadeira debandada profissional que, mais uma vez, vai causar o mesmo abismo que separou tecnicamente a geração de antes dos anos 90 da geração pós 2000.

O profissional de Marinha Mercante tem que lidar hoje com mudanças e diversidades tecnológicas, econômicas e culturais, e por isso precisa ter características como iniciativa, atitude e adaptabilidade. Diariamente é exigido do profissional mais empenho e mais eficiência, sempre buscando a melhor aplicação dos recursos para um resultado mais efetivo.

Neste cenário onde as informações circulam na velocidade da internet, o fluxo dos conhecimentos disponíveis atualmente é tão grande que ninguém pode conseguir a totalidade do conhecimento, mas devem buscar isso ao máximo.

É triste, muito triste, ver a geração mais recente colocando o navio acima do profissional. Confiando numa suposta infalibilidade do equipamento, criado por nós, seres falhos, mais do que em suas capacidades. Mas fazer o quê? O conhecimento vem se perdendo ao invés de vir se adaptando em nossa Marinha Mercante e a tecnologia disponível, que deveria servir de incentivo para se buscar mais conhecimento, tem servido de muleta para muitos, como verdadeira desculpa para não o buscarem, já que tem um computador fazendo por ele.

É a velha história dos que apertam botões para isso e aquilo, sem ter a mínima noção de todo o processo que ocorre após ele apertar aquele botão, a ponto desses profissionais realmente acreditarem que estão ali “para apertar botões” apenas.

Nesta nova Marinha Mercante onde não se lê manuais, não se segue linhas na praça de máquinas, não se usa o sextante, não se joga pitoco e não se fala a “Língua do Maranhão”, eu me pego diversas vezes achando que o errado sou eu, mas rapidamente tomo um banho de realidade quando olho para o Mercado. Os problemas da Marinha Mercante são outros.

Às vezes me pergunto se estamos construindo uma nova Marinha Mercante ou se a estamos destruindo. Não consigo enxergar outra saída que não seja a busca pela excelência técnica de nossos profissionais, tornando-os internacionalmente cada vez mais atrativos.

Assim, nossa prática profissional deveria buscar a conexão constante entre teoria e prática, experiência e modernidade, associando esses fatores e correlacionando a teoria aprendida com com as experiências que são acompanhadas da investigação reflexiva, criando um vínculo entre elas e levando o profissional de Marinha Mercante a compreender as consequências da experiência, reconhecer seu sentido e desenvolver o pensamento científico.

E sendo justos e baseados em altos valores todos os nossos propósitos, não há mais tempo para amadorismo, não há mais tempo para tentativa e erro.

Colegas, não há mais tempo a perder.

E o básico disso tudo, não apresenta nada de novo: buscar a excelência técnica através do estudo é algo antigo, que é muito bem representado naquela típica situação onde o Praticante pergunta ao Chefe de Máquinas alguma coisa e o mesmo devolve com a velha pergunta… “Já leu o manual”?

O tempo urge e a Educação, a Ciência e o Tecnicismo são as únicas formas de passarmos a nossa Marinha Mercante à limpo, não importando se você desempenha sua função a bordo ou em terra.

A grandiosidade da Marinha Mercante exige o mesmo de seus profissionais.

Que possamos fazer nosso melhor dentro daquilo que nos propusermos.

Por Rodrigo Cintra

3 COMMENTS

  1. Rodrigo Cintra, parabéns pelo artigo. Valeu mesmo. Agora, indo numa outra direção, pergunto: por que os nossos estaleiros estão se limitando à crise por que passa o Brasil? Não seria essa a oportunidade de as indústrias navais se enquadrarem em avanços tecnológicos e de produção de novas naves?

  2. Mesmo com a realidade das embarcações não tripuladas, existirá a necessidade de um operador de terra para conduzi-las. O marítimo deve conhecer TODOS os recursos da embarcação, sejam os de maior tecnologia, bem como os recursos da mais básica marinharia, o mar é uma caixa de surpresas e devemos estar sempre prontos para qualquer situação.

  3. Complementando o post acima, questiono a colocação destes “recém formados”.
    Hoje estes formandos da EFOMM (ao menos os de Náutica) passam mais tempo estudando cálculo, física e química do que navegação, manobra do navio, oceanografia, meteorologia, arte naval, estabilidade… matérias de fundo profissional.

    Recentemente tive a bordo dois praticantes, recém formados. Eram dois dos melhores alunos da turma e assustei-me com a falta de conhecimento – ainda que teórico – sobre o que é um navio, seu emprego, sua construção, regras de navegação, princípios de estabilidade e uso de equipamentos (a escola tem simuladores para quê?) como um radar, uma repetidora da giro ou o console do GMDSS (que os mesmos tinham o curso como feito e apresentaram seus certificados). O único equipamento que eles mostraram saber extrair informações foi o GPS, pra plotar na carta a latitude e longitude. Contudo, apontei para símbolos e informações na carta, perguntando o que eram e eles não sabiam a maioria dos mesmos.

    Há algum tempo comentei que estava preocupado com o que estão ensinando na escola. Pelo visto, está piorando a cada ano que passa!

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